
Técnica de radiologia denuncia agressão por senador e reforça cenário de violência contra profissionais de saúde (Foto: Instagram)
Ser chamada de "imunda" e "incompetente" ou até mesmo levar um tapa no rosto durante o atendimento não é uma situação isolada para a técnica de radiologia que denunciou ter sido agredida pelo senador Magno Malta dentro do Hospital DF Star, em Brasília. Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPE-DF) em 2025, com 702 profissionais de saúde, revelou que 69,1% dos entrevistados já foram vítimas de algum tipo de violência no ambiente de trabalho.
++ Sistema de IA revela como gente comum está criando renda passiva no automático
O incidente envolvendo um senador da República ocorreu no Hospital DF Star, em Brasília, no dia 30 de abril. Na ocasião, a técnica de radiologia relatou ter sido agredida enquanto atendia o parlamentar Magno Malta (PL-ES), que estava internado após passar mal no Congresso Nacional. Segundo a profissional, ela era responsável por conduzir o paciente à sala de exames, monitorá-lo e iniciar uma angiotomografia de tórax e coronariana, incluindo o teste com soro para acesso venoso.
++ Jovem mata o padrasto para defender a mãe e o inesperado acontece
Durante o exame, ao iniciar a aplicação do contraste, o equipamento teria detectado uma oclusão, interrompendo automaticamente o procedimento. A técnica afirma que, ao verificar a intercorrência, constatou o extravasamento do líquido no braço do paciente e explicou a necessidade de compressão no local afetado para evitar complicações. Nesse momento, conforme o relato da jovem, o senador teria reagido agressivamente, levantando-se do equipamento e, ao se aproximar para prestar assistência, ele teria desferido um tapa em seu rosto, entortando seus óculos. Em seguida, a técnica afirma ter sido insultada de "imunda" e "incompetente".
Assustada, ela saiu imediatamente da sala de exames e chamou a equipe médica, incluindo uma enfermeira e um médico. Ela relata sentir dor e vermelhidão no rosto após a agressão e afirma estar com medo de um novo contato com o paciente. O caso foi registrado em um Boletim de Ocorrência na Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) no mesmo dia, e o Hospital DF Star informou que abriu uma investigação administrativa para apurar o ocorrido.
Nas redes sociais, o senador negou as acusações de agressão e declarou que nunca encostou a mão em ninguém, classificando o caso como "falsa comunicação de crime". "Vocês me conhecem. Eu nunca encostei a mão em ninguém, nem nas minhas filhas, nem em nenhuma mulher", disse.
Em nota divulgada por sua equipe jurídica, a defesa também afirmou que o parlamentar estava sob forte medicação e com a cognição comprometida no momento do atendimento, alegando que ele teria reagido ao sofrimento físico durante o exame e acionado imediatamente o médico responsável, sem direcionar qualquer conduta contra a profissional de saúde.
O caso motivou uma manifestação marcada para esta quinta-feira (8/5), às 7h30, em frente à unidade de saúde. A mobilização reúne entidades da enfermagem em protesto contra o aumento da violência no ambiente de trabalho e para exigir mudanças estruturais nos serviços.
Em entrevista ao Metrópoles, a presidente da ABEn-DF, Karine Rodrigues, afirmou que as reivindicações incluem a criação de fluxos seguros de denúncia e de apuração dos casos dentro das instituições. Segundo ela, há um cenário de medo entre as profissionais. "Os profissionais têm medo de retaliação e acreditam que nada vai acontecer", disse.
Os dados reforçam esse contexto: apenas 15,2% das vítimas de violência física registram ocorrência formal. Nos demais casos, os índices variam entre 10,2% e 14,8%, o que, segundo a entidade, está ligado ao medo de retaliação e à descrença na resolução dos casos.
Karine defende, ainda, que os hospitais garantam acolhimento às vítimas, com suporte administrativo e jurídico, além de campanhas educativas voltadas a pacientes e trabalhadores. A violência no ambiente de trabalho também impacta a saúde mental das profissionais, com relatos frequentes de estresse em 74,4% dos casos, ansiedade em 67,2%, além de medo e desmotivação.
Ela também destacou que a falta de profissionais nos plantões contribui para o aumento da tensão nas unidades. “Quando falta equipe, o paciente fica mais impaciente e isso pode gerar comportamentos agressivos”, afirmou.
Os hospitais concentram a maior parte dos registros de violência contra profissionais de enfermagem, sendo o principal local de ocorrência identificado na pesquisa. É dentro dessas unidades que os episódios se repetem com mais frequência, em um ambiente marcado por alta demanda, sobrecarga de trabalho e longas esperas por atendimento.
Dentro dos hospitais, os setores mais críticos são a internação, as Unidades de Terapias Intensivas (UTIs), as salas de triagem e os corredores de circulação. A triagem aparece como um dos pontos mais sensíveis por ser a porta de entrada do atendimento, onde se define a ordem de prioridade e há maior contato inicial com pacientes e acompanhantes. Já as UTIs e as áreas de internação concentram situações de maior gravidade clínica e forte carga emocional, envolvendo pacientes em estado crítico e familiares sob estresse.
Também em espaços de atendimento de urgência, como prontos-socorros e unidades de pronto atendimento, a combinação entre superlotação, demora no atendimento e pressão por respostas rápidas contribui para um ambiente de maior tensão, favorecendo episódios de conflito entre usuários e equipes de saúde.
Os dados da pesquisa mostram que o perfil dos agressores muda conforme o tipo de violência, mas os pacientes aparecem como os principais responsáveis nos casos mais diretos. Na violência física, eles concentram a maior parte das ocorrências, com cerca de 79% dos registros, seguidos à distância por familiares e acompanhantes. Já na violência verbal, os pacientes também lideram, mas com participação mais distribuída entre outros grupos: acompanhantes, familiares e, em menor proporção, colegas de trabalho, o que reflete um ambiente de maior tensão durante o atendimento.
No caso do assédio moral, o padrão muda completamente. Nesse tipo de violência, que está mais ligado às relações internas de trabalho, as chefias, supervisores e coordenadores aparecem como os principais responsáveis, seguidos por colegas de equipe. O recorte reforça que a violência na enfermagem não vem de uma única fonte, mas se manifesta tanto na relação direta com o paciente quanto dentro da própria estrutura hierárquica dos serviços de saúde.


