
Protesto de moradores de Perus contra a instalação de incinerador no antigo Aterro Bandeirantes (Foto: Instagram)
Desativado desde 2007, o antigo aterro sanitário Bandeirantes, localizado em Perus, na zona norte de São Paulo, voltou a ser tema central de debates nesta terça-feira (31/3), após uma audiência pública sobre a proposta de instalação de um incinerador de lixo no local. O projeto, denominado Unidade de Recuperação Energética (URE) Bandeirantes, integra o plano da Prefeitura de SP para melhorar o tratamento de resíduos na cidade, mas enfrenta forte oposição de moradores e grupos ambientais.
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A audiência pública, realizada no CEU das Artes, foi marcada por tensão e alta participação popular. O auditório atingiu sua capacidade máxima, deixando muitos moradores do lado de fora, sem poder participar da sessão. Durante o evento, tanto apoiadores quanto críticos do projeto se manifestaram com vaias e interrupções frequentes.
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De acordo com a Logística Ambiental de São Paulo (Loga), que lidera a iniciativa em parceria com a prefeitura, o Ecoparque Bandeirantes é visto como um passo importante na modernização da gestão de resíduos sólidos da capital. O projeto inclui a construção de um complexo com diversas unidades operacionais, como triagem inteligente, biossecagem, biodigestão, compostagem e recuperação energética através da incineração controlada para geração de eletricidade.
Para a concessionária, o projeto está em sintonia com os princípios da economia circular e promete reduzir significativamente o volume de lixo enviado para aterros. No entanto, moradores e movimentos socioambientais, como o grupo Incineração de Lixo em Perus, Não!, levantam preocupações sobre possíveis impactos ambientais e sociais. Entre as preocupações estão a emissão de poluentes, riscos à saúde da população local e o desestímulo a políticas de redução, reutilização e reciclagem de resíduos.
Durante a audiência, o Metrópoles conversou com Thaís Santos, moradora de Perus, que acompanhava a movimentação do lado de fora do auditório. Ela expressou a preocupação de que o debate não está sendo conduzido de forma justa.
Thaís argumenta que existem alternativas à incineração, mencionando a política dos "cinco R's" — reduzir, reutilizar, reciclar, repensar e recusar — como opções que ainda não são suficientemente exploradas na cidade.
A localização da usina também foi um ponto central nas discussões. O local destinado ao projeto fica a cerca de 7 quilômetros da Terra Indígena Jaraguá e próximo ao Parque Anhanguera, uma das maiores áreas verdes da capital. Lideranças indígenas presentes no evento enfatizaram a necessidade de incluir essas comunidades no processo decisório.
Moradores da área também destacam preocupações com o antigo Aterro Bandeirantes, que ainda conteria resíduos de biogás e metano, levantando temores sobre riscos ambientais.
Durante a audiência, Thaís Santos destacou a proximidade com o território indígena ao criticar o projeto. "Estamos a poucos quilômetros e essas comunidades não foram consultadas", afirmou. Sua fala ressoou entre os participantes que pedem estudos de impacto mais aprofundados antes de qualquer avanço no projeto.
Segundo a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), existem 294 aterros sanitários em operação no estado, que concentra o maior volume de resíduos do país. Na região metropolitana de São Paulo, há 11 aterros, sendo que dois estão na capital, que ainda recebe a maior parte dos resíduos.
Outras unidades de recuperação energética estão planejadas para Santo Amaro e São Mateus, com projetos conduzidos pelas concessionárias Loga e Ecourbis, sob supervisão da SP Regula.
Os impactos ambientais do projeto são interpretados de formas diversas. Um estudo do Instituto Polis sugere que a reciclagem pode gerar mais empregos comparado à incineração e que o alto custo das usinas pode desestimular outras fontes renováveis, como a energia solar.
Por outro lado, a Loga defende que as Unidades de Recuperação Energética utilizam tecnologias modernas, com controle de emissões e benefícios ambientais, além de reduzir o volume de lixo em aterros. A empresa afirma que o modelo já é adotado em outros países como parte de uma estratégia sustentável de gestão de resíduos.


