Ministério da Saúde alerta sobre perfis falsos de médicos criados por IA

Publicado por


Falsos médicos de IA enganam internautas (Foto: Instagram)

Um médico de jaleco aparece na frente da câmera, fala com confiança, utiliza termos técnicos e oferece orientações sobre doenças e tratamentos. A imagem, a voz e os movimentos parecem autênticos, mas o profissional pode não ser real.

++ Sistema de IA mostra como pessoas estão criando conteúdo diário sem gravar vídeos

Personagens criados ou alterados com inteligência artificial (IA) estão sendo apresentados como médicos e outros profissionais de saúde nas redes sociais. De acordo com o Ministério da Saúde, alguns conteúdos utilizam credenciais falsas, linguagem alarmante e promessas de tratamentos ou curas sem comprovação científica, além de oferecer produtos, e-books e serviços.

++ Bomba! Astro de Hollywood, Joe Manganirllo revela ter amputado membro

Através do programa Saúde com Ciência, o Ministério identificou 97 perfis que usavam IA para simular profissionais de saúde e espalhar desinformação. A análise se concentrou em conteúdos publicados entre 1º de janeiro e 10 de julho de 2026.

Felipe Proenço, secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério, informou ao Metrópoles que os perfis acumulam milhões de visualizações e representam um "grave risco à saúde pública", especialmente para idosos, que são o principal público-alvo.

“O governo reforça a importância de a população buscar apenas fontes oficiais e profissionais de saúde para obter orientações médicas, evitando cair em golpes ou seguir condutas que possam agravar condições de saúde”, declarou Proenço.

Felipe Matos, especialista em inteligência artificial e CEO da 10K Digital, explica que a tecnologia alcançou um nível onde é possível criar rostos, vídeos, clonar vozes a partir de pequenas amostras de áudio e reproduzir vocabulário, tom e padrões de comunicação com alto grau de precisão.

Um falso médico pode ser criado através da combinação de quatro tecnologias: geração de imagens e vídeos, troca de rostos por deepfake, clonagem de voz e sincronização dos movimentos da boca com o áudio. Um modelo de linguagem pode escrever o roteiro, outra ferramenta produzir a voz e um sistema de vídeo criar ou animar o personagem.

“Isso não significa que a IA consiga reproduzir perfeitamente uma pessoa em qualquer situação, mas, em vídeos curtos e contextos controlados, o material já pode ser suficientemente convincente para dificultar que o público identifique uma falsificação apenas pela aparência ou pela voz”, explica Matos.

Além da qualidade das imagens, os criadores podem usar elementos associados à autoridade médica, como jaleco, estetoscópio, consultório, diplomas ao fundo, supostas especialidades e números de registro profissional.

Matos destaca que a estratégia também pode envolver termos técnicos, menções a estudos ou instituições e falsos relatos de pacientes. Outra tática é combinar informações verdadeiras e conhecidas com alegações falsas ou sem comprovação, tornando a desinformação mais difícil de perceber.

Comentários positivos, números de seguidores, avaliações e relatos de resultados também podem ser fabricados ou manipulados para aumentar a aparência de credibilidade.

Vídeos produzidos por IA costumavam apresentar sinais relativamente perceptíveis, como mãos deformadas, movimentos estranhos dos lábios e vozes robotizadas. Com a evolução dos modelos, porém, depender apenas de falhas visuais deixou de ser uma forma segura de identificar uma fraude.

“Essas pistas ainda podem levantar suspeitas, mas já não são suficientes para identificar uma fraude com segurança”, afirma Matos.

Alguns detalhes ainda merecem atenção, como movimentos labiais incompatíveis com determinadas palavras, mudanças nos dentes, nas mãos ou nos acessórios, reflexos incoerentes e alterações na textura da pele, do cabelo ou do cenário. No áudio, pausas pouco naturais, ausência de respiração, pronúncias incomuns e mudanças no timbre também podem servir de alerta.

A recomendação mais segura, de acordo com o especialista, é verificar a identidade de quem aparece no conteúdo. Quando alguém afirma ser médico, o usuário pode consultar o nome e o registro profissional nos canais oficiais do Conselho Federal de Medicina e dos Conselhos Regionais de Medicina, além de conferir se a pessoa realmente trabalha na clínica ou no hospital informado.

O Ministério da Saúde alerta que informações falsas podem estimular a automedicação, levar ao uso de terapias sem comprovação científica, atrasar a procura por atendimento e até provocar a interrupção de tratamentos recomendados por profissionais. Para reduzir o risco de cair em conteúdos enganosos, a orientação da pasta é:

  • Buscar informações em fontes oficiais e confiáveis, principalmente quando o conteúdo envolver doenças, medicamentos e tratamentos.
  • Confirmar as orientações com profissionais de saúde, em vez de tomar decisões médicas somente com base em vídeos publicados nas redes sociais.
  • Desconfiar de promessas de cura, tratamentos milagrosos ou resultados garantidos.
  • Ter cautela com conteúdos alarmistas, principalmente quando tentam provocar medo ou urgência para convencer o usuário.
  • Evitar a automedicação ou mudanças de tratamento motivadas apenas por orientações encontradas na internet.
  • Não interromper tratamentos indicados por profissionais de saúde por causa de recomendações publicadas em perfis nas redes sociais.

Os casos identificados pelo programa Saúde com Ciência foram encaminhados à Advocacia-Geral da União (AGU), à Polícia Federal e ao Conselho Federal de Medicina (CFM).

A partir do levantamento, a AGU notificou o YouTube para adotar providências em relação aos conteúdos apontados pelo Ministério. Entre as medidas solicitadas estão a remoção ou, conforme o caso, a rotulagem e contextualização dos vídeos para informar aos usuários sobre a natureza artificial dos personagens.

A notificação também pediu que a plataforma avaliasse outros canais e vídeos indicados no relatório de acordo com as próprias regras sobre desinformação em saúde e conteúdos sintéticos.

O Saúde com Ciência acompanha e analisa conteúdos relacionados à desinformação em saúde e reúne ações para identificar informações enganosas, além de produzir e divulgar materiais baseados em evidências científicas.

Além da atenção do usuário, novas tecnologias podem ganhar importância na comprovação da autenticidade dos conteúdos. Matos cita assinaturas criptográficas e credenciais digitais capazes de registrar informações sobre a origem de vídeos, imagens e áudios e as alterações realizadas posteriormente.

Algumas empresas também desenvolvem marcas digitais para identificar materiais produzidos por seus sistemas, mas ainda não existe um padrão único, e modificações feitas posteriormente no arquivo podem dificultar a detecção. “Estamos chegando num momento em que ver não será mais suficiente para acreditar”, afirma Matos.

Para o especialista, a tendência é que a comprovação da origem ganhe mais importância à medida que conteúdos artificiais se tornem mais realistas. No campo da saúde, a mudança amplia a necessidade de confirmar quem está por trás de uma orientação antes de confiar em recomendações capazes de interferir diretamente em tratamentos e decisões médicas.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *