
Braskem fecha acordo de governança com Petrobras e Shine I (Foto: Instagram)
Na última semana, um dos mais complexos casos corporativos do Brasil avançou para uma solução. A Novonor, anteriormente conhecida como Odebrecht, anunciou a venda de sua participação na Braskem para um fundo de private equity. A Petrobras, que também possui parte da empresa, concordou com a transação e decidiu não exercer seu direito de controle sobre a companhia.
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João Luiz Zuñeda, da MaxiQuim, empresa especializada em análise de mercado no setor químico, explica que existem pelo menos duas razões principais que justificam a decisão da Petrobras. “A primeira é que definitivamente não é o momento de estatizar a Braskem”, afirma. “Isso ocorreria se a Petrobras assumisse o controle da empresa.”
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Zuñeda destaca que a Braskem enfrenta uma fase delicada em vários aspectos. Em 2025, a empresa apresentou um balanço financeiro deteriorado, com um prejuízo líquido de R$ 10,9 bilhões no quarto trimestre, um aumento de 82% em relação à perda de R$ 5,648 bilhões no mesmo período de 2024. A dívida total da empresa chegou a R$ 51,8 bilhões, sendo R$ 47,6 bilhões em moedas estrangeiras.
A situação também é complicada fora do Brasil. A Braskem Idesa, operação da empresa no México, entrou em “default” após não pagar juros de títulos com vencimentos para 2029 e 2032.
Zuñeda também observa que o acordo entre a Novonor e o fundo de private equity não é desfavorável para a Petrobras. A estatal continuará na gestão da petroquímica e sua influência pode até aumentar, tornando desnecessário que a Petrobras assuma o controle total da empresa.
De acordo com comunicados ao mercado, a Novonor vendeu 50,1% das ações ordinárias e 34,3% do capital total da Braskem para o Shine I Fundo de Investimento em Participações (FIP), gerido pela Vórtx e assessorado pela IG4 Capital.
A Petrobras assinou um novo acordo de acionistas com o fundo Shine I, mantendo 36,1% do capital total e 47% das ações com direito a voto. A Novonor permanece no negócio, mas sem controle, com 4% do capital total.
O conselho de administração da Braskem será compartilhado entre a Petrobras e o Shine I, com ambas as partes indicando o mesmo número de membros. Todas as decisões da empresa precisarão de consenso entre a estatal e o fundo de private equity.
“O novo modelo de governança da Braskem deve aumentar a influência da Petrobras nas decisões da empresa”, diz Zuñeda. “Isso pode ser vantajoso tanto em questões estratégicas quanto operacionais.”
A gestão conjunta entre a Petrobras e o fundo pode gerar sinergias significativas. A Petrobras é a principal fornecedora de nafta para a Braskem, essencial na produção de plásticos e responsável por 70% dos custos da petroquímica. “Com o novo acordo, as relações comerciais podem se tornar mais favoráveis, mesmo sendo duas empresas de capital aberto”, explica Zuñeda.
Entretanto, existem riscos no negócio. A governança compartilhada pode elevar o nível de governança, mas também pode reduzir a agilidade nas decisões, criando possíveis impasses.
Zuñeda também alerta para a necessidade de alinhamento entre os interesses da Petrobras e do fundo. “É importante evitar desinvestimentos, especialmente nas operações no México e nos Estados Unidos, que enfrentam crises”, afirma. “Apesar dos desafios no setor petroquímico, a Braskem deve buscar o crescimento.”
O anúncio dos acordos foi recebido com cautela por analistas. O Citi, por exemplo, publicou um relatório afirmando que não espera grandes ganhos para a Braskem com a mudança no controle acionário.
O relatório do Citi destaca que as principais melhorias para a empresa devem vir de um cenário mais favorável para os spreads petroquímicos. Além disso, a análise identifica riscos, como a possibilidade de um pedido de recuperação judicial.
Essa perspectiva levanta a hipótese de que, até a transferência de controle ser concluída, a Braskem possa buscar proteção judicial contra execuções de dívidas.
Independentemente disso, o acordo entre a Novonor e o fundo Shine I, com o aval da Petrobras, resolve um dos principais impasses empresariais do país. Com a crise da Lava Jato em 2014, a Odebrecht ofereceu ações da Braskem como garantia de empréstimos.
Com a deterioração da Odebrecht, bancos tentaram vender as ações da Braskem. A primeira tentativa foi em 2018, com a LyondellBasell, mas o negócio não avançou, prejudicando a reestruturação da Odebrecht.
Desde então, vários interessados surgiram, como Apollo Global Management, Unipar, Adnoc, J&F Investimentos e Nelson Tanure, mas nenhum negócio foi concretizado.
Vários fatores contribuíram para a frustração dessas negociações. Zuñeda aponta que a crise no setor petroquímico nos últimos anos foi um deles.
No entanto, a crise em Maceió, onde a extração de sal-gema pela Braskem causou um desastre socioambiental, também pesou nas desistências. O incidente resultou no afundamento do solo, desocupação de cinco bairros e reassentamento de cerca de 60 mil pessoas.


