Cães aprendem a “manipular” tutores com expressões faciais, revela estudo

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Olhar suplicante: cães aprendem a conquistar recompensas (Foto: Instagram)

No reino animal, os pets são especialistas em obter o que desejam através de expressões faciais e outros métodos. Embora possa parecer uma forma de "manipulação", especialistas consultados pelo Metrópoles indicam que esse comportamento está ligado à aprendizagem associativa e à cognição social dos cães.

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Basicamente, os cães são peritos em observar padrões de comportamento, especialmente os de seus donos. Dizer que eles nos "manipulam" é uma forma humanizada de descrever a ação, quando na verdade há uma explicação científica por trás disso.

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“Se o cão chora ou senta perto da mesa e o tutor lhe dá um pedaço de comida, o cérebro do animal registra: ‘Comportamento X gera a recompensa Y’. Ele não está elaborando um plano para enganar o humano, mas sim aprendendo quais comportamentos produzem resultados favoráveis. É uma estratégia extremamente eficiente de adaptação e convivência”, explica o veterinário Igor Zimovski, do Centro Universitário do Planalto Central Professor Apparecido dos Santos (Uniceplac), em Brasília.

De acordo com Zimovski, vários estudos provam a capacidade dos cães de associar expressões faciais e variações de tom de voz a consequências positivas ou negativas. Por exemplo, uma expressão zangada indica uma interrupção da interação ou uma bronca, enquanto um sorriso ou tom de voz amigável costumam vir acompanhados de atenção, carinho ou recompensa – e os cães aprendem esses sinais.

Uma pesquisa liderada por cientistas da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, revelou que muitos cães domésticos têm o músculo da parte interna das sobrancelhas mais desenvolvido do que os lobos, o que gera a “cara de tadinho” que muitas vezes parece nos manipular. Os resultados foram publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

“A famosa carinha provavelmente é repetida porque desperta empatia e resulta em atenção ou recompensa, mais do que por uma intenção consciente de enganar”, afirma a médica veterinária Kássia Vieira, professora de comportamento e bem-estar animal da Universidade Católica de Brasília (UCB).

Na pesquisa, também se descobriu uma tendência maior a fazer a expressão quando algum humano está observando. “As evidências sugerem que eles aprendem a relação entre fazer a expressão e as chances de receber atenção ou interação sem que isso implique em uma intenção consciente de manipular”, completa Zimovski.

Por muitos anos, os cães foram domesticados para viver em convivência com humanos sem representar perigo. Um estudo recente apontou que os animais estão ao nosso lado há pelo menos 15,8 mil anos. Durante esse período, os cães aprenderam a conviver conosco, interpretando gestos, expressões e intenções da nossa espécie com grande eficiência.

“Durante milhares de anos, os humanos, consciente ou inconscientemente, selecionaram indivíduos mais tolerantes às pessoas, mais sociáveis e mais atentos aos nossos sinais. Os cães são uma das espécies mais adaptadas à convivência conosco”, diz Zimovski.

Justamente por sermos espelhos para os pets, é preciso ter cuidado com o que estamos transmitindo. Em alguns casos, comportamentos indesejados, como latidos excessivos, choro ou pular em você ou nas visitas, são motivados pela atenção excessiva dada pelo tutor em momentos como esses.

Conforme os especialistas, para evitá-los, é essencial educar o animal com limites claros e consistentes. “Muitos comportamentos interpretados como ‘manipulação’ são, na verdade, estratégias de comunicação aprendidas durante a convivência com os humanos. Por isso a importância de uma educação baseada em reforço positivo e respostas consistentes dos tutores”, ensina Kássia.