Eleições 2026: Desafios da Democracia Brasileira e a Influência do Judiciário

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Eleitor pressionando o botão “confirma” em urna eletrônica (Foto: Instagram)

A primeira eleição no Brasil ocorreu em 1824 para formar a Assembleia Legislativa. Naquele tempo, o país era chamado de “Império do Brazil” (com “z”) e somente homens com mais de 25 anos, ou 21 se casados, e que comprovassem renda podiam votar. O alistamento era feito por juízes e párocos, e as listas de eleitores ficavam nas portas das igrejas católicas. Hoje, mais de 200 anos depois, as eleições gerais na República Federativa do Brasil se tornaram uma das maiores mobilizações cívicas do mundo, com mais de 158,7 milhões de eleitores aptos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Este número é superado apenas pela Índia (977,8 milhões), Indonésia (204,8 milhões) e Estados Unidos (173,8 milhões). Para as eleições de 4 de outubro de 2026, quase dois milhões de mesários foram convocados. Serão disputadas 1.654 vagas: 1 presidente, 27 governadores (26 estaduais e 1 distrital), 54 senadores, 513 deputados federais e 1.059 deputados estaduais e distritais.

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Apesar do grande número de eleitores, desde 2006, observa-se um aumento nas abstenções, ou seja, eleitores que não comparecem para votar. Isso pode ser devido à falta de incentivo ou de representação pelas candidaturas atuais, ou por um descontentamento mais profundo com a política brasileira, marcada por escândalos de corrupção e falta de projetos para o país.

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Independentemente do resultado, o pleito de 2026 é marcado por alguns fatores. Primeiro, a centralidade das identidades religiosas. Embora as listas de eleitores não sejam mais afixadas em paróquias, os temas religiosos continuam centrais nas discussões políticas. A laicidade estatal, um desenvolvimento constitucional importante, permitiu uma sociedade democrática plural no Brasil. As mudanças no panorama religioso, com a diminuição da influência católica e a crescente mobilização política de evangélicos, geraram um impacto significativo no debate público que ainda persiste. Defender a laicidade estatal e entender as dinâmicas religiosas são essenciais para consolidar a democracia no século 21.

Um segundo ponto é a representatividade política feminina. Apesar de as mulheres poderem votar e serem votadas, elas ainda são sub-representadas. Compondo cerca de 51,5% da população e mais de 52% do eleitorado, elas ocupam menos de 20% das cadeiras no Congresso. A Agência Câmara de Notícias informou que o número de candidaturas femininas para a Câmara dos Deputados caiu 24% em 2026 em relação a 2022. Além disso, não há mulheres nas chapas presidenciais de partidos com representação no Congresso, e apenas 34 mulheres disputam os governos estaduais e o Distrito Federal, em um universo de 198 candidatos. A ampliação da representatividade feminina permanece um desafio.

Terceiro, o Poder Judiciário continua ampliando seu protagonismo político-eleitoral. O pleito de 2026 foi marcado por decisões monocráticas em tribunais superiores, impactando diretamente o jogo eleitoral, como proibições de notícias e regras de debates na televisão. Termos como “juristocracia” e “magistocracia” descrevem o deslocamento do poder decisório de instituições eleitas para o Judiciário. Isso, junto com a erosão da credibilidade do Supremo Tribunal Federal, com ministros envolvidos em suspeitas de corrupção, pode energizar discussões sobre reformas no Judiciário.

Por fim, a polarização entre lulistas e bolsonaristas continua definindo as disputas eleitorais. O Brasil mantém o mesmo panorama de discussão dos últimos anos, com alto índice de rejeição dos candidatos líderes nas pesquisas. Em 2026, as eleições foram mais marcadas por “anticampanhas” do que por discussões de ideias e projetos para o futuro. Pesquisa da Quaest destacou preocupações como crime e violência (33%), economia (15%), saúde (14%) e corrupção (14%), mas pouco foi acrescentado ao debate público sobre esses temas.

O Brasil avançou muito desde 1824, mas ainda há muito a ser feito. A democracia envolve o voto, mas também exige virtude cívica e compromisso contínuo dos cidadãos.

*Davi Lago é professor e pesquisador, coordenador de pesquisa no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia (LABÔ). Doutor em Filosofia e Teoria do Direito pela USP.

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