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Polarização política no Brasil reflete guerra de trincheiras, diz Felipe Sampaio

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Eleitores brasileiros em trincheiras políticas diante da urna (Foto: Instagram)

Durante a Primeira Guerra Mundial, houve um momento de estagnação total. As tropas francesas e alemãs esgotaram seus recursos materiais e táticos, impossibilitando qualquer avanço sobre o inimigo. Entre 1915 e 1917, sangrentas escaramuças ocorriam ao longo de extensas trincheiras, sem que se pudesse identificar um vencedor. Nesse cenário, todos perdiam. A situação só mudou com a adoção de novas tecnologias, como tanques e aviões, e a entrada dos soldados e dólares americanos na luta contra os alemães.

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O processo eleitoral brasileiro dos últimos 10 anos lembra essa guerra de trincheiras. Desde o impeachment (mal explicado) da Presidente Dilma Rousseff, setores mais retrógrados da economia e política brasileiras arrastaram partes conservadoras e mal informadas da sociedade para um confronto polarizado contra o Partido dos Trabalhadores, culminando na prisão (mal explicada) do candidato progressista à Presidência e na eleição de um extremista da anarcodireita.

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Desde então, o debate político no Brasil foi sistematicamente degradado, desde o noticiário até as conversas de bar, com o eleitor médio votando mais por rejeição a um dos lados do que por um projeto de País. A visão de futuro perde sentido em guerras de trincheiras. Justiça seja feita, o atual governo brasileiro tem conseguido reverter importantes indicadores sociais, econômicos e ambientais internamente. Além disso, atua com inteligência em debates sobre multilateralismo, mudança climática, geopolítica e comércio exterior.

Revisitar o livro “A Diplomacia na Construção do Brasil”, do embaixador Rubens Ricupero, é essencial. Ele atualiza a definição de potência para o século XXI, oferecendo ao Brasil um novo impulso. Ricupero identifica a superação da ideia de potência baseada na “coerção militar e econômica”, abrindo espaço para outras qualidades do Estado de direito e da soberania nas próximas décadas. Não se trata de disputar a vaga de superpotência, ocupada apenas pelos EUA. Porém, o embaixador vê que, em um futuro baseado no Princípio da Segurança Coletiva, “a escolha histórica [brasileira] de não ser uma potência militar típica, [diversifica] os tabuleiros onde podemos jogar como atores de peso” (especialmente em tempos de aquecimento global e desglobalização).

O ex-ministro sugeria que a nova chance para o Brasil seria “ajudar a construir essa outra noção de ser potência”. O País deu sinais de sua vocação na COP30, na articulação do BRICS, no acordo Mercosul – União Europeia e no recente climão do tarifaço ianque. Ricupero reforça a esperança de que podemos nos reposicionar como ator relevante nos temas ambiental, científico, soberania alimentar, transição energética e governança multilateral. O governo Lula mostra reconhecer esse potencial brasileiro. Isso não nos isenta de superar fragilidades estruturais, como a desigualdade, a criminalidade, os abusos raciais e de gênero, a corrupção e a degradação ambiental.

A polarização eleitoral anima os meios de comunicação, favorecendo a política com ‘p’ minúsculo e o atraso socioeconômico, realimentando um ciclo vicioso que drena energia das questões fundamentais, em favor de interesses particulares. Esse tipo de disputa retarda nossas agendas estratégicas, deixando fora do radar nacional as questões que orientam a pauta global deste século. Trincheiras não impulsionam ninguém para frente.

Felipe Sampaio: Cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; foi empreendedor em mineração; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; foi subsecretário de Segurança Urbana do Recife; é diretor de programas no Ministério do Empreendedorismo.

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