
Encontro bilateral ressalta tensão entre Mercosul e Estados Unidos (Foto: Instagram)
A proposta de acordo entre Mercosul e Estados Unidos agride diretamente o conceito que orientou a criação do bloco regional. Desde a assinatura do Tratado de Assunção, em 1991, os países-membros combinaram esforços para proteger suas economias por meio de uma tarifa externa comum e de políticas de integração supranacional. A negociação bilateral com os Estados Unidos, porém, põe em risco esses princípios, ao privilegiar interesses individuais em detrimento do compromisso coletivo estabelecido há mais de três décadas.
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O Mercosul nasceu com a meta de promover o desenvolvimento econômico e social de seus integrantes — Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, posteriormente associados por Bolívia e Chile — por meio de um mercado comum que reduzisse barreiras tarifárias internas e cobrasse tributos uniformes para produtos importados de fora do bloco. Já os Estados Unidos, tradicional parceiro comercial global, sempre negociaram em bases bilaterais, buscando acordos específicos que atendam a suas próprias cadeias produtivas e interesses geopolíticos.
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Ao avançar na negociação de tarifas reduzidas para produtos industriais e agrícolas em separado, o convênio com os Estados Unidos pode enfraquecer o poder de barganha do Mercosul em fóruns multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC). A adoção de cláusulas de flexibilização de cotas de importação e de normas de origem menos rigorosas, por exemplo, contraria o regime de proteção pró-integração que até então garantiu certa estabilidade às economias de menor porte no bloco.
Especialistas em comércio exterior alertam ainda para a possibilidade de que cada país do Mercosul passe a buscar acordos independentes com outras potências, abrindo precedentes para uma desintegração parcial do mercado comum. Esse movimento configuraria um retrocesso em relação ao objetivo inicial de unificação política e econômica, pois diluiria o caráter supranacional que distingue o Mercosul de outras zonas de livre-comércio.
A reação de governos da região tem sido de cautela. Enquanto o Brasil e o Uruguai defendem negociações com os Estados Unidos visando ampliar o acesso a tecnologias e capitais, Argentina e Paraguai enfatizam a necessidade de preservar o regime de preferências tarifárias internas. A discrepância de visões expõe um dilema central: manter coesão interna ou atender a demandas externas imediatas, sem comprometer a solidez institucional construída ao longo de 30 anos.
No horizonte, o Mercosul enfrenta o desafio de conciliar a atração de investimentos e a penetração em mercados estratégicos com a manutenção de seu arcabouço jurídico e político. A negociação com os Estados Unidos serve de alerta para a urgência de revisar procedimentos decisórios, aprimorar mecanismos de compensação e reforçar o compromisso de todos os membros com o projeto original de integração regional, sob risco de ver desmoronar o pilar central que o sustentou desde sua fundação.

