
Lula e Flávio Bolsonaro lado a lado em meio ao clima tenso da campanha presidencial (Foto: Instagram)
Um curioso mantra se repete em todas as eleições presidenciais. Apesar de muito se falar sobre a importância dos programas de governo, eles acabam sendo meros coadjuvantes, muitas vezes figurantes que mal aparecem. Esse cenário facilita a vida de candidatos sem história ou com um passado duvidoso, e sem propostas. Neste ano, o espaço eleitoral foi preenchido por escândalos envolvendo o Banco Master, conflitos entre ministros do Supremo e até mesmo a Santa Padroeira do Brasil. Flávio Bolsonaro foi claramente o principal beneficiário dessa situação.
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Mesmo profundamente envolvido com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, de quem teria recebido R$ 60 milhões supostamente para a cinebiografia de seu pai Jair, o senador tem tirado proveito da confusão que tende a colocar todos no mesmo saco. Sempre que pode, ele menciona denúncias sobre o suposto tráfico de influência do filho do presidente Lula, como se o filho e não o pai fosse o candidato. Flávio culpa Lula pelas falhas dos juízes do Supremo, sem mencionar, claro, as irregularidades de seus próprios aliados togados.
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Com diversos e graves escândalos ocupando a mídia, Flávio conseguiu fazer campanha sem precisar explicar seus desvios – das rachadinhas ao enriquecimento repentino –, nem sua proximidade com milicianos. Com propostas vagas e generalizadas, ele não conseguiu convencer nem mesmo a Faria Lima, que não simpatiza com Lula.
As análises sobre a baixa qualidade desta campanha são quase unânimes. Mas, em maior ou menor grau, sempre foi assim. Desde 1894, na Velha República, quando o voto ainda não era secreto, passando pelo período de Getúlio Vargas a Juscelino Kubitschek. Em 1921, “a crise das cartas falsas”, considerada uma das maiores fake news do século passado, inflamou militares e quase levou Artur Bernardes à derrota.
A escolha por explorar escândalos e temas morais – desde a exposição desumana da filha de Lula, Lurian, por Fernando Collor de Mello, em 1989, até o criativo boato bolsonarista da “mamadeira de piroca” em um “kit gay” que o PT distribuiria nas escolas – demonstra a preferência das campanhas por baixarias e mentiras, mais eficazes para os candidatos do que propostas reais.
Desde o fim da ditadura, com exceção da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, todas as eleições foram marcadas por escândalos, reais ou falsos. Em 1998, FHC enfrentou o Dossiê Cayman, uma invenção sobre uma empresa fantasma com a improvável sociedade do então governador de São Paulo Mario Covas e os ministros José Serra e Sérgio Motta. Uma grande mentira.
Na disputa de 2002, Roseana Sarney (PFL), líder nas pesquisas, foi derrubada quando a Polícia Federal encontrou R$ 1,3 milhão em espécie na empresa de seu marido, Jorge Murad. O caso Lunus – verdadeiro – selou a inimizade do clã Sarney com FHC, que teria autorizado a ação da PF. Na mesma eleição, a primeira vencida por Lula, circulava o boato de que o candidato petista iria estatizar todas as atividades econômicas do país e criar casas multifamiliares. Era a tal teoria do medo, que, após a Carta aos Brasileiros, resultou no vitorioso mote “a esperança vai vencer o medo”.
Quatro anos depois, Lula se reelegeu apesar do Mensalão, tema que não dominou a campanha porque o adversário e hoje vice-presidente de Lula, Geraldo Alckmin (PSB), à época candidato pelo PSDB, caiu em uma armadilha. Era mentira, mas Alckmin literalmente vestiu a carapuça de que privatizaria o Banco do Brasil e a Petrobras, abusando de chapéus com as marcas das estatais. Em 2010, Lula fez sua sucessora, Dilma Rousseff, mas o segundo turno foi inundado por temas morais e religiosos, especialmente sobre o direito ao aborto.
A reeleição de Dilma, em 2014, foi por um triz. Com a trágica morte de Eduardo Campos em um acidente aéreo, Marina Silva assumiu a cabeça da chapa do PSB e rapidamente alcançou números expressivos nas pesquisas, abalando a polarização PT versus PSDB. A campanha de Dilma desconstruiu Marina com vídeos bem produzidos (antes da IA) em que a comida sumiria da mesa caso a ex-ministra de Lula vencesse.
A prisão de Lula pela Lava Jato ampliou a repulsa do eleitor ao petismo. Resultou na vitória de Jair Bolsonaro, impulsionada após a facada sofrida em Juiz de Fora, dominando a reta final. Uma campanha construída em cima do truque da antipolítica e do falso moralismo, com rechaço à ideologia de gênero – muitas mentiras e robôs alimentando redes sociais. Aqui se consolidaram as fake news digitais e uma nova era de polarização.
O Bolsonaro da pandemia, que por negacionismo e descaso deixou morrer quase 700 mil brasileiros, não conseguiu se reeleger. Contribuiu para desacreditar as vacinas e as urnas eletrônicas, consequentemente, o voto. Facilitou a aquisição de armas de fogo, incentivando a cultura da violência. Na época, o país que o derrotou não sabia da trama golpista que ele armava, pela qual foi condenado a mais de 27 anos de prisão. Agora em 2026, o pano de fundo é semelhante – e talvez pior. O país corre o risco de eleger o filho do golpista, com fortes e inegáveis vínculos com a milícia.
Cabe aqui reproduzir a parte final do editorial “Flávio e a sombra dos milicianos”, do jornal O Estado de S. Paulo, porta-voz de uma ala conservadora da sociedade brasileira. “Cada eleitor tem a liberdade assegurada pela Constituição para dar seu voto a qualquer candidato regularmente registrado na Justiça Eleitoral. Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República.”
O Brasil chega hoje à décima eleição presidencial pós-Constituinte de 1988, com o voto livre, direto e secreto, virtudes da democracia roubadas pela ditadura. Muitos podem torcer o nariz para Lula, mas entre o joio e o trigo não dá para tergiversar.
Votem bem.
Mary Zaidan é jornalista







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