Decisão dos EUA sobre PCC e CV gera polêmica em Minas Gerais

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Agentes da SEJUSP escoltam suspeito durante a Operação Cerco Fechado em Belo Horizonte (Foto: Instagram)

Belo Horizonte – A decisão dos Estados Unidos de incluir o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) na lista de organizações terroristas gerou um novo debate político e técnico no Brasil.

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Em Minas Gerais, a discussão é intensa. O governador Mateus Simões (PSD) tem louvado a medida como um "benefício" estratégico. Em contrapartida, Luiz Flávio Sapori, especialista em segurança pública e pesquisador da PUC Minas, criticou a decisão como injustificável, ineficaz e uma ameaça à soberania nacional.

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Na manhã de segunda-feira (8/6), Simões participou da cerimônia de abertura das comemorações dos 251 anos da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) e aproveitou para comentar os resultados da prisão de 50 criminosos na Operação Cerco Fechado, lançada há mais de uma semana contra o crime organizado no estado.

“As facções estão começando a tentar movimentar seus estoques de armas e drogas. Minha recomendação ao criminoso quando é pego é exatamente essa: entregue-se”, afirmou o governador. Simões destacou ainda que, após os primeiros dias de combate às facções, o Estado estaria retomando o espaço nas comunidades. Em Belo Horizonte, as forças policiais estão concentradas nos aglomerados da Serra, Cabana do Pai Tomás, Vila Cemig, Morro do Papagaio e Morro das Pedras. “Estamos entrando em um momento de pintura das comunidades para retirar todas as marcas de presença das estruturas criminosas e temos novas etapas sendo deflagradas ao longo desses dias de apoio social à comunidade.”, disse Simões.

O OTIMISMO DO GOVERNADOR
Em uma coletiva de imprensa após uma grande operação contra facções no início do mês, primeiro dia da Operação Cerco Fechado em várias cidades do estado, Mateus Simões não poupou entusiasmo:

“Fico feliz que tenha sido reconhecido o caráter de organizações terroristas internacionais. Isso vai permitir que a gente possa fazer os bloqueios internacionalmente. Nós vamos começar a assistir dinheiro sendo bloqueado dessas organizações criminosas através de ordens emanadas pelo governo americano.”
O governador aproveitou para atacar duramente o Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente o ministro Alexandre de Moraes:

“A decisão do Alexandre de Moraes de restrição do uso policial dos relatórios do Coaf é um desserviço ao Brasil. Só protege vagabundo e bandido. […] É uma pena que a gente não esteja conseguindo fazer o nosso trabalho aqui.”

Para Simões, a medida americana compensa as limitações impostas pelo Judiciário brasileiro.

ESPECIALISTA REBATE: “DECISÃO DESPROPOSITAL E INÚTIL”
Em entrevista ao Metrópoles, o professor da PUC Minas Luiz Flávio Sapori, um dos maiores especialistas em segurança pública do país, rebateu a visão do governador:

“A decisão do Trump é proposital, injustificável, desnecessária, inútil. Por uma razão muito simples: o Comando Vermelho e o PCC não são organizações com fins ideológicos e políticos, então não têm um viés terrorista.”
Sapori questionou até a relevância estratégica das facções para os EUA. “Eles traficam cocaína principalmente para a Europa, Ásia e África. Não há qualquer vinculação do tráfico internacional de drogas para os Estados Unidos que passe pelo PCC ou Comando Vermelho. É diferente dos cartéis mexicanos e colombianos.”

RISCO À SOBERANIA E CRÍTICA POLÍTICA
O especialista foi ainda mais duro ao analisar possíveis consequências práticas.

“Eu vejo um grande risco à soberania nacional com essa decisão norte-americana. Isso justificaria uma decisão unilateral dos Estados Unidos de intervir no território brasileiro. […] Os militares americanos não conseguem nem proteger a fronteira deles contra os cartéis mexicanos. E vão ser capazes de proteger as fronteiras brasileiras?”
Sobre a fala do governador, Sapori não poupou críticas. “Uma fala lamentável de quem está apenas se comprometendo com uma ideologia bolsonarista. Ele está pensando nas eleições. Não é uma fala técnica da segurança pública. É uma fala política de apoio ao bolsonarismo.”

CHOQUE DE VISÕES: SUFOCAMENTO FINANCEIRO X RISCO REAL
O governador Mateus Simões explicou que os 26 territórios escolhidos para a Operação Cerco Fechado foram mapeados há meses pela inteligência da Polícia Militar, com base na presença consolidada e na tendência de dominação territorial por parte das facções criminosas.

Para Simões, o principal caminho para vencer o crime organizado não passa pelo confronto armado nas ruas, mas pelo sufocamento financeiro. “A única forma de combater o crime organizado no Brasil é promover o seu sufocamento financeiro. Nós não defendemos guerra em rua”, declarou. Ele destacou que a operação deflagrada não registrou mortes nem disparos, reforçando que o objetivo não é o enfrentamento direto com os agentes, mas inviabilizar a atividade econômica das facções dentro do estado.

“Nossa lógica é inviabilizar a atividade econômica deles dentro do estado, atrapalhá-los o quanto seja possível para que eles entendam que aqui não é lugar. Quer ser crime organizado, vai para outro lugar para trabalhar”, concluiu.

Enquanto Simões defende que a classificação americana ajudará no “sufocamento financeiro” das facções, Sapori alerta para o risco de a medida prejudicar a cooperação já existente entre PF e FBI, além de abrir caminho para sanções econômicas que podem atingir empresas e instituições brasileiras sem ligação com o crime.

“Uma eventual retaliação dos Estados Unidos contra bancos e empresas não vai mudar muita coisa da realidade brasileira. Vai prejudicar muito a economia brasileira.”
UM DEBATE QUE DIVIDE O PAÍS
A decisão do governo Trump transformou-se em mais um front da polarização brasileira. De um lado, o governador Mateus Simões vê uma oportunidade histórica de enfraquecer financeiramente as facções. Do outro, o professor Luiz Flávio Sapori enxerga uma medida precipitada, ideológica e potencialmente danosa à soberania nacional.

Enquanto as operações continuam nas ruas de Minas Gerais, o debate sobre como — e com quem — o Brasil deve combater o crime organizado ganha ainda mais intensidade.

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