Missa em latim e de costas: celebração de padre excomungado em Ceilândia

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Padre Françoá Costa celebra missa tridentina na Capela Santo Atanásio, em Ceilândia (DF). (Foto: Instagram)

Localizada na esquina da QNO 19, em Ceilândia (DF), a Capela Santo Atanásio é conhecida por manter a missa tridentina, realizada em latim e seguindo os ritos anteriores ao Concílio Vaticano II. Vinculada à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), a igreja reuniu cerca de 30 fiéis na celebração da última quinta-feira (16/7). O Metrópoles acompanhou de perto a missa da comunidade, que foi excomungada pelo Vaticano nesta semana.

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Assim que os portões são abertos, os visitantes são recebidos pelos membros da igreja com cumprimentos e instruções. Para os novatos, explicam como funciona a celebração e indicam onde estão os livretos do ordinário da missa, que permitem acompanhar as orações tanto em latim quanto em português.

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Na entrada, duas caixas chamam a atenção: uma com véus brancos para mulheres solteiras e outra com véus pretos para casadas e viúvas. Antes de entrar na igreja, as mulheres e meninas cobrem a cabeça com a tradicional mantilha de renda, um costume seguido durante todas as celebrações.

A prática se baseia na tradição católica e na Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios. Para os fiéis ligados ao rito tradicional, o véu simboliza reverência a Deus e respeito ao momento da celebração. No local sagrado, o uso de celulares é proibido.

Dentro da capela, o silêncio predomina. Os homens vestem terno e roupas formais, enquanto as mulheres usam vestidos e saias longas. Calças não são parte do vestuário feminino. Até as crianças seguem o exemplo dos pais, usando mantilhas brancas.

Enquanto aguardam o início da missa, alguns fiéis permanecem sentados, enquanto outros rezam ajoelhados. Próximo ao altar, o padre Françoá Costa atende aqueles que desejam se confessar antes da missa.

As paredes brancas e azuis contrastam com o altar simples, onde um crucifixo ocupa o centro. Imagens de santos e candelabros iluminados por uma luz suave reforçam o ambiente de recolhimento.

Quem chega faz o sinal da cruz antes de entrar. Muitos seguram um terço e se ajoelham por alguns instantes antes de ocupar os bancos. Não há conversas, apenas o som baixo das orações pode ser ouvido.

Naquela noite, dedicada a Nossa Senhora do Carmo, o padre anunciou que, após a celebração, colocaria o escapulário nos fiéis que ainda não o haviam recebido e aspergiria água benta sobre a comunidade. Segundo ele, quem recebe o escapulário assume também um compromisso espiritual, como rezar diariamente ou cumprir alguma penitência.

Às 19h30, três badaladas do sino anunciam o início da missa. Todos se levantam para receber o padre, que entra pelo corredor central vestido com paramentos dourados, acompanhado por dois coroinhas. Enquanto ele caminha até o altar, os fiéis fazem uma leve reverência em sinal de respeito.

O silêncio é quebrado apenas pelas orações, e o que chama a atenção de quem visita pela primeira vez é o posicionamento do padre diante do altar. Durante praticamente toda a celebração, ele permanece voltado para o altar, de costas para os fiéis. Na Missa Tridentina — também chamada de Missa Tradicional ou Missa de São Pio V — sacerdote e comunidade permanecem voltados para a mesma direção, simbolizando que caminham juntos em direção a Deus.

Grande parte da celebração acontece em latim e, em alguns momentos, os fiéis respondem às orações acompanhando os livretos. Em outros, permanecem em silêncio, especialmente durante o Cânon Romano, a principal oração eucarística da missa.

Uma frequentadora da comunidade há um ano relata que o idioma pode causar estranhamento nas primeiras celebrações, mas a dificuldade diminui com o tempo.

“Estou fazendo um cursinho de latim para acompanhar melhor, mas, com o ordinário da Santa Missa, conseguimos seguir a celebração porque o texto está em latim e português”, afirma.

A missa segue a ordem tradicional: orações ao pé do altar, leituras, sermão, profissão de fé, ofertório, consagração, comunhão e orações finais. O ápice acontece na consagração, quando o sacerdote eleva a hóstia e o cálice, e os olhos dos fiéis permanecem voltados para o altar.

Na comunhão, os fiéis formam uma fila diante do altar. De joelhos, recebem a hóstia diretamente na língua e retornam aos bancos, onde permanecem ajoelhados em oração. Quem não comunga, permanece sentado, aguardando o fim do momento.

Após a celebração, todos se levantam novamente para a saída do padre e dos coroinhas. Mais uma vez, os fiéis fazem uma reverência enquanto eles deixam o altar. Alguns saem logo em seguida, enquanto outros permanecem ajoelhados por mais alguns minutos, prolongando o momento de oração.

Outra fiel diz que acompanha o padre Françoá Costa desde que ele chegou a Brasília, em 2021, antes mesmo de ter um espaço para celebrar. Na época, ela cedeu um espaço em sua chácara, no Incra 9, para as missas. Como o local era afastado, muitas mulheres relataram insegurança para participar dos ritos. Após várias tentativas, o sacerdote conseguiu alugar um imóvel em Ceilândia e, em 2025, fundou a Capela Santo Atanásio.

Ela conta que foi na primeira celebração que encontrou o tipo de missa que buscava. “Quando participei da primeira missa, vi que era exatamente o que eu queria”, relata.

Ela reconhece que o latim pode causar estranhamento, mas diz que isso não impede os fiéis de acompanhar a celebração. “Não sabemos latim, mas usamos um livrinho com o texto em latim e a tradução em português. Assim, conseguimos acompanhar e perceber o quanto tudo é profundo”, explica.

Para a fiel, um dos momentos mais simbólicos é quando o padre celebra voltado para o altar, de costas para a assembleia. “Ele reza de frente para a cruz porque é o sacrifício de Jesus se oferecendo a Deus para nos salvar. A missa não é para que a gente simplesmente entenda tudo, mas para participar desse sacrifício de Cristo”, afirma.

Excomungado pelo Vaticano após a confirmação do vínculo da Capela Santo Atanásio, em Ceilândia (DF), com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, o padre Françoá Costa afirmou que continuará exercendo normalmente o ministério religioso e classificou como “inválida” a decisão da Igreja Católica.

Em entrevista ao Metrópoles, o sacerdote afirmou que não pretende recorrer da decisão do papa Leão XIV e sustentou que nem ele nem a comunidade religiosa se consideram em situação de cisma, termo utilizado para definir a ruptura da comunhão com a autoridade do papa e da hierarquia da Igreja.

A FSSPX, fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, defende a preservação das tradições da Igreja Católica, como a celebração da missa em latim e a manutenção dos ensinamentos anteriores ao Concílio Vaticano II.

O Vaticano, por sua vez, considera que a fraternidade rejeita parte das reformas aprovadas pelo concílio e desafia a autoridade da Igreja, o que tem provocado sucessivos embates entre as duas partes e culminou na recente declaração de cisma e excomunhão.

A excomunhão foi anunciada após as sagrações episcopais realizadas em 1º de julho sem autorização do papa. Segundo o Vaticano, a consagração de bispos sem aprovação papal configura uma violação do Código de Direito Canônico.

A Arquidiocese de Brasília também publicou uma nota informando que a Capela Santo Atanásio e o padre Françoá estão em situação de cisma e que os sacramentos administrados no local, como confissões e casamentos, são inválidos.

Para o sacerdote, no entanto, a própria legislação da Igreja prevê exceções que afastariam a aplicação da pena. Apesar disso, Françoá afirmou reconhecer a autoridade do papa Leão XIV e disse rezar diariamente por ele durante as missas.

“Para nós, essas excomunhões e essas declarações de cisma são totalmente inválidas. Em consciência, não houve nem cisma nem excomunhão. A nossa vontade não é de nos separar nem do Papa e nem da Igreja Católica”, afirmou.

Segundo o padre, a decisão do Vaticano não altera a rotina da comunidade. Ele afirmou que as missas, confissões, casamentos, batizados e demais celebrações continuarão sendo realizados normalmente na capela.