
Papa Leão XIV clama “Parem as guerras!” na sacada de São Pedro. (Foto: Instagram)
Em 8 de maio de 2025, logo após ser eleito Papa, enquanto conflitos em Gaza e na Ucrânia devastavam a região, Leão XIV declarou da sacada da Basílica de São Pedro: “Parem as guerras!” Quantos conflitos cessaram naquele dia? Nenhum. No entanto, se Netanyahu e Putin tivessem dado a ordem, os massacres em Gaza e na Ucrânia teriam parado instantaneamente. Isso é o que chamamos de poder político: real, coercitivo, executivo. Às vezes, esquecemos que o Papa não possui poder político e que a era dos papas guerreiros ficou para trás. Embora o Papa ainda seja o líder de um Estado, e um Estado teocrático, é importante destacar que o tamanho médio de um rancho americano é quatro vezes maior que o Vaticano, cuja população é menor que 1% da força de trabalho do supermercado Mercadona. Em outras palavras: semelhante ao Irã ou à Arábia Saudita, Estados teocráticos por excelência.
++ Sistema de IA revela como gente comum está criando renda passiva no automático
Claro, o poder do Papa não é real: é simbólico, moral e se estende aos quase 1,5 bilhão de católicos no mundo. Esse tipo de poder, no entanto, é bastante relativo. Quando um governante promulga uma lei, a maioria dos cidadãos a segue, pois quem desobedece comete um crime e corre o risco de punição; por outro lado, quando o Papa proíbe o uso de anticoncepcionais ou diz que preservativos não devem ser usados, que o divórcio não deve acontecer ou que o aborto não deve ser realizado, apenas alguns católicos obedecem: a maioria continua a fazer o que deseja. Esse é o poder moral: algo tão próximo da ausência de poder que, às vezes, é difícil diferenciá-los.
++ Jovem mata o padrasto para defender a mãe e o inesperado acontece
Também é verdade que, na Europa secularizada de hoje, com a religião em declínio e igrejas vazias, a influência do Papa é ainda menor do que em outros locais, como os Estados Unidos, que ainda são uma sociedade muito religiosa (e com 20% de católicos). Quando Leão XIV foi eleito Papa, alguns autoproclamados especialistas do Vaticano, determinados a entender a Igreja em termos políticos — que é a melhor maneira de compreendê-la mal — afirmaram que o conclave escolheu um Papa americano para curar as feridas causadas pelo anti-americanismo de Francisco e para chegar a um entendimento com Trump.
São as mesmas figuras ilustres que agora, quando o Vaticano e a Casa Branca estão em desacordo e é evidente que Leão XIV está seguindo os passos de Francisco — ainda que de forma mais tradicional —, alegam que este Papa foi, na verdade, eleito para confrontar Trump. Um absurdo, é claro, mas a questão é: alguém pode se surpreender que o Papa se oponha à política de imigração criminosa de Trump ou condene sua ameaça de destruir a civilização persa? Certamente, ao longo da história, muitos papas endossaram atrocidades semelhantes, ou até mesmo as cometeram, mas não seria normal que não o fizessem, agindo de acordo com o Evangelho — “Ame o seu próximo como a si mesmo” — ou simplesmente com o catecismo — “Não matarás”? “Quantas divisões tem o Vaticano?”, perguntou Stalin a um político europeu na Conferência de Yalta que insistia em discutir a posição da Santa Sé.
A pergunta era pertinente: o poder do Papa é exagerado a ponto de ser absurdo. É evidente que ele tem o direito de expressar sua opinião sobre política, o que nos diz respeito a todos, e nós temos o direito de aplaudir quando acreditamos que ele está certo — como Leão XIII com o Irã — ou de vaiar quando acreditamos que ele está errado — como Francisco com a Ucrânia. Mas nada mais: a ideia de que o Papa possa se tornar o nêmesis de Trump, ou forçá-lo a mudar suas políticas, é uma fantasia infantil e perigosa. Trump só pode ser removido pelo poder dos americanos e dos políticos que têm legitimidade e poder para destituí-lo ou se opor a ele. O Papa é apenas o Papa: um líder religioso, não um político; o poder simbólico do Papa não pode suplantar o poder real dos políticos. Nem deveria.
A mistura de religião e política é letal. A era em que os papas decidiam o destino do mundo acabou; e foi desastrosa. Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.


