
Modelo anatômico destaca áreas de endometriose no sistema reprodutor feminino (Foto: Instagram)
A endometriose é uma condição ginecológica que afeta milhões de mulheres, causando dores severas, alterações intestinais, desconforto durante o sexo e infertilidade. Apesar de ser uma doença comum, muitas mulheres demoram anos para receber o diagnóstico correto. Isso se deve a sintomas que podem ser confundidos com cólicas menstruais normais, além de dificuldades de acesso a exames e especialistas capacitados para identificar a doença.
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A doença ocorre quando células semelhantes às do endométrio, que reveste o útero, crescem fora dele, afetando ovários, intestino e outras estruturas. Esses focos reagem aos hormônios menstruais, causando inflamação e dor. O ginecologista Geraldo Caldeira, da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, explica que o uso de anticoncepcionais pode mascarar os sintomas, atrasando o diagnóstico.
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“Muitas mulheres usam anticoncepcionais para evitar a gravidez, o que pode mascarar os sintomas da endometriose. A cólica diminui e o fluxo menstrual reduz, fazendo com que a paciente não perceba que algo está errado”, afirma. A endometriose está diretamente ligada à infertilidade feminina, sendo a principal causa. “Toda mulher que tenta engravidar sem sucesso deve ser investigada para a doença”, complementa.
SINTOMAS DA ENDOMETRIOSE
- Cólica menstrual intensa que começa dias antes da menstruação e pode durar durante todo o período.
- Dor profunda durante o sexo, que pode persistir como cólica após o ato.
- Alterações intestinais ou urinárias, principalmente durante a menstruação.
- Sensação de inchaço abdominal e desconforto digestivo.
- Diarreia ou intestino solto durante a menstruação.
- Dificuldade para engravidar ou infertilidade.
EXAMES QUE AJUDAM A IDENTIFICAR A DOENÇA
Após a avaliação clínica, alguns exames são essenciais para confirmar a endometriose. O ultrassom transvaginal com preparo intestinal é o principal, permitindo uma observação detalhada da pelve e possíveis focos da doença.
“O ultrassom transvaginal com preparo intestinal é o método preferido para identificar a endometriose em várias regiões da pelve, especialmente quando feito por profissionais experientes”, explica o ginecologista Alexandre Pupo Nogueira, da FEBRASGO. A ressonância magnética pélvica também é utilizada para identificar focos, aderências e comprometimento de órgãos. Geraldo destaca que esses exames requerem experiência para detectar lesões menores.
“Não é o ultrassom ginecológico de rotina que diagnostica a endometriose. É um exame com preparo intestinal realizado por profissionais habituados a identificar a doença. Em muitas cidades, há poucos locais com essa especialização”, afirma. Quando há cistos ovarianos associados à endometriose, chamados endometriomas, o diagnóstico é mais simples. Casos com lesões pequenas ou em áreas menos evidentes são mais difíceis de identificar.
Em algumas situações, a confirmação definitiva só ocorre por cirurgia, quando o médico visualiza diretamente as lesões e realiza biópsias.
BARREIRAS NO SISTEMA DE SAÚDE
Além da dificuldade em reconhecer os sintomas, especialistas apontam que o próprio sistema de saúde pode atrasar o diagnóstico. Alexandre destaca que o primeiro obstáculo é o acesso à consulta médica e a profissionais qualificados.
“O acesso à saúde no Brasil é desigual e a formação médica varia muito. É crucial que o médico esteja atualizado e investigue ativamente os sinais e sintomas da endometriose”, afirma. Outro problema é o tempo reduzido de consulta, especialmente em atendimentos de planos de saúde.
“Muitas consultas ginecológicas duram apenas quinze minutos. Nesse tempo, é difícil realizar uma investigação completa dos sintomas e um exame adequado”, comenta.
A realização dos exames necessários também pode ser um desafio. A ressonância magnética, por exemplo, é cara e nem sempre disponível na rede pública ou nos planos de saúde. O ultrassom especializado também depende de profissionais experientes na identificação da doença, o que ainda é um gargalo em muitas regiões.
CAMINHOS PARA MELHORAR O DIAGNÓSTICO
Os médicos defendem que aumentar o acesso à informação e criar centros especializados podem ajudar a reduzir o tempo para o diagnóstico da endometriose. Para Alexandre, o Brasil já avançou nesse campo, mas ainda há espaço para melhorias.
“O país tem um papel importante na pesquisa e tratamento da endometriose. Já conseguimos reduzir o tempo entre os primeiros sintomas e o diagnóstico, mas ainda precisamos ampliar o acesso à informação para pacientes e médicos”, destaca. Uma estratégia sugerida é a criação de centros de referência dedicados ao diagnóstico e tratamento da doença, semelhante ao que já acontece em áreas como a oncologia.
“A endometriose é uma doença complexa e muitas vezes requer tratamento cirúrgico especializado. A primeira cirurgia é a mais importante e deve ser feita com o máximo de cuidado para evitar procedimentos incompletos ou repetidos”, explica. Para os especialistas, ouvir atentamente as queixas das pacientes e ampliar o acesso a exames e profissionais especializados são passos fundamentais para que menos mulheres convivam com dor por anos antes de receber o diagnóstico correto.


