
O derrame que denuncia: o dendê, alma da Bahia, em risco (Foto: Instagram)
Bastou um movimento descuidado à mesa para que o garfo, ainda sujo, voasse do prato e caísse diretamente sobre o meu vestido branco. Dizem que mancha de dendê não sai. Considerei, então, a situação perdida.
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Isso ocorreu há poucos dias, em Salvador, onde Alexandre e eu decidimos passar um tempo. Uma pausa rara da correria, do trabalho, das terapias, das crianças (que ficaram com os avós em Brasília).
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Estar na Bahia é, inevitavelmente, comer como os baianos. Muito acarajé, vatapá, caruru, moqueca. Tudo regado a muito dendê, esse óleo espesso, dourado e perfumado, herança africana que moldou parte da identidade culinária brasileira. Nós adoramos.
Por curiosidade, comecei a pesquisar sobre os ingredientes que sustentam os tabuleiros das baianas. Descobri algo preocupante: alguns desses sabores começam, aos poucos, a desaparecer das feiras como resultado das mudanças climáticas.
O caso do dendê é especialmente simbólico. Há relatos de escassez, aumento de preços e queda de produção na Bahia, o que afeta diretamente o acarajé e outros pratos tradicionais. O calor excessivo, as alterações no regime de chuvas e as mudanças nas condições do solo começam, também, a impactar colheitas que durante décadas pareciam eternas.
Tenho a impressão de que a Bahia sempre tratou o dendê como algo inesgotável, quase uma extensão natural da própria paisagem. A produção anual na região conhecida como Costa do Dendê (especialmente nos municípios de Taperoá, Valença e Jaguaribe) chega a mais de 40 mil toneladas de frutos. Já foi maior, dizem os produtores locais.
O dendê há muito ultrapassou os limites gastronômicos. É só pensar em Jorge Amado, que transformou a comida baiana em personagem central de suas obras. Seus livros cheiram a mercado, azeite, peixe, pimenta. Os tabuleiros das baianas, as feiras populares, os botequins e os mercados aparecem como espaços de memória, oralidade, resistência e sobrevivência.
Em Jorge Amado, o dendê é sinônimo de abundância cultural, celebração e pertencimento. Na vida real de hoje, porém, ele começa a carregar outro significado: o da fragilidade climática.
O sabor da moqueca. O cheiro do acarajé na rua. O encanto é inegável.
Penso que futuro climático também possa ser medido assim: pelo desaparecimento lento de sabores que um dia pareciam eternos. Não é isso que queremos. Vida longa ao dendê!


