
Entre cenários idílicos e cobranças oficiais: Karina Gama posa à beira de um rio enquanto sua ONG é questionada pela Prefeitura de SP sobre convênios milionários. (Foto: Instagram)
A ONG liderada por Karina Ferreira Gama, produtora do filme Dark Horse, está em meio a contradições após ser cobrada pela prefeitura de São Paulo para justificar convênios realizados entre 2022 e 2025 com verbas de emendas. As investigações sobre o Instituto Conhecer Brasil (ICB) começaram após o Metrópoles revelar possíveis irregularidades nesses contratos.
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Um exemplo é o seminário RIEFA de 2025, que custou R$ 750 mil aos cofres públicos por meio de emenda do vereador André Santos (Republicanos). O ICB informou que a empresa Vamoz Comunicações e Eventos, ligada a um conselheiro da entidade, recebeu dois pagamentos, mas as notas fiscais foram emitidas por outra empresa, a Continua Educação, de uma ex-assessora da Alesp.
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Em outra situação, o ICB declarou à prefeitura que não conseguiu utilizar a conta bancária oficial de um termo de fomento por um suposto “bloqueio/impedimento técnico operacional”. Inicialmente, a ONG afirmou que usou recursos próprios de outras contas para realizar o evento, sem tocar nos R$ 100 mil públicos. Contudo, ao ser questionada, a ONG não apresentou os extratos das contas paralelas, impossibilitando a auditoria da prefeitura sobre a origem e destino do dinheiro. O ICB enviou notas fiscais apenas após o término da parceria e o início das investigações, mudando sua versão para alegar que os fornecedores ainda não foram pagos.
Nos dois casos, a área técnica da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) detectou divergências, inconsistências e descumprimento de obrigações. No entanto, até o momento, recomendou apenas uma advertência formal, sem outras punições à ONG, que continua contratada para instalar e manter pontos de wifi na periferia da cidade, recebendo cerca de R$ 4,7 milhões por mês.
A Polícia Civil suspeita que recursos desse contrato possam ter sido usados para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro (PL). Nesta segunda-feira (24), o ministro Flávio Dino, do Superior Tribunal Federal, autorizou a Polícia Federal a acessar esses documentos.
O evento Riefa 2025, financiado com R$ 750 mil do orçamento municipal, aconteceu no Campus Higienópolis da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, com um público modesto: apenas 385 participantes, em sua maioria universitários, assinaram a lista do evento principal, enquanto os workshops tiveram apenas 16 participantes. A transmissão ao vivo no Youtube não atingiu 2 mil visualizações após mais de um ano no ar.
O evento também teria ocorrido no “metaverso”, através da contratação de uma empresa de um conselheiro da entidade, mas a ONG não atendeu ao pedido da prefeitura para entregar relatórios de acessos e métricas de tráfego que comprovassem a utilização dos ambientes virtuais criados com verba pública. Quando questionado pela SMIT, o ICB alegou que os dados detalhados não existem.
Para tentar provar a realização da meta virtual, a entidade de Karina Ferreira da Gama apresentou apenas uma captura de tela da plataforma, mostrando que o ambiente virtual do projeto acumulou modestas 388 visualizações, sustentando que esses indicadores visuais das próprias interfaces eram a única comprovação oficial disponível no mercado.
Uma manifestação recente da área técnica da SMIT lista que o ICB informou em março que havia concluído a prestação de contas, disponibilizando um link para acesso aos documentos, que só foram analisados em 2 de junho, horas após o Metrópoles publicar denúncias sobre o convênio. Foi então que a prefeitura descobriu que diversos anexos estavam ausentes na pasta do Drive.
Após quase um mês de cobranças da SMIT, os documentos foram enviados entre 28 e 29 de junho. A secretaria notou a falta de evidências de cumprimento de duas das metas, incluindo “premiação”. O ICB não cumpriu diversos prazos e a única comprovação relativa à premiação foram três vídeos com “áudio corrompido, o que impossibilitou a análise integral e a validação das informações referentes às premiações”, segundo a secretaria.
“Embora a OSC tenha apresentado parte da documentação após as cobranças realizadas, o histórico constante dos autos evidencia a necessidade de reiteradas solicitações para obtenção dos documentos e esclarecimentos requeridos, ocasionando atraso na instrução processual e dificultando as atividades de monitoramento, fiscalização e análise da parceria. A própria defesa reconhece a ocorrência de falhas operacionais internas e de atraso no atendimento das demandas formuladas pela Administração”, avaliou a área técnica da SMIT.
Ainda assim, a pasta emitiu parecer pela aplicação de uma advertência formal, sem punições mais severas à ONG. Como o Metrópoles mostrou, o ICB já contratou uma empresa ligada ao atual secretário da SMIT, Humberto Alencar, para produzir conteúdo de metaverso de uma edição anterior desse seminário, em 2023, quando ele já era secretário-adjunto da pasta. A prestação de contas não comprova que esse conteúdo tenha existido.
Também em 2025, o ICB realizou o “Rumo da Inovação na Educação e no Mercado de Trabalho” (RIEMT), custeado com R$ 100 mil de uma emenda parlamentar da vereadora Cris Monteiro (Novo). O evento teve porte modesto, ocorrendo no Instituto Social Nossa Senhora de Fátima, com a presença quase exclusiva de alunos dessa instituição de ensino na zona norte.
Após afirmar que não conseguiu movimentar o dinheiro da emenda e, por isso, utilizou verbas próprias para pagar as despesas, a ONG mudou a versão e alegou que o objeto foi executado, mas os fornecedores ainda não receberam, aguardando quitação financeira.
Pelo plano de trabalho, o ICB gastaria R$ 17 mil para transportar participantes para o evento. Sem pedir autorização prévia, a entidade de Karina Gama remanejou e gastou integralmente essa verba na rubrica de “serviços de comunicação institucional e produção audiovisual”. O ICB só enviou uma “justificativa técnica” para a alteração unilateral em junho de 2026, mais de dois meses após o término da vigência da parceria – e após publicações no Metrópoles sobre o evento.
Novamente a unidade técnica da SMIT rejeitou a defesa do ICB na semana passada e propôs a aplicação apenas de uma advertência formal à ONG, alegando a ocultação de documentos financeiros indispensáveis e o remanejamento ilegal de rubricas.
Procurada, Karina Gama afirmou que a ONG “tem efetuado a prestação de contas corretamente dentro do processo administrativo normal”, sem as irregularidades apontadas pela coluna. Questionada sobre a emissão de notas fiscais apenas após o fim da parceria e sobre a mudança de versão sobre o pagamento aos fornecedores do RIEMT, disse que “estamos em tratativas aguardando as instruções da SMIT para os esclarecimentos necessários”.
Já a prefeitura de São Paulo enviou a seguinte nota:
“A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) informa que a parceria com o Instituto Conhecer Brasil (ICB) possui prestações de contas ainda em andamento, que dependem da apresentação de defesa pela OSC, sendo prematuro antecipar qualquer conclusão sobre eventuais irregularidades. Vale ressaltar que a advertência formal pode ser aplicada durante a fase de diligência, quando prevista nos termos de fomento, enquanto transcorrem a defesa da OSC e a análise pela Administração Pública.”







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