
Do campo de refugiados ao gramado da Copa: trajetórias de superação (Foto: Instagram)
A Copa do Mundo sempre foi um evento que reúne nações, bandeiras e rivalidades históricas. No entanto, a partir de 11 de junho, quando se inicia a edição de 2026, alguns jogadores entrarão em campo com histórias que vão além do futebol.
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Antes de se tornarem atletas profissionais, alguns dos jogadores convocados para o Mundial vivenciaram a infância em campos de refugiados, escaparam de conflitos armados ou cresceram em famílias que precisaram deixar seus países para sobreviver.
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Essas histórias passam por algumas das crises humanitárias mais significativas das últimas décadas – da guerra civil na Libéria aos conflitos na Bósnia, em Angola, no Iraque e em Serra Leoa.
Em comum, esses atletas vivenciaram deslocamentos forçados, reconstruíram suas vidas em novos países e se adaptaram a culturas diferentes até encontrarem no futebol uma oportunidade de transformação.
Às vésperas da maior Copa do Mundo masculina da história, a ser realizada no Canadá, Estados Unidos e México, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) anunciou uma equipe simbólica formada por jogadores cujas vidas foram diretamente impactadas pelo refúgio.
No contexto global atual, marcado pelo aumento dos deslocamentos forçados (mais de 117 milhões de pessoas vivem nessa condição ao redor do mundo), as histórias desses jogadores ganharam ainda mais relevância durante o Mundial.
O Metrópoles preparou uma lista de atletas que participarão da Copa de 2026 e que, além de representarem suas seleções, têm trajetórias ligadas ao refúgio e à superação.
ALPHONSO DAVIES – CANADÁ
Alphonso Davies, lateral-esquerdo do Bayern de Munique e capitão da seleção canadense, é um dos casos mais conhecidos. Nascido em um campo de refugiados em Gana, seus pais fugiram da guerra civil na Libéria, conflito que devastou o país entre as décadas de 1990 e 2000.
Anos depois, a família foi reassentada no Canadá com apoio do ACNUR.
No Canadá, Davies começou sua carreira no futebol e se tornou um dos principais jogadores da geração canadense. Atualmente, ele também é embaixador da boa vontade do ACNUR e compartilha a história de deslocamento forçado de sua família, sendo uma das principais vozes em defesa dos refugiados no esporte.
NESTORY IRANKUNDA – AUSTRÁLIA
Nestory Irankunda nasceu em 2006 em um campo de refugiados na Tanzânia. Seus pais fugiram do Burundi durante os conflitos étnicos e a instabilidade política que culminaram na guerra civil burundesa, ocorrida entre 1993 e 2005.
Após anos como refugiados, a família foi reassentada na Austrália, onde Irankunda começou sua trajetória no futebol até se tornar uma das maiores promessas da nova geração australiana. Atualmente, joga pelo Watford, da Inglaterra.
MOHAMED TOURÉ – AUSTRÁLIA
Mohamed Touré, atacante do Norwich City, nasceu em um campo de refugiados na Guiné após seus pais fugirem da Segunda Guerra Civil da Libéria, conflito travado entre 1999 e 2003.
Durante a guerra, seus pais caminharam por áreas de conflito até cruzarem a fronteira e encontrarem abrigo na Guiné. Anos depois, a família foi reassentada na Austrália, onde Touré iniciou sua carreira no futebol profissional e integrou as seleções de base australianas.
ERMEDIN DEMIROVIĆ – BÓSNIA
A história de Ermedin Demirović, jogador do VfB Stuttgart, está ligada à Guerra da Bósnia, um dos conflitos mais violentos na Europa após a Segunda Guerra Mundial. Nascido em 1998, o atacante cresceu em uma família marcada pelo deslocamento forçado provocado pelo conflito, que deixou cerca de 100 mil mortos e mais de dois milhões de deslocados.
Durante a guerra, seus familiares foram obrigados a deixar a Bósnia e Herzegovina para escapar dos combates, da limpeza étnica e da perseguição. Após a reconstrução da família no exterior, Demirović iniciou sua trajetória no futebol até alcançar a seleção bósnia.
ALI AL-HAMADI – IRAQUE
Ali Al-Hamadi nasceu em 2002, na Inglaterra, filho de pais iraquianos que deixaram o país em meio aos anos de violência e instabilidade após o regime de Saddam Hussein e a Guerra do Iraque.
Seus pais reconstruíram a vida no Reino Unido, onde Al-Hamadi cresceu e iniciou a carreira no futebol. Anos depois, optou por defender a seleção do Iraque, tornando-se um dos símbolos da diáspora iraquiana no esporte. Atualmente, Al-Hamadi joga pelo Ipswich Town.
AWER MABIL – AUSTRÁLIA
A história de Awer Mabil é uma das mais conhecidas entre atletas com histórico de refúgio. O atacante, que hoje atua pelo Club Deportivo Castelló, nasceu em 1995 no campo de refugiados de Kakuma, no Quênia, após sua família fugir da Segunda Guerra Civil Sudanesa.
Ainda criança, Mabil foi reassentado na Austrália com a família. No novo país, encontrou no futebol uma oportunidade de integração e ascensão social. Anos depois, alcançou a seleção australiana e disputou a Copa do Mundo, tornando-se um símbolo da comunidade refugiada no esporte internacional.
BERNARD KAMUNGO – EUA
Bernard Kamungo, ponta do FC Dallas, nasceu em 2002 em um campo de refugiados em Kasulu, na Tanzânia. Seus pais fugiram da guerra civil no Burundi, conflito que provocou uma crise humanitária na região dos Grandes Lagos africanos.
Na infância, Kamungo mudou-se com a família para os Estados Unidos por meio de um programa de reassentamento de refugiados. Crescendo no Texas, desenvolveu a carreira no futebol até alcançar o profissionalismo e receber convocações para a seleção norte-americana.
JOGADORES REFUGIADOS QUE ESTIVERAM NA PRÉ-LISTA
- Eduardo Camavinga
- Victor Moses
- Mohamed Touré
- Bernard Kamungo
PARCEIRA ENTRE ACNUR E FIFA
A relação entre futebol e refúgio tem ganhado destaque por meio de iniciativas internacionais voltadas à inclusão de pessoas deslocadas à força. Em 2023, o ACNUR e a FIFA formalizaram uma parceria global para ampliar o acesso de refugiados ao esporte, especialmente entre crianças e jovens.
Segundo o ACNUR, a cooperação busca promover inclusão e oportunidades de desenvolvimento para populações afetadas por guerras, perseguições e crises humanitárias.
“O ACNUR e a FIFA vêm fortalecendo sua cooperação internacional para ampliar o acesso de pessoas refugiadas ao esporte, promovendo a inclusão e oportunidades de desenvolvimento desses jovens atletas ou profissionais”, afirmou a agência. “Em 2023, as duas organizações formalizaram uma parceria global para apoiar iniciativas voltadas a comunidades deslocadas à força, especialmente com foco em crianças e jovens.”
Além da parceria com a FIFA, o ACNUR mantém colaborações com federações, clubes e organizações esportivas em diversas partes do mundo. Para a agência da ONU, o esporte é uma ferramenta importante de proteção e integração social.
“O ACNUR também mantém colaborações com diferentes entidades do futebol mundial, incluindo federações, clubes e organizações esportivas, reconhecendo o enorme potencial do esporte como ferramenta de proteção, integração social e, em especial, também de combate às discriminações, dentre estas a xenofobia.”
Nesse contexto, a entidade lançou a campanha “Game Change Team”, formada simbolicamente por atletas com histórico de deslocamento forçado. “Às vésperas da Copa do Mundo Masculina de Futebol, o ACNUR lançou a campanha Game Change Team, o time de refugiados que vai fazer parte dos jogos da competição da FIFA 2026”, destacou a organização.
Entre os nomes citados estão os jogadores Alphonse Davies, Antonio Rüdiger e Eduardo Camavinga.
As trajetórias desses atletas evidenciam não apenas o talento esportivo, mas também histórias marcadas por resiliência, superação e reconstrução de vida após experiências de guerra, violência ou perseguição. Segundo o ACNUR, iniciativas esportivas desenvolvidas em diferentes países funcionam como espaços de pertencimento, convivência e recuperação emocional para pessoas que enfrentaram situações traumáticas.
A agência também destaca que o apoio ao esporte pode alcançar atletas de alto rendimento, incluindo refugiados que participam de competições internacionais. Quando conseguem chegar a clubes de elite ou representar seleções nacionais, esses atletas ajudam a desafiar estereótipos frequentemente associados à condição de refugiado.
Na avaliação do ACNUR, essas histórias demonstram que pessoas forçadas a deixar seus países não devem ser definidas apenas pela experiência do deslocamento, mas também por seus talentos, potencial e contribuições para as sociedades que as acolhem.



