
Bonecas como ferramenta antirracista: diversidade e pertencimento em ação (Foto: Instagram)
Uma criança negra de três anos recusou ajuda de uma professora por ela ser negra. Outra criança negra apenas aceitou brincar com uma boneca caso fosse branca. Uma auxiliar ignorou as lágrimas de uma criança enquanto alisava seus cabelos cacheados. Esses incidentes ocorreram em uma creche municipal no Vidigal, Rio de Janeiro, evidenciando que o racismo pode ser aprendido e reproduzido desde a infância.
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Como a educação pode enfrentar esse tipo de sofrimento? Essa é uma das questões abordadas na dissertação de mestrado de Fernanda Branco, intitulada “Construindo uma educação antirracista na creche”, defendida em 2023 no Programa de Pós-Graduação em Relações Étnico-Raciais do CEFET/RJ. A pesquisa se baseia na experiência da pedagoga e professora de Educação Infantil, que transforma sua vivência profissional em objeto de análise. Para implementar uma educação antirracista na creche, ela combina observações da prática pedagógica, políticas públicas, produção intelectual negra e indígena e interações com literatura infantil.
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Vamos revisitar o episódio das bonecas. Durante uma atividade, uma professora segurou uma boneca negra, brincou com ela e incentivou as crianças a fazerem o mesmo. Um menino negro de três anos se recusou a pegá-la. Seria essa uma questão de machismo, acreditando que meninos só podem gostar de bola? Não, pois ao receber uma boneca branca, ele a aceitou. Em outro momento, ele agrediu a boneca negra nas mãos de um colega. O que uma criança tão pequena já ouviu ou aprendeu sobre pessoas negras para rejeitar um objeto que se parece com ela?
A questão é abordada por Neusa Santos Souza, autora de "Tornar-se negro". Sua análise revela como a sociedade transforma a branquitude em padrão de beleza e reconhecimento, gerando sentimentos de inferioridade e baixa autoestima entre pessoas negras. Na pesquisa, o comportamento observado na creche é visto como um possível sinal precoce desse processo de autorrejeição.
A discussão também retoma Lélia Gonzalez e Abdias do Nascimento, que destacaram a escola como um espaço de reprodução das desigualdades raciais. Gonzalez alertou para a ausência da história e cultura africanas na educação e para a imposição de uma “estética da brancura”. A escola não é neutra e pode tanto reproduzir uma hierarquia racial quanto ajudar a desconstruí-la.
A autora adota o conceito de necroeducação, relacionado às ideias de Achille Mbembe e Michel Foucault. A intenção é destacar uma “morte simbólica”: quando estudantes negros são invisibilizados e suas culturas não são positivamente representadas, enquanto um padrão branco é apresentado como universal.
O combate a esse cenário requer uma mudança na forma de educar. A pesquisa utiliza conceitos como a afrocentricidade de Molefi Kete Asante, a Pretagogia de Sandra Petit e Geraldine Silva, e o Letramento Racial Crítico de Aparecida de Jesus Ferreira. Em comum, essas abordagens defendem que identidade, ancestralidade, corpo, pertencimento e relações raciais devem ser centrais na formação de crianças e educadores.
A literatura infantil é uma das ferramentas nessa disputa. A pesquisa questiona, por exemplo, o papel de "Menina Bonita do Laço de Fita", de Ana Maria Machado. Apesar de popular, o estudo observa que a narrativa coloca um coelho branco como protagonista, interessado em adquirir a cor da menina negra, que não ocupa o centro da história.
Na creche, a estratégia da autora foi diversificar esse repertório literário. Obras como "Chuva de Manga", de James Rumford, "Maria Preta" e "Da Minha Janela", de Otávio Junior, "Amor de Cabelo", de Matthew A. Cherry, e "Tequinho – o Menino do Samba", de Neusa Rodrigues e Alex Oliveira, são utilizadas em atividades que relacionam literatura, território, afetividade, cabelo crespo, cultura afro-brasileira e pertencimento.
A pesquisa, no entanto, alerta que trocar os livros não é suficiente, assim como conhecer a Lei 10.639/2003, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nos currículos da Educação Básica. Uma educação antirracista exige formação teórica dos profissionais, autocrítica sobre privilégios raciais e um processo contínuo de letramento racial.
A creche é o local onde se aprende a falar, brincar, reconhecer o próprio corpo e estabelecer vínculos, onde podem se formar a rejeição ou o orgulho da identidade negra. Para a autora, intervir nessa fase é crucial para impedir que preconceitos se cristalizem e para criar condições para que crianças negras cresçam com autoestima, dignidade, pertencimento e orgulho de quem são.
A sala de leitura da creche no Vidigal foi renomeada em homenagem à escritora e educadora negra Sônia Rosa. Um gesto que sintetiza a proposta da pesquisa: combater o racismo na infância é escolher quem deve estar no centro das histórias que as crianças escutam e como elas podem aprender a contar suas próprias histórias.







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