
Fabiana Karla e Shakira mostram as diversas faces da superdotação feminina (Foto: Instagram)
Durante muito tempo, a imagem de uma pessoa superdotada esteve ligada ao aluno que tira as melhores notas, aprende rapidamente e se destaca na escola.
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Fora desse estereótipo, no entanto, há histórias que podem levar anos para serem compreendidas. Entre as mulheres, características associadas às altas habilidades podem ser mascaradas por estratégias de adaptação social ou vistas como ansiedade, excesso de cobrança e até dificuldade de relacionamento.
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FAMOSAS COM SUPERDOTAÇÃO
Nos últimos anos, o tema ganhou destaque com mulheres famosas que falaram publicamente sobre altas habilidades e superdotação, como Fabiana Karla, Shakira, Natalie Portman, Geovanna Tominaga e, mais recentemente, Bruna Louise.
A exposição de diferentes trajetórias ajuda a mostrar que não existe um único perfil de mulher superdotada e que a identificação nem sempre ocorre na infância.
CURIOSIDADE INTENSA
No Dia da Superdotação, comemorado em 10 de agosto, o psicólogo e neuropsicólogo Damião Silva, especialista em Superdotação, TDAH e Autismo, e a psiquiatra Fabrícia Signorelli, especialista em TDAH, TEA e altas habilidades do SUPERA, explicam quais comportamentos podem chamar atenção e por que eles nem sempre são reconhecidos como sinais de altas habilidades.
Um dos comportamentos que pode surgir desde cedo é a sensação de não se encaixar. A menina pode demonstrar curiosidade intensa, fazer perguntas consideradas profundas para a idade, apresentar interesses variados ou buscar compreender detalhadamente assuntos de seu interesse. Sem um ambiente que reconheça essas características, esse comportamento pode ser interpretado de outras formas.
“Muitas mulheres relatam que sempre sentiram que pensavam de maneira diferente das outras. Elas podem ter interesses muito variados, fazer perguntas profundas desde a infância e apresentar uma necessidade intensa de compreender o funcionamento das coisas. Quando não encontram pessoas com interesses ou ritmo de raciocínio compatíveis, isso pode ser interpretado como timidez ou dificuldade social”, explica Damião.
COBRANÇA INTERNA
Outro comportamento que pode se destacar é o perfeccionismo. A necessidade de realizar uma tarefa com excelência, compreender completamente determinado assunto ou alcançar padrões muito elevados pode fazer parte da experiência de algumas mulheres. O problema surge quando essa cobrança é vista isoladamente, sem que outros aspectos do funcionamento sejam considerados.
“O perfeccionismo pode estar relacionado a uma necessidade muito grande de domínio e de realização, mas não deve ser analisado sozinho. Quando existe uma cobrança interna intensa, acompanhada de pensamento acelerado e necessidade constante de novos desafios, vale investigar como essas características se conectam ao funcionamento global daquela mulher”, afirma Fabrícia.
Nesse ponto, pode surgir outra confusão comum: a associação entre pensamento acelerado e ansiedade. Uma mulher que apresenta muitas ideias simultaneamente, questiona constantemente, mergulha profundamente em determinados assuntos ou precisa de estímulo intelectual pode ser vista apenas como ansiosa ou inquieta.
“Uma mulher que pensa muito rápido, questiona constantemente, mergulha profundamente em determinados assuntos e precisa de estímulo intelectual pode ser vista apenas como ansiosa ou inquieta. É fundamental entender se estamos diante de um transtorno, de uma característica de personalidade, de altas habilidades ou de uma combinação desses fatores”, explica a psiquiatra.
UMA AVALIAÇÃO AMPLA
Em muitos casos, a resposta só chega anos depois. A mulher pode buscar uma avaliação na vida adulta após perceber padrões que se repetiram ao longo da trajetória acadêmica, profissional ou pessoal. Também é comum que a investigação ocorra após características semelhantes serem identificadas em filhos ou outros familiares.
Para o especialista, a avaliação precisa considerar muito mais do que uma pontuação em testes cognitivos.
“Vale buscar uma avaliação especializada quando compreender esse funcionamento pode responder questões importantes sobre a própria história, aprendizagem, trabalho ou saúde emocional. Uma avaliação adequada precisa ser abrangente e não pode se limitar a um teste de QI: deve integrar dados cognitivos, emocionais, comportamentais, desenvolvimentais e contextuais.”
A discussão sobre superdotação feminina, portanto, passa menos pela busca de um perfil ideal e mais pela compreensão das diferentes formas como as altas habilidades podem aparecer. Uma mulher pode ter grande capacidade em determinada área, apresentar dificuldades em outra, sentir necessidade constante de estímulo intelectual e, ainda assim, não corresponder ao estereótipo de uma pessoa que se destaca em tudo.
A identificação também não deve servir para explicar automaticamente qualquer dificuldade emocional ou comportamental. O objetivo de uma avaliação especializada é compreender a história e o funcionamento daquela pessoa como um todo. Para mulheres que passaram anos tentando entender por que aprendem, pensam, sentem ou se relacionam de determinada maneira, esse processo pode ajudar a transformar uma sensação antiga de diferença em uma compreensão mais precisa sobre suas potencialidades e necessidades.






