Saúde mental em jovens: impacto do acesso e redução do estigma

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Reflexão solitária: jovem observa o mundo lá fora enquanto lida com desafios emocionais (Foto: Instagram)

Nos anos recentes, a saúde mental tem ganhado destaque no debate público, nas redes sociais e nos serviços de saúde. Ao final de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que mais de 1 bilhão de pessoas no mundo viviam com transtornos mentais. Ao mesmo tempo, há uma percepção crescente de que esses problemas estão mais presentes no cotidiano.

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A questão que surge é se realmente houve um aumento nos casos ou se o tema está sendo mais discutido atualmente. Segundo especialistas, a resposta é complexa e envolve vários fatores, incluindo mudanças nos diagnósticos e transformações sociais recentes.

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Dados epidemiológicos indicam um aumento de alguns transtornos, especialmente entre os jovens. De acordo com o psiquiatra Eduardo Perin, especializado em terapia cognitivo-comportamental (TCC), estudos mostram crescimento em casos de depressão, ansiedade e transtornos alimentares nas últimas décadas.

“Entre jovens de 10 a 24 anos, a prevalência de transtornos mentais cresceu cerca de 6,8% entre 1990 e 2021, com a depressão aumentando aproximadamente 22,5%”, afirma.

Ao mesmo tempo, ele ressalta que esse cenário não pode ser explicado apenas por um aumento da doença. “Parte do crescimento também se deve ao maior reconhecimento, à busca por tratamento, à redução do estigma e à ampliação dos diagnósticos”, explica.

A pandemia da Covid-19 também teve um papel significativo nesse cenário. Segundo Perin, houve um aumento real de transtornos psiquiátricos durante o período, não apenas de sintomas passageiros. “O Global Burden of Disease estimou um aumento de cerca de 28% nos casos de depressão e 26% nos transtornos de ansiedade em 2020”, esclarece.

Além disso, estudos indicam que pessoas que contraíram Covid apresentaram maior risco de desenvolver problemas de saúde mental no ano seguinte, incluindo ansiedade, depressão e distúrbios do sono.

Outro fator que contribui para o aumento dos números é a forma como os transtornos são classificados. O psiquiatra Raphael Boechat, da Universidade de Brasília (UnB), destaca que mudanças nos critérios diagnósticos ampliaram o número de pessoas enquadradas em certas condições.

“Como exemplo, podemos citar o autismo. Antes, a prevalência era muito baixa. Com a definição de espectro autista, esse número aumentou bastante, pois passou a incluir mais pessoas”, afirma.

De acordo com ele, isso não significa necessariamente um aumento real de casos, mas sim uma ampliação das categorias diagnósticas.

A percepção individual e o uso excessivo de testes também influenciam esse cenário. Boechat aponta que há diferença entre sentir-se mal e ter um transtorno mental diagnosticável. “A percepção subjetiva varia muito. Nem todo sofrimento é um quadro clínico, e o diagnóstico precisa ser feito com cuidado”, ressalta.

Ele também destaca o uso crescente de testes e escalas. “Esses instrumentos são úteis, mas não foram criados para fechar diagnósticos. Quando usados isoladamente, podem gerar muitos falsos positivos”, alerta.

As mudanças no estilo de vida, especialmente o uso intensivo de redes sociais, também são fatores a considerar. O aumento do tempo online, combinado com menos interação presencial, pode agravar os sintomas.

“As redes sociais podem intensificar problemas de saúde mental, principalmente quando há exposição excessiva”, diz Boechat.

Entre os grupos mais afetados, os especialistas destacam jovens, mulheres, pessoas com histórico de transtornos e indivíduos em situação de vulnerabilidade social.

Fatores como isolamento, insegurança financeira, desemprego, violência e dificuldades de acesso a tratamento ajudam a explicar esse cenário. No caso dos jovens, soma-se a pressão social, o ambiente digital e episódios de cyberbullying.

Perin enfatiza que o surgimento precoce dos sintomas é preocupante. “Estamos observando quadros aparecendo cada vez mais cedo, o que levanta preocupações sobre o impacto ao longo da vida”, afirma.

Para os especialistas, o aumento dos diagnósticos reflete uma combinação de fatores. Há sinais de crescimento real de alguns transtornos, mas também maior acesso à informação, mudanças nos critérios e redução do estigma.

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