
Hospital Estadual Dr. César Saad Fayad, em Formosa (GO). (Foto: Instagram)
Pelo menos três hospitais do governo de Goiás, geridos por uma organização social de saúde, estão finalizando contratos com empresas que, conforme revelado pelo Metrópoles, tinham vínculos com intermediários acusados pela polícia de integrar a rede de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).
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Agora, esses hospitais passaram a contratar ao menos uma empresa de uma médica investigada pela Justiça. A Fabermed FMC, cuja uma das sócias é a médica Gleycianne França, enfrenta um inquérito no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) junto com o deputado federal e ex-secretário de Saúde Ismael Alexandrino (PSD-GO), por suspeita de simular concorrência para favorecê-lo. A investigação teve início após uma reportagem do Metrópoles.
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A Fabermed FMC obteve contratos com três hospitais do governo de Goiás administrados pelo Instituto de Medicina, Estudos e Desenvolvimento (Imed), totalizando R$ 8,9 milhões mensais. Em um dos contratos, a proposta da empresa de Gleycianne foi R$ 770 mais barata que a da segunda colocada, e quatro outras concorrentes foram desclassificadas.
A Secretaria de Saúde, procurada pela reportagem, alegou não ter responsabilidade pelas contratações das empresas. O Imed não se manifestou. A defesa do deputado e ex-secretário Ismael Alexandrino classificou as suspeitas como “pura leviandade”. Gleycianne negou envolvimento em combinação de preços e qualquer relação com Alexandrino. Empresários substituídos pelo Imed mostraram-se surpresos.
O Imed administra três hospitais e duas policlínicas em quatro cidades de Goiás: Trindade, Formosa, Uruaçu e Posse. Com recursos do Ministério da Saúde, o estado repassou R$ 1,7 bilhão à organização social entre 2020 e 2025.
Desde junho, após o Metrópoles expor as ligações de fornecedores do governo com intermediários do PCC, o Imed começou a encerrar ou notificar que encerraria contratos com as empresas mencionadas.
A organização social mantém relação com o presidenciável Ronaldo Caiado (PSD). Gestores do Imed e empresas investigadas organizaram um evento do Lide em Campinas (SP) para o ex-governador de Goiás falar sobre sua gestão e possível candidatura à Presidência.
O Imed continua na gestão dos hospitais em Goiás enquanto as empresas são substituídas.
Em 2022, o Metrópoles revelou que a empresa Amme Saúde Ltda, ligada ao irmão do ex-secretário de Saúde de Goiás e deputado federal Ismael Alexandrino, tinha contratos de R$ 9 milhões com o governo estadual, através da organização social de saúde Instituto Brasileiro de Gestão Compartilhada (IBGC).
A partir da reportagem, a Polícia Civil abriu um inquérito e realizou uma operação em 2023. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos contra Alexandrino e outras 16 empresas e pessoas, incluindo a médica Gleycianne França. O caso agora tramita na Polícia Federal e no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília.
Os delegados da Polícia Civil Francisco Lipari e Caio Menezes apontaram “diversas irregularidades envolvendo subcontratação de empresa (…) no intuito de beneficiamento de Daniel Alexandrino Gonçalves, irmão do então secretário estadual de Saúde, Ismael Alexandrino”. Empresas como as de Gleycianne foram usadas para “simular concorrência inexistente”, segundo eles. As alegações dos delegados foram registradas pelo juiz que autorizou buscas e apreensões.
Gleycianne da Silva França, representante da empresa Fluir Gestão em Saúde, teria simulado concorrência no processo de contratação. As investigações indicam que ela fez declarações falsas em 11 processos de seleção de fornecedores, simulando uma concorrência inexistente que favoreceu a vitória da empresa Amme Saúde Ltda, escreveu o juiz Alessandro Pacheco, da 2ª Vara de Repressão ao Crime Organizado de Goiânia.
Agora, Gleycianne e o médico Lucas Nogueira Taveira Adorno, sócios da Fabermed FMC Soluções em Saúde, conseguiram contratos para fornecer médicos para os três hospitais de Goiás administrados pelo Imed: Formosa, Uruaçu e Trindade. O custo do serviço será de R$ 8,9 milhões mensais. A diferença entre a proposta em um dos serviços foi de apenas R$ 770 para o segundo colocado, conforme documentos obtidos pelo Metrópoles.
Gleycianne e Nogueira negaram quaisquer irregularidades na contratação com o Imed. “A gente faz um trabalho árduo de precificar isso, que é difícil porque tem vários pacotes, tentando colocar o mais justo possível para os médicos receberem”, disse Nogueira.
Gleycianne acrescentou que os preços parecidos entre os concorrentes decorrem de informações já conhecidas no mercado de saúde. “Você vai saber quanto o cara ganha num plantão”, comentou ela. “E o contrato está no portal da transparência: o médico ganha R$ 1.500 no plantão. Não tem como a gente inventar. Quem tá lá fala para todo mundo. Você faz a conta, aumenta o imposto…”
“É mixaria quando você vê no final. Você ganha menos que os médicos.” – Gleycianne França, médica e empresária
Após semanas de espera da reportagem, Gleycianne e Lucas se recusaram a entregar emails com a proposta da empresa ao Imed para comparar as datas e horários de envio e as respostas do Imed. A Secretaria de Saúde e o instituto também não enviaram as informações após quatro pedidos da reportagem.
Gleycianne negou suspeitas contidas na investigação da Polícia Federal no TRF-1, como fazer propostas de coberturas falsas para a empresa ligada a Alexandrino. “Não tinha isso, não. É falso. Eu nunca nem vi o pessoal da Amme.” Seu advogado, Guilherme di Ferreira, reforçou a negativa em nota.
“Gleycianne nega categoricamente ter participado de qualquer simulação de disputa entre empresas ou de qualquer ajuste destinado a favorecer Ismael Alexandrino, Daniel Alexandrino ou empresas a eles eventualmente relacionadas.” – Guilherme di Ferreira, advogado
O advogado do deputado Ismael Alexandrino, Demóstenes Torres, negou qualquer irregularidade de seu cliente, chamando as afirmações dos policiais de “leviandade”.
“Pura leviandade. Ismael não conhece Gleycianne. Nenhuma contratação de empresa ou médico passava pela Secretaria de Saúde.” – Demóstenes Torres, advogado
O advogado da médica endossou. “Gleycianne não possui e nunca possuiu relacionamento pessoal, profissional ou empresarial com Ismael Alexandrino ou Daniel Alexandrino”, disse di Ferreira, em nota. O atual sócio dela, Lucas Nogueira, que não é investigado pela PF, também não tem contato com o deputado, continuou o advogado. O defensor de Gleycianne no inquérito destacou que ela não foi denunciada pelo Ministério Público.
O Imed não informou quais outras empresas retirou quais contratou para substituí-las.






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