Ócio é essencial para criatividade e saúde mental, dizem especialistas

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Pausa contemplativa à beira-mar (Foto: Instagram)

Passar alguns minutos olhando pela janela, tomar um café sem usar o celular ou simplesmente deixar a mente divagar pode parecer uma perda de tempo em uma rotina focada na produtividade. No entanto, quando não estamos fazendo nada, o cérebro não está inativo; ele apenas altera seu modo de funcionamento. Ao interrompermos a produtividade visível, a mente ativa redes neurais complexas, fundamentais para a criatividade, saúde mental e equilíbrio emocional.

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Em momentos de menor demanda externa, a chamada rede de modo padrão ganha destaque, associada a processos como memórias, imaginação, planejamento e reflexão. Estudos indicam que períodos de repouso acordado podem ajudar na consolidação de memórias, embora os efeitos variem conforme as condições.

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“Pausa não é ausência de funcionamento. É uma mudança na forma de funcionamento”, explica a psicóloga Denise Milk, especialista em comportamento e desenvolvimento de lideranças. Segundo ela, durante o ócio, a mente pode integrar experiências, organizar informações, acessar memórias e estabelecer novas associações.

É por isso que soluções podem surgir durante um banho ou uma caminhada, justamente quando a pessoa para de procurar ativamente por elas. “Nem toda solução nasce quando estamos olhando diretamente para o problema”, destaca Denise.

Embora o cérebro continue ativo nesses momentos, isso não significa que ficar parado tenha os mesmos efeitos de dormir. A neuropsicóloga Keilla Gonçalves explica que o ócio acordado e o sono são estados distintos. Durante o sono, especialmente nas fases mais profundas, ocorrem processos essenciais para a recuperação do organismo e consolidação de memórias.

A privação de sono está ligada a prejuízos de atenção, memória e funções executivas. Por isso, uma pausa durante o dia pode aliviar temporariamente a fadiga, mas não substitui uma noite bem dormida.

Um dos desafios para o descanso está no hábito de preencher cada intervalo com o celular. Esperar o elevador, ficar alguns minutos na fila, tomar um café ou aguardar uma reunião pode se tornar, imediatamente, um momento preenchido por uma tela.

O problema não é o aparelho, mas a sucessão constante de estímulos. Notificações e interrupções podem prejudicar a atenção, enquanto o uso de telas à noite interfere no sono devido à exposição à luz e estímulo cognitivo.

“Ao vezes, o que chamamos de descanso é apenas uma troca de demanda: saímos da tela do trabalho e entramos na tela dos celulares”, resume a psicóloga.

A dificuldade de ficar sem fazer nada também está ligada à cultura da produtividade. Para Denise, muitas pessoas passaram a associar seu valor à quantidade de tarefas realizadas.

“Descansar deixou de ser uma necessidade humana e passou a ser quase uma recompensa: ‘eu descanso depois que terminar tudo’. Só que esse ‘tudo’ nunca termina”, afirma.

Nesse cenário, parar pode trazer à tona pensamentos e emoções que a atividade constante ajudava a manter em segundo plano. Entre os sinais de que a mente pode estar sobrecarregada estão irritabilidade, dificuldade de concentração, esquecimentos, sensação de cabeça cheia e necessidade constante de estímulo.

Para quem vive em alta velocidade, a recomendação é não começar com longos períodos de silêncio. Denise sugere pequenas mudanças: tomar café sem celular, fazer um trajeto curto sem áudio, esperar sem abrir uma tela ou caminhar sem responder mensagens. “É quase uma reeducação da atenção”, afirma.

Keilla também destaca a importância de reduzir estímulos antes de dormir e manter uma rotina regular de sono. Em casos de insônia persistente, a terapia cognitivo-comportamental para insônia pode ser uma das principais abordagens terapêuticas.

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