
Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad em pronunciamento sobre debates eleitorais em São Paulo (Foto: Instagram)
Nas últimas eleições, a ausência em debates eleitorais, prática historicamente vista como contrária aos princípios democráticos, tem se tornado uma estratégia comum de campanha. Em 2026, essa tendência se destaca tanto na disputa pelo governo de São Paulo quanto na eleição presidencial, com candidatos de diferentes espectros políticos deixando os eleitores sem informações diretas.
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Entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT), os dois principais candidatos ao governo de São Paulo, quatro debates deveriam ter ocorrido antes do primeiro turno, que acontece neste domingo (4/10). No entanto, apenas dois foram realizados: o primeiro na Band, em 9 de agosto, e o último na TV Globo, em 29 de setembro.
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Durante os 51 dias entre os dois debates, outros dois eventos deveriam ter acontecido: um organizado por um consórcio de veículos de imprensa em 18 de setembro, e outro na Record TV. Em ambas as ocasiões, Tarcísio decidiu não participar, resultando no cancelamento de um debate e na realização de uma sabatina com Haddad.
Esse fenômeno não é novo, mas sua repetição e as motivações por trás dele têm chamado a atenção de cidadãos e especialistas. Em 2014, por exemplo, o então governador Geraldo Alckmin não participou do primeiro debate da campanha por motivos médicos, o que foi aceito de forma tranquila pelos adversários.
A situação contrasta com 2018, quando Jair Bolsonaro, então candidato à Presidência, evitou debates após ser liberado por sua equipe médica, justificando a ausência como uma "estratégia".
AUSÊNCIAS ESTRATÉGICAS
Em 2022, quatro anos depois, Tarcísio e Haddad se enfrentaram novamente na disputa pelo governo de São Paulo. Naquela ocasião, quatro debates foram realizados antes do primeiro turno, com a participação dos dois e dos outros três candidatos mais bem colocados nas pesquisas: Rodrigo Garcia, Vinicius Poit e Elvis Cezar.
No segundo turno, Tarcísio já demonstrava sua estratégia de participação seletiva em debates. Dos cinco encontros previstos, ele participou de apenas dois, transformando dois em sabatinas com Haddad e resultando no cancelamento de um.
Para Marco Antonio Teixeira, professor na Fundação Getúlio Vargas (FGV), a postura dos candidatos pode estar relacionada à posição que ocupam nas eleições. Em 2022, Tarcísio era um novato, visto como o candidato de Bolsonaro. Em 2026, com alta aprovação, ele se apresenta como candidato de si mesmo, com o apoio bolsonarista sendo um bônus.
“Tarcísio está muito à frente. O debate hoje oferece mais risco para quem lidera do que oportunidade”, afirma Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Na eleição presidencial, a situação é ainda mais preocupante: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que juntos concentram quase 90% das intenções de voto, não participaram de nenhum dos três debates realizados até agora. Lula já confirmou que não estará no debate da TV Globo, preferindo o Flow Podcast. Flávio, por outro lado, confirmou presença.
REDES SOCIAIS ATUAM COMO MOEDOR
Prando sugere que as redes sociais podem influenciar essa estratégia, devido ao desgaste que os cortes de debates podem causar.
“Anteriormente, um debate era consumido por meio de jornais, rádio ou televisão. Hoje, ele gera cortes imediatos para as redes sociais, e se algo for prejudicial, o desgaste dura até a votação”, explica o cientista.
NACIONALIZAÇÃO DA POLÍTICA ESTADUAL
Para Prando e Teixeira, a polarização política dos últimos anos também influencia o fenômeno, com candidatos estaduais agindo como representantes de figuras nacionais, como Lula e Flávio Bolsonaro. Isso se refletiu no debate recente, onde os candidatos defenderam seus patronos e atacaram adversários mais do que discutiram propostas.
“Os debates têm servido mais para ataques do que para discutir políticas públicas”, diz Prando.
O fim da “Era Lula” pode, segundo Prando, devolver parte da importância perdida pelos debates.
“Com o fim da Era Lula, sem ele em 2030, talvez os debates ganhem novamente importância”, reflete. “O Lula participa de debates desde 1989. Talvez, sem ele, outros ganhem evidência e o debate passe a fazer sentido.”
O FORMATO DEIXOU DE FAZER SENTIDO?
Desde a Grécia Antiga, o debate é essencial para a democracia. No entanto, especialistas questionam a eficácia do formato atual.
“Talvez o formato atual não faça sentido”, pondera Teixeira. “O importante é o contraponto, que permite à população estabelecer diferenças. Negar-se a participar de um debate não colabora com o processo democrático”, afirma.
“A população está escolhendo mais contra alguém do que a favor de uma candidatura”, conclui o professor.







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