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Mulheres lideram 48,3% dos negócios na Chapada dos Veadeiros com foco em sustentabilidade

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Empreendedorismo feminino: a força das mulheres no turismo da Chapada dos Veadeiros (Foto: Instagram)

Dizem que o Cerrado se expande para dentro, criando raízes profundas para suportar a seca e florescer em curvas de força e beleza. Na Chapada dos Veadeiros, essa resiliência ganha rosto, voz e características femininas. A história do local não é feita apenas de rochas antigas e horizontes infinitos, mas também das histórias de mulheres empreendedoras que transformaram a escassez em sucesso.

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Desde a força pioneira de Dona Nenzinha, que transformou seu quintal em sustento, até a liderança de Mércia Beatriz, que construiu pousadas superando preconceitos e crises climáticas. Junto a elas, Andrea Manzan e Caliandra Dias, um casal de trilheiras que transformou sua parceria em uma operadora de turismo focada no bem-estar, definem os novos rumos de uma gestão afetiva e técnica sobre a terra.

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Essas quatro vozes ilustram uma realidade estatística impressionante. Dados do Sebrae de maio de 2026 mostram que as mulheres lideram 2.359 empresas nos municípios de Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, Colinas do Sul, São João d’Aliança e Teresina de Goiás, representando 48,3% do total de negócios na região.

Desse total, as micro e pequenas empresas (MPEs) são a grande maioria, somando 2.278 empreendimentos (89,1%). Combinando a gestão de negócios com a preservação e o turismo de experiência, empresárias locais transformam a região em um ecossistema de criatividade, sustentabilidade e desenvolvimento regional.

A transição da atividade garimpeira para o turismo de base comunitária moldou a identidade da Vila de São Jorge, distrito de Alto Paraíso onde está o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. A evolução econômica da Chapada dos Veadeiros está diretamente ligada a essa mudança.

Na Vila de São Jorge, esse processo enfrentou dificuldades estruturais, como a falta de água encanada e energia elétrica. Naquela época, a escassez ditava a rotina. Sem transporte ou asfalto, o banho e a lavagem de utensílios ocorriam no córrego Preguiça. Muitas mulheres lideraram os comércios locais, enquanto os maridos trabalhavam em roças ou garimpos de cristal de quartzo.

Essa dinâmica fez com que quase todos os comércios de São Jorge fossem registrados em nomes femininos. Dona Nenzinha, fundadora do restaurante e pousada da Nenzinha, relembra o início em 1985:

“Era mais sobreviver do que viver […] Comecei a trabalhar como merendeira na escola, carregando água e lenha na cabeça, para meu sustento e dos meus filhos. Pegava água na cacimba e carregava na cabeça para cozinhar. Lenha também, junto com meus filhos. Cada um carregava um galhinho, era o que me dava forças, ver meus filhos me ajudando. Com isso, comecei a cozinhar para os caminhoneiros e, mais para frente, foram aparecendo mais pessoas.”

Nenzinha cozinhava no fogão a lenha e deixava as panelas para os turistas se servirem enquanto trabalhava na escola. Na falta de insumos, a solução era abater as galinhas do quintal e servir comida goiana tradicional, como arroz com pequi.

Hoje, consolidada no mercado, ela expandiu a estrutura para uma pousada própria e celebra a conquista familiar.

“A culinária da Chapada me emociona. Tem um pedacinho meu em cada prato servido nesses 40 anos. A memória do passado a gente não esquece, mas o presente é melhor. Porque, com a graça de Deus, a gente conseguiu vencer. Eu e meus filhos! Hoje cada um tem seu próprio negócio.”

A capacidade de transformação conecta-se diretamente à resiliência dos negócios na região. O solo da Chapada mostrou-se fértil para empreendimentos que nascem da necessidade e se firmam pela persistência.

A transição para o turismo ganhou força formalmente após o fim da atividade garimpeira, abrindo espaço para campings e refeições caseiras. Nos anos 1990, surgiram as primeiras pousadas e aluguéis de quartos.

A profissionalização foi impulsionada a partir dos anos 2000 com o apoio do Sebrae, que aproximou os empresários de consultorias, feiras de turismo e rodadas de benchmarking.

Mércia Beatriz Miranda, proprietária da Pousada Caminho das Cachoeiras e atual presidente da Associação Veadeiros, assumiu a gestão dos negócios em 2007 após o falecimento do pai.

Ela aplicou os conhecimentos adquiridos: expandiu as acomodações de sete para 18 unidades e apostou em um novo segmento: bangalôs de luxo integrados à paisagem. No entanto, a manutenção dessas estruturas exige jogo de cintura diante de gargalos sazonais e de infraestrutura. Mércia relata as dificuldades:

“No período de 2011 a 2017, passamos por momentos muito difíceis no turismo. Além de incêndios de grande escala, sofríamos com frequência com falta d’água e falta de energia elétrica. Os funcionários do ICMBio ameaçavam fechar o Parque Nacional por falta de pagamento dos funcionários e de material de limpeza. Nessa época, nós, empresários, nos cotizávamos para pagar essas despesas para evitar que o parque fechasse.”

Além das barreiras logísticas no interior do bioma, a liderança feminina precisou romper preconceitos em atividades tradicionalmente masculinas.

Mércia conta que enfrentou dificuldades e limitações na hora de planejar e executar as grandes expansões físicas e estruturais de sua pousada:

“Como mulher e dirigindo meu negócio sozinha, enfrentei alguns preconceitos com a mão de obra, principalmente a de construção civil, mas sempre arrumava uma forma de lidar com essa questão e superava. Não deixei que isso me impedisse de fazer o que desejava. Sempre ocupei espaços de liderança e ocupo até hoje sem permitir que o preconceito seja um obstáculo em para seguir em frente.”

O crescimento do empreendedorismo feminino na Chapada é contínuo e expressivo, consolidando-se no setor de Serviços e avançando no desenvolvimento de propostas imersivas e sustentáveis.

À frente da operadora Trilheiras na Estrada, sediada em Alto Paraíso de Goiás, as sócias Andrea Manzan e Caliandra Dias estruturam roteiros focados no bem-estar. O modelo nasceu para preencher lacunas de mercado e atender a demandas de segurança do público feminino.

Andrea detalha a motivação: “Muitas mulheres desejavam viajar sozinhas e viver experiências na natureza, mas ainda carregavam inseguranças nesse processo e, ao mesmo tempo, percebíamos o quanto o Cerrado ainda é pouco compreendido em toda a sua riqueza, mesmo sendo um dos biomas mais biodiversos do planeta e essencial para a produção de água, equilíbrio climático e manutenção da vida em grande parte do Brasil.”

As Trilheiras na Estrada representam o perfil geracional que, atualmente, está assumindo a linha de frente do mercado regional. A liderança delas está focada em inovação, propósito e governança.

Para validarem suas competências em operações complexas — que envolvem gestão de riscos em áreas remotas —, as empresárias buscam certificações internacionais, como a SGS. O objetivo é alinhar a operação aos padrões contemporâneos de segurança.

A operadora de Andrea e Caliandra também atua na construção de roteiros integrados e colaborativos no território, engajando iniciativas como a Rota Viva e a Aldeia Multiétnica. A essência da dupla inclui a atuação cidadã em conselhos de turismo, meio ambiente e associações, garantindo voz local.

Caliandra Dias acredita que o posicionamento estratégico dessas lideranças femininas se reflete, na prática, na preservação do bioma para o futuro:

“Como mulheres em um setor historicamente associado a lideranças masculinas, um dos desafios ainda é ocupar esses espaços de decisão e mostrar, na prática, que liderança, gestão operacional e segurança também são construídas por conhecimento técnico, experiência de campo e preparação contínua. Para nós, turismo sustentável é aquele que beneficia o território de forma ampla, fortalece comunidades, incentiva a conservação, gera oportunidades locais e cria conexões genuínas entre os visitantes e o destino.”

Se o Cerrado cresce para dentro para suportar o tempo e a seca, as mulheres da Chapada dos Veadeiros provam que a economia e a conservação de um território também dependem da profundidade de suas raízes.

Nas panelas históricas de Dona Nenzinha, nos canteiros de obras de Mércia Beatriz, e nos passos cúmplices e corajosos de Andrea e Caliandra, o que se desenha não é apenas um índice estatístico de sucesso empresarial, mas um manifesto de sobrevivência e afeto.

Elas não apenas ocuparam um espaço no mercado; elas moldaram o próprio chão onde o futuro agora caminha. Enquanto as águas continuarem a correr pelos canions de quartzito, a história da Chapada seguirá sendo escrita por essas e tantas outras mãos femininas que, ao transformarem a própria realidade, garantem que a imensidão do Cerrado permaneça viva, firme e, acima de tudo, soberana.

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