
Musculatura forjada com agulhas: o reflexo sombrio do comércio ilegal de anabolizantes (Foto: Instagram)
Nas primeiras horas desta quarta-feira (12/8), a Divisão de Defesa do Consumidor da Coordenação de Repressão aos Crimes contra o Consumidor, a Propriedade Imaterial e a Fraudes (Corf), da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), lançou a Operação Narciso, considerada a maior ação do ano contra o comércio ilegal de anabolizantes e outras substâncias proibidas no Brasil.
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A investigação desvendou uma complexa rede criminosa dedicada à fabricação caseira, fornecimento de insumos, rotulagem, divulgação e comercialização de anabolizantes, medicamentos controlados, produtos veterinários e suplementos com substâncias ocultas.
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O esquema tinha conexões em oito estados, além do DF, e uma ligação direta com a fabricação clandestina no Paraguai. As operações ocorreram em Santa Catarina, Acre, São Paulo, Goiás, Rio Grande do Norte, Paraíba e Minas Gerais.
No total, a Justiça emitiu 43 mandados de prisão (preventivas e temporárias) e 64 mandados de busca e apreensão, além de ordenar o bloqueio e sequestro de R$ 32 milhões em ativos financeiros e a quebra de sigilo bancário de 58 investigados.
Mais de 20 estabelecimentos comerciais foram fechados, 10 veículos de luxo apreendidos e mais de 30 sites de venda ilegal foram retirados do ar. A organização criminosa contava com a participação de nutricionistas, biomédicos, veterinários, personal trainers e influenciadores digitais.
A apuração começou na Operação Béquer, desencadeada em fevereiro do ano passado, após uma busca no apartamento de Carlos Henrique Rodrigues de Abreu. No local, foram encontrados anabolizantes, insumos, cápsulas, rótulos e dois celulares.
A análise dos aparelhos revelou a fabricação doméstica de produtos associados a Fellipe Dias e Felipe Semani, criadores das marcas clandestinas AlphaLabs, Mega Burner e Libid Up, além de expor uma rede de fornecedores, gráficas, motoboys e laboratórios clandestinos como HydraPharmace, Skullredlab, Sypharma, Eurolabs, New Science, GC e Yellow B.
Todos os laboratórios são alvos de mandados de busca, e seus proprietários possuem mandados de prisão preventiva ou temporária expedidos pela Justiça.
De acordo com as investigações conduzidas pelo delegado Rodrigo Carbone, o núcleo do esquema operava sob o termo “cozimento”: a fabricação artesanal de substâncias injetáveis e orais em locais improvisados, sem qualquer assepsia ou controle sanitário.
Para aumentar o rendimento dos produtos e maximizar os lucros, os criminosos misturavam insumos importados da Índia, da China e do Paraguai a ingredientes altamente perigosos. A ausência de controle técnico e a contaminação nos processos injetáveis têm provocado reações alérgicas graves, infecções severas e abscessos nos usuários.
Roberto Carlos Pereira de Carvalho, conhecido como Jiraiya, é apontado como um dos maiores traficantes de anabolizantes do país. Ele possuía laboratórios clandestinos em São Paulo, Paraíba, DF, Foz do Iguaçu (PR) e Paraguai, faturando R$ 500 mil líquidos por mês.
André Luiz de Amorim Junqueira, cabeça da organização responsável pelo produto “Yellow B”, dominava as técnicas de “cozimento” nos laboratórios undergrounds de São Paulo, Goiás e DF. Ele também atuava como DJ e mantinha forte ligação com gráficas para produção das embalagens falsas.
Ana Luiza de Nazaré Lima e Alam Manoel Lima, influenciadora digital e seu ex-marido, eram responsáveis pela divulgação, venda e logística do Yellow B e de produtos à base de testosterona, utilizando redes sociais para enganar clientes com promessas de emagrecimento rápido.
Eduardo Vieira Euzébio, o “Gigante da estética”, biomédico e proprietário de clínica na Asa Norte, atuava como intermediário dos laboratórios clandestinos, adquirindo anabolizantes e aplicando as substâncias em suas clientes.
Elisangela Pereira Acosta e Jorge Luiz Roa eram os principais fornecedores de insumos e matérias-primas importadas, ocultando as substâncias dentro de peças de motocicletas para envio a todo o Brasil.
O delegado Rodrigo Carbone afirmou que os alvos da operação são tratados como traficantes de drogas. A operação combate o submundo dos laboratórios clandestinos, que representa 80% do mercado de anabolizantes.
A organização movimentava milhões e exibia um padrão de vida luxuoso, utilizando engenhosos mecanismos de lavagem de dinheiro, como casas de apostas online, empresas laranjas e doleiros, além de fachadas comerciais.
As investigações revelaram uma engenharia complexa que ligava a origem da apuração até rotas internacionais, com matérias-primas importadas de países como China, Índia e Paraguai chegando à fronteira em Foz do Iguaçu.
O marketing do esquema era impulsionado por redes sociais e patrocínios estratégicos, com influenciadores digitais usando a imagem de corpos esculturais para vender a ilusão do padrão estético perfeito, omitindo conscientemente os graves efeitos colaterais dos produtos.






