
Movimentação no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte (Confins), palco de recentes episódios que colocam em xeque a segurança aérea em Minas Gerais. (Foto: Instagram)
Belo Horizonte – Dois acidentes aéreos ocorreram nesta segunda-feira (4/5), em Belo Horizonte e em João Pinheiro, trazendo novamente à tona questões sobre a segurança na aviação em Minas Gerais. Esses incidentes recentes fazem parte de um histórico de 781 ocorrências aeronáuticas registradas no estado desde janeiro de 2016 até 5 de abril de 2026, conforme dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão vinculado ao Comando da Aeronáutica.
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O total de registros inclui acidentes e incidentes de diversas naturezas, com 39 acidentes ainda sob investigação, além de um incidente e um incidente grave também em análise. As ocorrências desta semana se somam a uma estatística que não apenas revela a frequência, mas também padrões significativos nas causas e circunstâncias desses eventos.
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De acordo com o professor de aeronáutica, Kerley Oliveira, a aviação moderna é bastante confiável tecnologicamente, mas ainda depende fortemente do fator humano. "Na maioria dos casos, as causas vão além de falhas técnicas", destacou Oliveira. Segundo o especialista em segurança de voo, aproximadamente 80% dos acidentes aéreos no mundo têm como principal causa o erro humano. "Esse erro pode surgir de várias formas, como problemas de saúde, estresse, mal súbito, esquecimento ou até pequenas violações de procedimento", explica.
Ele menciona casos extremos, como o trágico voo 9525 da Germanwings, ocorrido em 24 de março de 2015, quando o copiloto Andreas Lubitz da Germanwings jogou de propósito um Airbus A320 contra os Alpes franceses, matando todas as 150 pessoas a bordo — um exemplo raro, mas que ilustra a importância do comportamento humano na segurança de voo.
Por outro lado, falhas relacionadas ao equipamento são menos frequentes. "Hoje, menos de 20% dos acidentes estão ligados a fatores materiais. A tecnologia avançou muito, e as aeronaves são altamente confiáveis", afirma.
Nesse cenário, o especialista ressalta que a idade da aeronave, por si só, não é um fator determinante para a segurança, pois o equipamento passa por constantes atualizações, com boletins dos fabricantes, manutenção rigorosa e auditorias. "Desde que tenha o certificado de aeronavegabilidade em dia, não há problema em operar aeronaves mais antigas", pontua.
Entre os acidentes já analisados ao longo da última década pelo Cenipa, destacam-se como principais fatores falhas ou mau funcionamento de motor (322 casos), seguidos por perda de controle em voo (34) e perda de controle em solo (27). As chamadas falhas de motor nem sempre indicam defeito mecânico direto. "Pode ser combustível contaminado, erro de procedimento ou uma operação inadequada. São vários fatores que podem levar à perda de potência", explica. Esse tipo de situação pode desencadear outros problemas, como a dificuldade de manter altitude adequada.
Outro fator recorrente em acidentes é a perda de controle em voo. Segundo o especialista, isso pode ocorrer quando o piloto perde a referência visual, especialmente ao entrar em nuvens sem preparo adequado. "A aeronave pode perder sustentação ou orientação, o que leva a situações críticas rapidamente", explica.
Também aparecem com peso significativo ocorrências como operações em baixa altitude (197), excursões de pista (45) e voo controlado contra o terreno (7), um conjunto de fatores que ajuda a contextualizar os riscos enfrentados pela aviação, especialmente em operações de pequeno porte.
Os acidentes recentes em Belo Horizonte e João Pinheiro dialogam diretamente com esse cenário, já que muitos episódios registrados no estado envolvem aeronaves em fases críticas do voo, como decolagem, pouso ou manobras em baixa altitude.
Ao comentar o caso recente em Belo Horizonte, o professor aponta que uma possível perda de potência pode ter influenciado a altura do voo. "Quando a aeronave está abaixo da altitude esperada, nem sempre é uma escolha do piloto. Pode ser consequência de desempenho reduzido, como uma falha de motor", diz. Ainda assim, ele reforça que desvios operacionais e o não cumprimento de procedimentos também podem estar envolvidos.
Além disso, eventos como colisões com obstáculos durante a decolagem (14) e pousos aquém/além da pista (19) reforçam a complexidade operacional em determinados aeródromos e condições.
Outro dado relevante é o tipo de operação envolvida nas ocorrências. Ao longo dos anos, foram identificados registros em voos agrícolas (14), privados (14), experimentais, além de operações policiais e de táxi aéreo. Isso mostra que os riscos não estão restritos à aviação comercial regular, mas distribuídos em diferentes segmentos.
Geograficamente, o levantamento aponta concentração em polos estratégicos da aviação mineira. Confins lidera com 231 registros, seguido por Belo Horizonte, com 170 ocorrências. Outras cidades também aparecem com números expressivos, como Uberlândia (66), Montes Claros (36), Pará de Minas (31) e Uberaba (16).
Municípios menores também registram ocorrências, como Divinópolis (11), Goianá (15) e Juiz de Fora (12), indicando que o fenômeno é espalhado por todo o território estadual.
Outro ponto de atenção são as 97 colisões com aves registradas, um tipo de incidente que, embora muitas vezes não resulte em tragédia, representa risco significativo e recorrente à operação aérea.
"A gestão do entorno dos aeródromos é fundamental. A presença de aves, por exemplo, está muitas vezes associada a lixões ou áreas rurais próximas a frigoríficos ou abatedouros irregulares. Sem controle adequado, o risco de acidente aumenta consideravelmente", afirma. A análise acumulada ao longo dos últimos dez anos pelo Cenipa mostra que, embora muitos fatores sejam conhecidos, a repetição de ocorrências indica desafios persistentes na segurança da aviação em Minas Gerais.
Para o professor, o conjunto desses fatores mostra que a segurança aérea depende de uma cadeia complexa, que envolve não apenas tecnologia, mas muita disciplina operacional, fiscalização e preparo humano contínuo.


