Bruna Lombardi reflete sobre carreira multifacetada e novos projetos literários

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Bruna Lombardi apresenta as novas edições de Diário do Grande Sertão e Mulheres que sentem os espíritos (Foto: Instagram)

Bruna Lombardi encontrou na escrita uma forma de não enlouquecer enquanto atravessava Minas Gerais, Goiás e Bahia para interpretar Diadorim em Grande Sertão: Veredas. Durante essa jornada, ela registrava em papéis avulsos as impressões que a personagem, a paisagem e o universo de Guimarães Rosa provocavam nela. Quatro décadas depois, o Diário do Grande Sertão retorna às livrarias em uma edição ampliada, ao lado de Mulheres que sentem os espíritos, um livro que nasceu de uma promessa feita naquela época: um dia, Bruna escreveria sobre as mulheres fortes de sua família.

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A literatura precedeu a atriz conhecida nacionalmente. Desde jovem, Bruna publicou seu primeiro livro de poesia com prefácio de Chico Buarque, conviveu com Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e Mario Quintana, e construiu uma obra que inclui poemas, romances, crônicas, roteiros e diários. Este ano, sua trajetória foi especialmente reconhecida com a eleição para a Cadeira nº 15 da Academia Paulista de Letras.

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Bruna também explorou a televisão, o cinema e o jornalismo com independência e curiosidade. Em 1992, ela fez uma pergunta improvável a Donald Trump: se ele gostaria de ser presidente dos Estados Unidos. A resposta foi negativa, mas a história provou a genialidade e o faro extraordinário daquela entrevistadora.

Em entrevista ao programa Que Dia, Bruna compartilhou suas experiências transformadoras no sertão, a força das mulheres, espiritualidade, literatura, amor e as escolhas que lhe permitiram preservar a liberdade ao longo de sua carreira.

Recentemente eleita para a Academia Paulista de Letras, Bruna Lombardi reflete sobre como sua projeção na televisão e no cinema talvez tenha obscurecido para alguns a sua trajetória literária iniciada nos anos 1980. "Tudo o que é pop, público e feito em grande escala tende a esconder as coisas mais delicadas, mais sutis. Escrever é a arte da sutileza, da delicadeza", afirma ela.

Bruna se define como uma pessoa curiosa e interessada pelas coisas e pelas pessoas, sempre disposta a se aventurar em diferentes áreas. "Já fui muito dividida pela visão dos outros, mas hoje digo: sou uma só, fazendo uma série de coisas. Sinto-me uma eterna aprendiz, uma pessoa estudando, descobrindo e fazendo aquilo que ama", revela.

Durante as gravações da minissérie, Bruna escreveu Diário do Grande Sertão para não enlouquecer. "O que permaneceu dentro de mim foi o sertão. O sertão ficou para sempre", comenta. As gravações eram intensas e escrever naquelas condições foi um desafio enorme para ela.

A nova edição do Diário do Grande Sertão inclui materiais que ficaram de fora da primeira publicação. "Agora incluí tudo o que havia retirado. Disse: 'Agora não há mais nada a perder; vai tudo'. O livro está completo. É o sertão que vi, o sertão que vivi e o Brasil que pensei e senti na pele", explica.

O Diário do Grande Sertão é o único registro daquela história sob o ponto de vista de Diadorim, enquanto o romance de Guimarães Rosa é narrado por Riobaldo. Bruna destaca a delicadeza de Guimarães Rosa ao retratar a condição feminina em um ambiente inóspito e cruel.

Mulheres que sentem os espíritos é o resultado de uma promessa feita há quatro décadas. "Foram necessários muitos anos e ainda não completei esse ciclo. Tenho mais a dizer sobre essas mulheres", afirma Bruna. O romance mistura a ancestralidade grega, o candomblé, a espiritualidade e mulheres em busca de si mesmas.

Bruna reflete sobre a dificuldade que muitas mulheres têm de enfrentar a própria história. "Temos dificuldade de enfrentar aquilo que nos acontece. Algumas mulheres enfrentam, buscam seus ideais e pagam um preço muito alto por isso. Outras não conseguem", observa.

Em Filmes proibidos, Bruna já abordava a liberdade e a luta de uma mulher contra um sistema opressor. Ela acredita que a vida é cíclica e que, embora voltemos ao mesmo ponto, voltamos sabendo mais.

Em 1992, Bruna identificou em Donald Trump uma sede de poder e uma fome narcisista. "Vi sede de poder. Vi uma fome, uma coisa forte, narcisista, com um desejo muito grande de poder, de abrangência de poder", relembra.

Bruna e Carlos Alberto Riccelli estão juntos há quase cinco décadas. Ela acredita que o amor muda diariamente, acompanhando a renovação das pessoas. "O amor é a grande solda, a grande conexão que temos", diz ela.

Bruna sente que a verdadeira essência da criação está na busca e na descoberta, não no formato final. "Tenho uma relação de devoção com a literatura, com o mistério e com a vida", afirma.

Entrevistas feitas por Bruna há mais de 30 anos voltaram a circular nas redes sociais, sendo descobertas por jovens que não eram nascidos quando Gente de Expressão foi exibido. "Acho muito curioso. As coisas me acontecem sem que eu tenha expectativa", comenta.

Bruna viveu o período em que a televisão aberta era central na vida cultural brasileira e depois escreveu, produziu e protagonizou A Vida Secreta dos Casais para a HBO. Ela acompanhou a transição daquele país reunido diante da TV para o universo fragmentado das plataformas.

A influência de seu pai, que representava a lógica e a razão, foi fundamental para Bruna. "Entre esses dois polos, percebi que precisava encontrar um caminho do meio, que não fosse apenas emoção nem somente razão", reflete.

Sobre atuar, Bruna afirma que é algo que adora, mas que nunca orientou sua vida pelo dinheiro ou pelo sucesso. "Sempre fiz escolhas baseadas no amor e na paixão", conclui.

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