Presidente argentino e Machado de Assis: um encontro histórico

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Domingo Faustino Sarmiento, retratado em 1868 em encontro lembrado por Machado de Assis (Foto: Instagram)

Calma, leitor, não é espiritismo. Não se trata de Machado de Assis aparecendo ao Presidente, mas sim do Presidente a Machado de Assis; e ele não se chamava, evidentemente, Lanusse.

Chamava-se Domingo Faustino Sarmiento.

Machado de Assis o avistou numa noite de 1868, quando, apesar da guerra com o Paraguai, ocorreram eleições na Argentina, e o homem que tanto caminhou nas neves do exílio e fez da “educação para todos” uma ferramenta de igualdade e civilização foi eleito para suceder o Presidente Bartolomeu Mitre.

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Tem a palavra o Sr. Machado de Assis:

“Foi em 1818. Estávamos alguns amigos no Clube Fluminense, Praça da Constituição, na casa onde hoje é a Secretaria do Império. Eram nove horas da noite. Vimos entrar na sala de chá um homem que ali se hospedara na véspera. Não era jovem; olhos grandes e inteligentes, barba raspada, um tanto corpulento. Demorou-se pouco tempo; de vez em quando, olhava para nós, que também o examinávamos, sem saber quem era. Era o Dr. Sarmiento, vindo dos Estados Unidos, onde representava a Confederação Argentina, e de onde saiu porque acabava de ser eleito Presidente da República. Tinha estado com o Imperador, e vinha de uma sessão científica. Dois ou três dias depois, partiu para Buenos Aires.

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A impressão que nos deixou esse homem foi, de fato, profunda. Naquela rápida visão do presidente eleito, pode-se dizer que nos aparecia o futuro da Nação argentina.

De fato, uma nação sufocada pelo despotismo, sangrada pelas revoluções, onde o poder não vinha senão da força vencedora e da vontade pessoal, apresentava este espetáculo interessante: um general patriota, que, alguns anos antes, após uma revolução e uma batalha decisiva, fora elevado ao poder e fundara a liberdade constitucional, ia entregar tranquilamente as rédeas do Estado, não a outro general triunfante, depois de nova revolução, mas a um simples legista, ausente da Pátria, eleito livremente por seus concidadãos. Era evidente que esse povo, apesar da escola em que aprendera, tinha a aptidão da liberdade; era claro também que os seus homens públicos, em meio das competências que os separavam, e porventura ainda os separam, sabiam unir-se para um fim comum e superior.

Sarmiento chegou a Buenos Aires; o General Mitre entregou-lhe o poder, tal como o constituíra e preservara da violência e do desânimo.”

Creio que bastaria parar aqui, com Machado de Assis.

Mas não paro. Acrescento duas palavras, não de discurso que se alonga, mas duas palavras mesmo.

Tive a sorte (não digo para me vangloriar, mas porque é notório) de nascer em São Luís do Maranhão e de me criar na beira do Parnaíba. Mas me considero um pouco argentino — argentino daquela misteriosa e persistente tradição que nos une e se inicia antes de Sarmiento, mas que ele definiu como a da “civilização” contra a “barbárie”. Esta se chamou a certa altura no passado Rosas, em nosso tempo Perón; e nunca foi amiga do Brasil. Com uma ou outra exceção retribuímos a malquerença, nós brasileiros; e até, no caso de Rosas, participamos da briga com o nosso sangue. Entre os que deixaram um pouco desse sangue no chão de Caseros estava — por sinal — Manuel Luís Osório, a quem Sarmiento ofereceu a única coisa dada, disse ele, à sua República, que não tinha naqueles tempos títulos e distinções: a cidadania da República argentina.

No fundo, a América Latina é mesmo uma só. Eis porque não deixamos de ter um pouco de argentinos, todos nós. E eles de brasileiros. Isso nos dá direito a ler Jorge Luís Borges como se tivesse nascido na Rua do Rosário e a desejar para a Argentina presidentes como Mitre e Sarmiento e não ditadores como Rosas e Perón.

Odylo Costa