
Atriz comenta os impactos da pressão do trabalho na saúde mental em entrevista (Foto: Instagram)
Bella Campos trouxe à luz um tema cada vez mais urgente no ambiente corporativo ao revelar que enfrentou depressão após atuar em uma novela. Seu relato, que rapidamente ganhou destaque, reflete uma realidade que vai além da televisão e afeta trabalhadores de diversos setores: o impacto direto do ambiente de trabalho na saúde mental.
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Especialistas afirmam que casos como esse não devem ser vistos apenas como questões individuais. Para Daisy Cangussú, psicóloga e especialista em saúde mental corporativa, a situação serve como um alerta sobre a estrutura do trabalho.
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“O sofrimento emocional não deve ser entendido apenas como uma fragilidade individual. Muitas vezes está diretamente ligado à organização do trabalho, estilo de liderança, pressão por resultados e cultura da empresa”, explicou.
CONFLITOS CONSTANTES
Ela ressalta que fatores como conflitos frequentes, cobranças excessivas, humilhações, assédio, sobrecarga e falta de suporte são riscos psicossociais significativos: “Quando essas condições persistem e não são enfrentadas, podem contribuir muito para o adoecimento emocional”, afirmou.
A especialista destacou ainda que, tecnicamente, o ambiente de trabalho pode ser um gatilho ou agravante: “É mais preciso dizer que o trabalho funciona como fator de risco ou agravante. Ele não causa depressão isoladamente, mas pode contribuir significativamente, especialmente com exposição contínua a pressão extrema, insegurança e falta de apoio”, pontuou.
SINAIS DENTRO DAS EMPRESAS
Outro ponto de atenção são os sinais que surgem dentro das empresas: “Mudanças de comportamento, isolamento, queda de desempenho, cansaço extremo, irritabilidade e dificuldade de concentração são alguns dos principais alertas. Muitas vezes, o sofrimento aparece primeiro como uma queda de produtividade, e não como um pedido direto de ajuda”, enumerou ela.
Para Daisy Cangussú, o papel das empresas vai além do discurso: “A primeira atitude deve ser acolher, escutar e preservar a dignidade do colaborador. O afastamento, quando necessário, precisa ser conduzido com responsabilidade, e o retorno deve ser acompanhado com cuidado, respeitando o tempo de recuperação”, analisou.
Apesar dos avanços no debate, a psicóloga ressaltou que o tema ainda enfrenta resistência: “Muitas empresas já falam sobre saúde mental, mas isso nem sempre se traduz em mudanças reais na cultura organizacional. Em ambientes de alta pressão, ainda existe medo de expor o sofrimento por receio de julgamento”, disse.
RISCOS OCUPACIONAIS
A discussão ganha ainda mais relevância com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1, que passa a incluir os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais: “Isso significa que fatores como assédio, sobrecarga e conflitos deixam de ser vistos como questões subjetivas e passam a ser responsabilidade formal das empresas”, completou.
Na mesma linha, a especialista em gestão empresarial e comunicação estratégica Juliana D’Andrades contou que a forma como as empresas lidam com conflitos internos é determinante.
“A gestão de conflitos precisa ser encarada de forma estruturada e imparcial. Identificar o problema, promover o diálogo e mediar situações é essencial para evitar o agravamento de quadros emocionais”, opinou.
DIREITOS DO TRABALHADOR
Do ponto de vista jurídico, a advogada trabalhista Silvana Campos comentou que o trabalhador possui uma série de direitos quando há impacto na saúde mental.
“Os direitos incluem licença médica remunerada, estabilidade provisória após o retorno e o direito a um ambiente de trabalho psicologicamente seguro, além da proteção contra discriminação”, pontuou.
Ela também alertou para situações mais graves: “Caso haja assédio no retorno, o trabalhador pode pedir a rescisão indireta do contrato, garantindo todas as verbas rescisórias”, declarou.
CAUSA DOS AFASTAMENTOS
Segundo a advogada, problemas emocionais já estão entre as principais causas de afastamento no país: “Eles costumam estar relacionados à carga de trabalho excessiva, metas abusivas, assédio e falta de suporte”, observou.
A legislação também impõe deveres às empresas nesses casos: “Ao identificar o abalo mental do funcionário, a empresa deve abrir a Comunicação de Acidente de Trabalho, agendar perícia no INSS, arcar com os primeiros 15 dias de afastamento e garantir estabilidade no emprego após o retorno. Em situações extremas, pode haver indenização por danos morais”, continuou.
Para especialistas, o caso de Bella Campos reforça uma mudança de perspectiva no mundo do trabalho. Mais do que tratar o adoecimento quando ele já aconteceu, o desafio passa a ser construir ambientes mais seguros, com lideranças preparadas e uma cultura organizacional que não normalize a pressão excessiva, mas promova respeito, escuta e prevenção.


