
Cansaço persistente no trabalho pode esconder testosterona baixa (Foto: Instagram)
Cansaço constante, diminuição da libido e irritação sem razão aparente. Para muitos homens, esses sinais são atribuídos ao estresse, rotina intensa ou falta de sono. No entanto, podem indicar algo menos evidente: baixos níveis de testosterona, mesmo antes da idade em que isso ocorre naturalmente.
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Associada ao envelhecimento, a redução desse hormônio, produzido principalmente pelos testículos, costuma ser lenta e gradual (cerca de 1,2% ao ano) a partir dos 40 anos. Contudo, uma queda precoce requer investigação, podendo ser de origem orgânica ou funcional. Isso inclui desde alterações congênitas e presença de tumores até fatores metabólicos, como a obesidade, que atualmente lidera as causas funcionais em homens.
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“O tecido adiposo aumenta a conversão da testosterona em estradiol, o que causa uma disfunção no estímulo dos testículos para a produção de testosterona”, explica a endocrinologista Ana Luiza Rio, do Hospital Israelita Albert Einstein em Goiânia. Isso também se aplica ao diabetes tipo 2, especialmente quando mal controlado. De acordo com um artigo de 2024 da Sociedade Brasileira de Diabetes, entre 25% e 40% dos homens com a doença apresentam hipogonadismo, chegando a 50% quando há obesidade associada.
Estresse crônico, sedentarismo, distúrbios do sono e uso prévio de anabolizantes também podem reduzir os níveis do hormônio. Este último fator tem ganhado destaque. “Estamos observando casos frequentes de hipogonadismo após abuso e uso crônico de esteroides para fins estéticos e ganho muscular”, afirma Rio. Ou seja, nem sempre é um problema hormonal primário, mas uma alteração funcional.
“Em muitos jovens, a testosterona baixa é mais um reflexo do estilo de vida do que um problema hormonal definitivo. Isso nos oferece a possibilidade real de reversão e até resolução completa do problema”, destaca o urologista Gustavo Marquesine Paul, coordenador do departamento de Andrologia, Reprodução e Sexualidade da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).
SINTOMAS QUE CONFUNDEM
Parte do desafio está nos sinais. Alguns são comuns e inespecíficos, como cansaço, insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração e alterações de humor. Por isso, o contexto é essencial. “No hipogonadismo, os sintomas tendem a ser mais persistentes e com forte componente físico e sexual”, explica Paul.
Entre os sinais mais específicos em homens adultos estão a queda da libido, piora na qualidade das ereções (principalmente ausência das matinais), ejaculação retardada, diminuição do volume ejaculado e infertilidade, além de perda de massa muscular, aumento de gordura abdominal, redução de pelos corporais e surgimento de mamas. “Não é esperado que um homem jovem apresente queda sustentada do desejo sexual ou piora progressiva da função erétil sem uma causa clara”, alerta o médico da SBU.
Como muitos sintomas se confundem com estresse e ansiedade, o diagnóstico exige cuidado, desde as queixas clínicas até exames laboratoriais. “A dosagem de testosterona total é o exame inicial, mas níveis baixos devem ser confirmados com uma segunda coleta após um intervalo de quatro semanas”, aponta a endocrinologista. E há um detalhe importante: o exame deve ser feito entre 7h e 10h da manhã, quando os níveis hormonais estão mais altos.
Se a deficiência for confirmada, a investigação parte para a causa. Hormônios como LH e FSH ajudam a entender se o problema vem dos testículos ou do cérebro, mais especificamente do hipotálamo ou da glândula hipófise. Também podem ser avaliados tireoide, prolactina, perfil de ferro, proteína de ligação dos hormônios sexuais (SHBG), causas genéticas, bem como exames de imagem da hipófise e bolsa escrotal, dependendo das dosagens hormonais. Fatores metabólicos, como colesterol e glicemia, também são investigados.
REPOSIÇÃO NÃO É ATALHO
Diante dos sintomas, muitos buscam uma solução rápida na reposição de testosterona, mas esse caminho exige cautela. O uso indiscriminado pode trazer sérias consequências, incluindo infertilidade, atrofia testicular e aumento do risco de trombose, infarto, AVC e insuficiência cardíaca, além de alterações no colesterol e mudanças de humor e comportamento. “O uso inadequado pode interromper completamente a produção de espermatozoides, temporariamente ou de forma permanente”, alerta o urologista. Há ainda risco de dependência física e psicológica.
A reposição é indicada quando há sintomas compatíveis e níveis baixos confirmados em exames, sempre com acompanhamento médico e considerando contraindicações. Ela pode ser feita por meio de gel, injeções e, com menor frequência, cápsulas.
Ainda assim, essa nem sempre é a primeira opção de tratamento. Em homens jovens, mudanças no estilo de vida podem trazer resultados consistentes. Perda de peso, atividade física regular, sono de qualidade, redução do consumo de álcool e controle do estresse têm impacto direto nos níveis hormonais. “O exercício físico pode aumentar os níveis de testosterona, melhorar a composição corporal, a sensibilidade à insulina e o bem-estar geral”, destaca Ana Luiza Rio.
Além disso, quando há desejo de fertilidade, a reposição direta é evitada. Nesse caso, a opção é por estratégias que preservem a produção de espermatozoides, como a adoção de hábitos saudáveis e, quando necessário, o uso de medicações como citrato de clomifeno, anastrozol e hCG, de forma individualizada.
A testosterona baixa antes dos 40 não é comum, mas também não é rara. Na maioria das vezes, não é um destino inevitável, mas um sinal de que algo precisa de ajuste. A boa notícia é que, na maior parte dos casos, tem solução.
E NAS MULHERES?
Embora o tema seja mais discutido entre homens, mulheres também produzem testosterona, mas em quantidades bem menores. Para elas, porém, a chamada “deficiência” não é bem definida. “Não há um valor de corte estabelecido para mulheres”, frisa a médica do Einstein em Goiânia.
Por isso, a dosagem não é feita de rotina. A principal utilização da medição dos níveis de testosterona neste caso é para o diagnóstico de síndromes hiperandrogênicas, ou seja, em que há excesso de produção de testosterona, como a síndrome dos ovários policísticos, a hiperplasia adrenal congênita e tumores adrenais e ovarianos produtores de hormônios com ação masculinizante.
O uso de testosterona para esse público é restrito a situações específicas, como o transtorno do desejo sexual hipoativo após a menopausa, e sempre com avaliação criteriosa. No Brasil, inclusive, não há formulações aprovadas pela Anvisa para esse fim.
O uso indevido para estética ou performance é arriscado e não tem respaldo científico, podendo causar efeitos colaterais como acne, excesso de pelos no rosto e corpo, queda de cabelo, engrossamento da voz e aumento do clitóris, além de alterações nos níveis de colesterol, problemas hepáticos e risco cardiovascular aumentado.



