
Brasília celebra a Quarta-feira de Cinzas com multidão ainda na Esplanada, simbolizando o fim dos desfiles e o início do recolhimento. (Foto: Instagram)
Com o encerramento dos desfiles e dos batuques que embalaram multidões, a quarta-feira de cinzas chega linda como uma Porta-Bandeira ao lado do seu Master-Sala. Esse momento marca a transição imediata entre o ápice do Carnaval e o início de um período de recolhimento, dando ao folião a sensação de passagem de um grande espetáculo para uma reflexão coletiva. A imagem da Porta-Bandeira conduzindo a bandeira e do Master-Sala abrindo alas simboliza, de forma poética, o fim de uma festa vibrante e o anúncio de uma nova etapa no calendário religioso e cultural brasileiro.
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A quarta-feira de cinzas representa, no calendário cristão, o primeiro dia da Quaresma, período de 40 dias que culmina na celebração da Páscoa. Tradicionalmente, ela recebe esse nome porque os fiéis recebem uma pequena cruz de cinzas na testa durante cerimônias litúrgicas, gesto que remete à humildade e à efemeridade da vida. No Brasil, a data costuma ser marcada por missas em paróquias de todas as regiões, ao mesmo tempo em que ainda ecoam os sinais de alegria deixados pelos blocos de rua e pelos salões de festa.
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Historicamente, a imposição das cinzas foi formalizada no século XI, na Europa medieval, mas só se popularizou amplamente a partir do Concílio de Trento, no século XVI. No Brasil, além do rito religioso, a expressão “quarta-feira de cinzas” ganhou conotação cultural ao longo dos anos, servindo também para caracterizar a sensação de “ressaca” dos festejos carnavalescos. É comum, por exemplo, que jornais e programas de televisão façam retrospectivas dos melhores momentos do Carnaval e convidem o público a se preparar para o silêncio dos dias que se seguem.
No universo do samba e das escolas de samba, a figura da Porta-Bandeira e do Master-Sala tem papel central durante o desfile. Enquanto a Porta-Bandeira exibe com maestria o pavilhão da agremiação, o Master-Sala atua como seu par de dança, protegendo-a e destacando o símbolo máximo da escola de samba. A perfeita sintonia entre os dois tradutores do samba enredo, aliada à coreografia ensaiada, é fundamental para a conquista de notas máximas junto à comissão julgadora. Essa coreografia elegante e calculada, porém, dá lugar ao recolhimento que se inicia com a chegada da quarta-feira de cinzas.
O contraste entre o brilho das fantasias, as cores vivas dos carros alegóricos e o ritual de recolhimento simbolizado pela cerimônia das cinzas traduz a riqueza da cultura brasileira. Em grande parte do país, as ruas começam a voltar ao ritmo habitual de trabalho e estudo, enquanto algumas cidades ainda sediam cortejos mais contidos, como as serenatas de rua ou as tradicionais folias de reis, que mantêm viva parte da musicalidade popular mesmo fora do período oficial de Carnaval.
Essa quarta-feira de cinzas, portanto, cumpre duplo papel: encerra o ciclo festivo mais popular do Brasil e introduz uma fase de introspecção coletiva, pontuada por ritos religiosos e manifestações culturais de menor escala. Ao lado da Porta-Bandeira e do seu Master-Sala, o povo brasileiro experimenta o contraste entre o descanso dos confetes e a espiritualidade das cinzas, retomando o cotidiano sob um novo olhar, mais sereno e, talvez, mais consciente da própria efemeridade dos momentos de celebração.

