
Bandeira da Alemanha sobre o Reichstag simboliza a parceria acadêmica com o Brasil (Foto: Instagram)
Brasil e Alemanha têm potencial para ampliar sua cooperação em intercâmbio acadêmico e científico, com foco em áreas como clima, tecnologias quânticas e espaço. Essa visão é compartilhada por Joybrato Mukherjee, presidente do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD).
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Atualmente, a agência, que recebe financiamento de Berlim, disponibiliza cerca de 250 programas de bolsas de estudo e pesquisa, atuando em mais de 60 países. Estima-se que quase 4 mil estudantes brasileiros estejam matriculados em instituições de ensino superior na Alemanha por meio do DAAD.
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O Brasil é visto como o principal parceiro da América Latina nesse setor, colaborando com a Alemanha em ciência, tecnologia e inovação desde o fim dos anos 1960. A parceria com o DAAD teve início em 1972, quando o primeiro escritório foi aberto no Rio de Janeiro.
“Essa cooperação é ainda mais vital hoje, no contexto internacional atual”, afirma Mukherjee. “Vivemos em um mundo repleto de incertezas geopolíticas, novas dependências e desafios globais que nenhum país pode enfrentar sozinho”.
SERVIÇO
O DAAD mantém três escritórios no Brasil para atender estudantes interessados em seus programas de intercâmbio, localizados no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Escritório Regional do Rio de Janeiro: (21) 2553-3296
Atendimento em São Paulo: (11) 5189-8302
Para acessar as bolsas ofertadas pelo DAAD clique aqui
Em entrevista ao Metrópoles, o presidente da agência discutiu a cooperação com o Brasil, as expectativas futuras e os desafios do intercâmbio acadêmico frente à nova realidade mundial, incluindo as mudanças trazidas pela Inteligência Artificial e as tensões geopolíticas.
Confira:
Como o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) avalia a atual cooperação acadêmica entre Brasil e Alemanha?
A colaboração acadêmica e científica entre Brasil e Alemanha é muito robusta e tem uma longa tradição. Desde 1969, os países cooperam em ciência, tecnologia e inovação. Para o DAAD, o Brasil é um parceiro estratégico na América Latina, não apenas pelo tamanho do seu sistema universitário e científico, mas também pela qualidade de sua pesquisa e pela importância global dos temas em que atua.
Essa colaboração é ainda mais crucial hoje, dado o contexto internacional. Vivemos em um mundo de incertezas geopolíticas, novas dependências e desafios globais que nenhum país pode enfrentar sozinho. Assim, a cooperação acadêmica vai além do intercâmbio de estudantes ou projetos de pesquisa, sendo uma forma de construir confiança, conhecimento compartilhado e relações duradouras entre as nossas sociedades.
Quais áreas de pesquisa têm maior potencial de cooperação entre universidades brasileiras e alemãs?
Vejo grande potencial em áreas onde desafios globais se conectam com as competências dos dois países. Brasil e Alemanha identificaram seis áreas-chave para intensificar a cooperação em ciência, tecnologia e inovação: clima, energia, oceanos, matérias-primas, tecnologias quânticas e espaço. São temas estratégicos, pois unem relevância global e complementaridade concreta.
O Brasil tem uma posição central em temas como biodiversidade, Amazônia, energias renováveis, costa atlântica e recursos naturais. A Alemanha, por sua vez, contribui com uma base sólida em pesquisa básica e aplicada, inovação tecnológica, indústria, sustentabilidade, modelagem, transferência de conhecimento e novas tecnologias. Quando essas competências se encontram, surgem parcerias que podem produzir conhecimento com impacto real — para os dois países e além.
Há planos para ampliar bolsas destinadas a brasileiros?
O interesse de estudantes e pesquisadores brasileiros pela Alemanha continua muito forte, o que nos alegra. No ano passado, o DAAD apoiou mais de 900 estudantes e pesquisadores do Brasil em estadias na Alemanha, e quase 4.000 estudantes brasileiros estão matriculados em instituições de ensino superior alemãs. O DAAD já oferece uma ampla variedade de oportunidades para diferentes fases da carreira acadêmica — da graduação à pós-graduação, do doutorado à pesquisa avançada. Naturalmente, gostaríamos de ampliar ainda mais essas possibilidades, pois sabemos que uma bolsa pode abrir caminhos decisivos.
Ao mesmo tempo, as bolsas dependem de recursos públicos, prioridades estratégicas e parcerias confiáveis. Por isso, trabalhamos continuamente para fortalecer programas existentes e desenvolver novas oportunidades em cooperação com parceiros brasileiros e alemães. Um bom exemplo é o PROBRAL, programa conjunto de CAPES e DAAD, que há mais de 30 anos apoia projetos de pesquisa entre os dois países e já financiou mais de 600 projetos teuto-brasileiros. Isso mostra que mobilidade acadêmica não é apenas apoio individual: ela cria redes duradouras entre instituições.
Que conselho você daria para jovens brasileiros que querem estudar fora?
Eu diria: sejam curiosos, preparem-se bem e tenham coragem de dar o primeiro passo. Estudar ou pesquisar no exterior não é apenas uma decisão acadêmica; é também uma experiência de formação humana. Uma temporada em outro país muda a forma como vemos o mundo, a ciência e muitas vezes também o nosso próprio país.
Aqui em Brasília estamos reunindo mais de 200 ex-bolsistas do DAAD que estudaram ou pesquisaram na Alemanha. Essas trajetórias mostram de forma muito concreta o que uma bolsa pode significar: ela pode abrir caminhos inesperados, criar redes internacionais, fortalecer carreiras e transformar perspectivas pessoais e profissionais.
Meu conselho é não ver a mobilidade internacional como algo distante ou reservado a poucos. Com informação, preparação e persistência, ela pode se tornar uma oportunidade real — e muitas vezes decisiva.
A Inteligência Artificial está transformando o mundo, inclusive universidades e pesquisas acadêmicas. Como o DAAD lida com esta nova realidade?
A inteligência artificial já está transformando profundamente a forma como aprendemos, ensinamos, pesquisamos e produzimos conhecimento. Para o DAAD, isso traz uma dupla responsabilidade. Por um lado, precisamos apoiar a formação e a circulação internacional de talentos em áreas ligadas à IA e à transformação digital. Por outro lado, precisamos discutir os marcos éticos, sociais e acadêmicos dessa tecnologia.
A IA não é apenas uma questão técnica. Ela levanta perguntas fundamentais sobre transparência, responsabilidade, inclusão, liberdade acadêmica e o futuro do conhecimento. Por isso, a cooperação internacional é tão importante. Precisamos de diálogo entre diferentes sistemas científicos, culturas acadêmicas e sociedades para garantir que a inovação tecnológica caminhe junto com valores democráticos, responsabilidade e inclusão.
Como as guerras, e suas consequências políticas, têm afetado o trabalho do DAAD?
Guerras, conflitos e tensões geopolíticas afetam diretamente a mobilidade acadêmica, a liberdade científica e as condições de estudo e pesquisa em muitas regiões do mundo. Elas podem interromper trajetórias acadêmicas, dificultar cooperações e colocar estudantes e pesquisadores em situações muito vulneráveis.
Mas justamente nesses momentos a cooperação acadêmica se torna ainda mais importante: a ciência não resolve conflitos políticos sozinha, mas pode manter canais de diálogo abertos, apoiar pessoas em situação de crise e preservar espaços de reflexão crítica. Isso também faz parte da responsabilidade do DAAD: defender a circulação do conhecimento, fortalecer redes acadêmicas e construir pontes onde o diálogo se torna mais difícil.
O intercâmbio universitário ainda é uma ferramenta diplomática eficaz em um mundo cada vez mais polarizado?
Sim — talvez hoje mais do que nunca. O intercâmbio acadêmico não substitui a diplomacia tradicional, mas cria algo de que a diplomacia precisa fundamentalmente: confiança, compreensão mútua e relações de longo prazo. Pessoas que estudam, pesquisam e trabalham juntas aprendem a lidar com diferentes perspectivas e mantêm conexões que muitas vezes duram décadas.
Em um mundo sempre mais polarizado, essas redes são essenciais. Elas ajudam a manter o diálogo aberto e criam uma base para cooperação mesmo quando o contexto político é difícil. Além disso, os grandes desafios globais — clima, saúde, energia, tecnologia, segurança alimentar ou liberdade científica — não podem ser enfrentados isoladamente. Nesse sentido, o intercâmbio universitário é uma forma muito concreta de diplomacia científica e de construção de pontes entre sociedades.



