
Olhar intenso reflete a sensação de déjà vu (Foto: Instagram)
A sensação de déjà vu, onde uma situação nova parece estranhamente familiar, é um mistério que intriga cientistas há décadas. Apesar de ser um fenômeno comum, ainda não é completamente compreendido: especialistas sugerem que o déjà vu está relacionado a um "descompasso" entre sistemas de memória, especialmente no lobo temporal, responsável pelo processamento e organização das lembranças.
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O psiquiatra Oswaldo Petermann Neto, da Doctoralia, explica que o déjà vu ocorre quando o cérebro ativa a sensação de familiaridade sem uma memória real associada. “O cérebro possui sistemas distintos: um que reconhece algo como familiar e outro que recupera memórias contextualizadas. No déjà vu, há ativação da familiaridade sem que exista uma memória real associada”, esclarece.
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O neurologista Diogo Haddad, do Alta Diagnósticos em São Paulo, reforça que esse fenômeno tem uma base neurológica bem definida. “Do ponto de vista neurológico, acreditamos que seja um descompasso entre os sistemas de memória. O cérebro reconhece algo como familiar antes de conseguir identificar de onde vem essa lembrança”, afirma.
O déjà vu pode ser influenciado por fatores emocionais e físicos. Ansiedade, estresse e privação de sono aumentam a excitabilidade cerebral e prejudicam o processamento adequado das informações, favorecendo a sensação de familiaridade falsa.
Segundo Petermann Neto, o cansaço mental também interfere na capacidade do cérebro de checar a realidade. “Isso pode gerar uma falsa sensação de reconhecimento, como se o cérebro ‘identificasse’ algo que, na verdade, é novo”, diz.
Do ponto de vista neurológico, estruturas como o hipocampo e o lobo temporal têm papel central no déjà vu. Essas áreas ajudam o cérebro a diferenciar experiências novas das já vividas. Quando há uma ativação inadequada, surge a sensação de repetição.
Além disso, o fenômeno pode aparecer em alguns transtornos psiquiátricos. “Quando ocorre com muita frequência ou intensidade, pode estar associado a quadros de ansiedade, transtornos dissociativos e, mais raramente, transtornos psicóticos”, acrescenta o especialista.
Em alguns casos, o déjà vu pode estar ligado a condições neurológicas mais sérias, como a epilepsia do lobo temporal. “Nesses pacientes, o déjà vu pode ser mais intenso, repetitivo e vir acompanhado de outros sintomas, como sensação de medo, alteração de consciência ou comportamentos automáticos”, explica Haddad.
Ele também alerta que o fenômeno pode funcionar como uma “aura neurológica”, ou seja, um sinal inicial de crise epiléptica. Por isso, episódios frequentes ou associados a outros sintomas devem ser investigados.
Apesar de comum, o déjà vu nem sempre deve ser ignorado. Episódios ocasionais são considerados normais, especialmente em jovens ou em períodos de estresse. No entanto, há sinais de alerta.
“A avaliação clínica é recomendada quando os episódios se tornam frequentes, intensos, prolongados ou vêm acompanhados de alterações de consciência, lapsos de memória ou sensação de estranheza intensa”, orienta o psiquiatra. Nesses casos, exames como eletroencefalograma e ressonância magnética podem ser indicados para investigar possíveis alterações no cérebro.
O uso de substâncias também pode influenciar o fenômeno. Álcool, drogas e até alguns medicamentos podem interferir nos circuitos cerebrais e aumentar a ocorrência de déjà vu.
Embora, na maioria das vezes, seja apenas uma curiosidade do funcionamento mental, o déjà vu pode ser um sinal importante quando foge do padrão. Entender o que acontece no cérebro é essencial para diferenciar o que é normal do que merece atenção médica.


