Felca relata bullying e fobia social, reacendendo debate sobre saúde mental

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O relato de Felca sobre os impactos do bullying em sua saúde mental reacendeu o debate sobre as consequências emocionais da violência vivida na infância e adolescência.

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Em vídeo publicado no YouTube, nesta terça-feira (20/10), o criador de conteúdo contou que sofreu humilhações e agressões físicas durante os anos escolares, experiências que relaciona ao desenvolvimento da fobia social. Ele também revelou que recorreu ao álcool para conseguir participar de entrevistas, gravações e eventos profissionais.

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O depoimento expõe uma realidade que nem sempre é percebida por quem está ao redor: pessoas que aparentam segurança em ambientes profissionais ou nas redes sociais podem enfrentar sofrimento intenso em situações cotidianas de interação. No caso do influenciador, a visibilidade conquistada na internet não eliminou as dificuldades relatadas por ele para lidar com a exposição e o contato social.

Para Priscila F. Telles, médica com atuação voltada à saúde mental, experiências repetidas de humilhação, rejeição e intimidação podem afetar a autoestima, a percepção de segurança e a maneira como uma pessoa passa a interpretar as relações sociais.

“Quando uma criança ou um adolescente é submetido repetidamente a situações de humilhação, agressão ou exclusão, isso pode deixar marcas emocionais importantes. A pessoa pode começar a antecipar novas experiências de rejeição, desenvolver medo de ser julgada e passar a evitar situações nas quais acredita que poderá ser exposta ou ridicularizada”, disse a especialista.

E prosseguiu: “É importante compreender que cada indivíduo reage de uma maneira, e que o bullying não determina, necessariamente, o desenvolvimento de um transtorno mental”, explicou.

Durante o relato, Felca afirmou que sofreu bullying dos 12 aos 18 anos e descreveu episódios de violência física e exclusão. Segundo ele, as experiências contribuíram para que desenvolvesse medo de frequentar ambientes sociais, chegando a interferir em decisões sobre seu futuro acadêmico.

O bullying não se resume a brincadeiras desagradáveis ou conflitos pontuais entre colegas. Quando há intimidação e agressões recorrentes, especialmente em situações marcadas por desequilíbrio de poder, os efeitos podem atingir o bem-estar emocional, a autoestima e o sentimento de pertencimento.

“Quando o ambiente que deveria oferecer aprendizado, convivência e proteção se transforma em um lugar de medo, a pessoa pode passar a associar o contato com outras pessoas à possibilidade de sofrer novamente. Em alguns casos, esse receio continua mesmo depois que a situação de violência termina. Por isso, é fundamental que famílias e escolas levem a sério os relatos de bullying e ofereçam acolhimento, proteção e acompanhamento quando necessário”, afirmou.

A especialista ressaltou que não é possível atribuir um quadro clínico exclusivamente a um acontecimento sem uma avaliação individualizada. A história de vida, os fatores emocionais, o ambiente e outras circunstâncias precisam ser considerados por um profissional de saúde.

Também conhecido como transtorno de ansiedade social, o quadro envolve medo ou ansiedade intensos diante de situações em que a pessoa acredita que será observada, avaliada ou julgada por outras pessoas. Esse receio pode aparecer em apresentações públicas, reuniões profissionais, conversas com desconhecidos ou até em atividades aparentemente simples, como fazer uma ligação ou frequentar um estabelecimento comercial.

Em algumas situações, o medo leva à evitação de compromissos, ao isolamento e a prejuízos na vida acadêmica, profissional e afetiva. Também podem surgir manifestações físicas, como palpitações, tremores, sudorese e náusea.

“É importante diferenciar a timidez de um quadro que provoca sofrimento significativo e limita a vida da pessoa. Sentir vergonha ou nervosismo em determinadas situações é comum. O sinal de alerta aparece quando o medo se torna intenso, frequente e começa a impedir atividades importantes, prejudicando os relacionamentos, os estudos ou o trabalho. Nesses casos, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo e indicar o tratamento adequado”, orientou.

Um dos pontos mais delicados do depoimento foi o relato de que o youtuber utilizava álcool para conseguir participar de compromissos profissionais. Ele relatou que passou a depender da bebida para enfrentar interações e contou ter sofrido um acidente após consumir álcool antes de uma gravação.

O episódio chamou a atenção para o risco de recorrer a substâncias como uma forma de aliviar o sofrimento emocional. Embora o álcool possa produzir uma sensação temporária de desinibição, seu uso como estratégia para lidar com a ansiedade pode favorecer padrões prejudiciais de consumo e criar novos problemas de saúde.

“Quando alguém sente que só consegue enfrentar uma situação social depois de beber, é importante olhar para o sofrimento que está por trás desse comportamento. O alívio momentâneo pode reforçar a ideia de que a pessoa não é capaz de lidar com essas situações sem a bebida. Com o tempo, isso pode aumentar a dependência desse recurso e trazer consequências físicas, emocionais e sociais. O caminho mais seguro é buscar ajuda para tratar a causa do sofrimento, em vez de tentar silenciá-lo com álcool”, detalhou.

A especialista destacou que comportamentos desse tipo não devem ser tratados com julgamento ou vergonha. O acolhimento e a avaliação profissional são fundamentais para compreender a relação entre ansiedade e consumo de substâncias e definir as estratégias de cuidado necessárias.

A fobia social pode ser tratada, e a abordagem depende das necessidades de cada paciente. O acompanhamento pode envolver psicoterapia, especialmente abordagens com evidências científicas para transtornos de ansiedade, e, quando indicado, avaliação médica para considerar o uso de medicamentos.

Em alguns tratamentos, a exposição gradual a situações temidas é utilizada de maneira planejada e acompanhada por profissionais. A proposta não é obrigar a pessoa a enfrentar seus medos de uma só vez, mas ajudá-la a desenvolver recursos para lidar com eles de forma progressiva e segura.

No vídeo, Felca anunciou um desafio pessoal de 90 dias para aceitar convites e participar de situações sociais que normalmente evitaria, com a intenção de enfrentar essas dificuldades sem recorrer ao álcool. A iniciativa faz parte de sua experiência individual e não representa um prazo clínico de recuperação aplicável a todas as pessoas.

“Cada processo de cuidado precisa respeitar a história, os limites e as necessidades da pessoa. Evitar indefinidamente tudo o que provoca medo pode manter o ciclo da ansiedade, mas se expor de maneira abrupta, sem preparo ou suporte, também pode ser muito difícil. O tratamento deve ajudar o paciente a construir segurança gradualmente, com estratégias adequadas ao seu caso”, declarou.

Além de compartilhar sua experiência, Felca anunciou a intenção de realizar palestras gratuitas em escolas para discutir os efeitos do bullying. A iniciativa reforça a importância de ampliar o debate sobre violência entre estudantes e sobre o papel de adultos e instituições na prevenção desse tipo de comportamento.

Para Priscila, a prevenção exige atenção aos sinais de sofrimento e uma postura ativa de familiares, professores e responsáveis. Mudanças repentinas de comportamento, resistência persistente em ir à escola, isolamento, queda no rendimento e queixas físicas frequentes podem justificar uma conversa acolhedora e uma investigação cuidadosa, sem presumir antecipadamente a causa.

“Uma criança que sofre bullying precisa saber que não está sozinha e que não é culpada pela violência que está enfrentando. Escutar sem minimizar o que aconteceu, garantir sua segurança e buscar apoio quando necessário são atitudes essenciais. O impacto emocional não deve ser ignorado até que se transforme em um problema maior”, pontuou.

O relato do youtuber mostrou que o sofrimento emocional nem sempre é visível e que reconhecimento público, sucesso profissional ou desenvoltura diante das câmeras não significam ausência de dificuldades. Ao trazer sua experiência a público, o influenciador amplia a discussão sobre bullying, ansiedade social e a necessidade de tratar a saúde mental com seriedade, informação e acolhimento.

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