Ataques de tubarão em Pernambuco podem ser influenciados pela fase lunar, dizem especialistas

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Placa de alerta do Cemit em praia de Pernambuco sinaliza risco de ataques de tubarão. (Foto: Instagram)

Os dois recentes ataques de tubarão em Pernambuco, ocorridos em um intervalo de pouco mais de 24 horas, reacenderam o debate sobre os fatores que contribuem para esses incidentes no litoral do estado, que tem o maior número de casos registrados no Brasil.

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De acordo com o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), as vítimas mais recentes, que representam os 83º e 84º casos da série histórica, foram João Lucas Nemézio Sales, de 11 anos, atacado na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, e Marcela Vitória de Lima Santos, de 19 anos, mordida na Praia de Boa Viagem, no Recife.

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Em 31 de maio, João Lucas foi atacado por um tubarão-cabeça-chata na Praia de Piedade, sofrendo ferimentos graves na coxa e na mão esquerda, o que levou à amputação de sua perna esquerda. Menos de 24 horas depois, Marcela Vitória foi mordida por um tubarão-tigre na Praia de Boa Viagem, na zona sul do Recife, resultando em lesões severas na perna direita e a subsequente amputação do membro.

Ambos os ataques ocorreram durante um período conhecido como Lua Azul, que é a segunda lua cheia registrada em um mesmo mês. Pesquisadores destacam que, apesar de a fase lunar não explicar isoladamente os ataques, estudos indicam que as fases de lua nova e cheia estão associadas às marés de sizígia, quando a maré sobe e desce mais do que o normal, aumentando a diferença nos níveis de água ao longo do dia.

O Cemit ressalta que a maré alta pode aumentar o risco de encontros entre tubarões e banhistas, pois nessas condições os animais conseguem se aproximar mais da costa, e áreas normalmente protegidas pelos arrecifes tornam-se mais acessíveis.

Apesar dessa relação, a literatura científica sugere que os ataques em Pernambuco resultam de uma combinação de fatores ambientais, geográficos e humanos acumulados ao longo de décadas.

IMPACTO AMBIENTAL
Uma das hipóteses mais discutidas é o impacto ambiental causado pela fundação e expansão do Porto de Suape, entre Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho. Construído nos anos 1970 e inaugurado em 1983, o porto alterou significativamente a paisagem costeira da região.

Pesquisas realizadas por cientistas da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pelo Cemit indicam que a abertura de canais de navegação, obras de dragagem e a remoção de áreas de manguezal modificaram habitats costeiros e podem ter alterado rotas de espécies marinhas, incluindo tubarões.

Um dos estudos mais citados, “Shark Attacks in Recife, Brazil: Analysis of Incidents and Possible Causes”, publicado em 2008 por Fábio Hazin e colaboradores, relaciona essas mudanças ambientais ao aumento dos encontros entre tubarões e humanos na região metropolitana do Recife.

A expansão urbana no litoral sul do Recife também é apontada como um fator importante para entender o fenômeno. O estudo “Dinâmicas de urbanização litorânea e a problemática habitacional no litoral sul de Pernambuco”, desenvolvido por pesquisadores da UFPE e da UFRPE, mostra como a ocupação intensiva da costa alterou a relação entre população e ambiente marinho nas últimas décadas.

Para os especialistas, o aumento do número de pessoas frequentando áreas de risco aumentou a probabilidade de encontros entre humanos e tubarões.

CONFIGURAÇÃO GEOGRÁFICA
Outro fator mencionado por pesquisadores é a própria configuração geográfica do litoral pernambucano. Entre as praias de Boa Viagem e Piedade, existem canais naturais profundos próximos à faixa de areia, que funcionam como corredores para diversas espécies marinhas, permitindo que tubarões se aproximem da costa.

Relatórios técnicos do Cemit e pesquisas da UFRPE indicam que, em alguns trechos, a profundidade aumenta rapidamente após a arrebentação, favorecendo a circulação de espécies como o tubarão-tigre e o tubarão-cabeça-chata, responsáveis pela maioria dos ataques graves no estado.

A presença dos arrecifes também influencia a dinâmica dos incidentes. Muitos ataques ocorrem fora da barreira natural formada pelos recifes, onde a profundidade aumenta rapidamente e os animais encontram condições mais favoráveis para deslocamento.

A proximidade de desembocaduras de rios, como o Capibaribe, Beberibe, Jaboatão e Pirapama, é outro elemento apontado. Essas áreas concentram peixes e outros organismos que servem de alimento para os tubarões, atraindo-os para regiões mais próximas da costa.

COMPORTAMENTO HUMANO
O comportamento dos banhistas é considerado um dos elementos mais importantes na prevenção dos ataques. As praias de Boa Viagem, Pina e Piedade possuem placas de alerta em pontos de maior risco. De acordo com o Governo de Pernambuco, cerca de 80 placas orientam os frequentadores a evitar locais perigosos e seguir recomendações de segurança.

Ultrapassar a linha dos arrecifes naturais coloca o banhista em uma área mais profunda, utilizada por tubarões para circulação. Permanecer na água durante maré alta também exige atenção redobrada.

As chuvas representam outro fator de risco, pois a água turva, comum após chuvas intensas, reduz a visibilidade dos animais e dos banhistas, dificultando a identificação de presas. Além disso, as chuvas aumentam o volume de água doce e matéria orgânica despejada no mar, alterando temporariamente o ambiente costeiro.

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