Barbeiro viraliza ao acolher crianças com autismo para cortar o cabelo; veja vídeo

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Com paciência e adaptações, o barbeiro Renan Santana ajuda crianças a se sentirem mais seguras durante o corte de cabelo. (Foto: Instagram)

Antes de cortar o cabelo de algumas crianças, o barbeiro Renan Santana precisa conquistar a confiança delas, um processo que pode levar dias. Para quem se incomoda com o barulho da máquina ou o toque na cabeça, o atendimento requer adaptações, aproximação gradual e respeito aos limites. O resultado aparece quando uma criança que antes recusava o corte passa a se sentir à vontade para voltar. Reportagem de Isabella França, publicada em 25/10/2026 02:00.

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Barbeiro há 20 anos, Renan começou na profissão aos 11 e diz que sempre teve facilidade para atender crianças. Com o passar do tempo, recebeu clientes com maior sensibilidade, e as indicações de familiares fizeram crescer a procura pelo trabalho, que também atende crianças com transtorno do espectro autista (TEA) e que passaram por experiências traumáticas durante cortes de cabelo.

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O atendimento de Renan começa com uma conversa com os responsáveis, para conhecer o histórico, as preferências e as dificuldades da criança. Com base nessas informações, ele planeja uma abordagem individual, usando brincadeiras e recursos para deixar o ambiente mais acolhedor. “O principal é entender a demanda de cada criança”, afirma.

Com cuidado e experiência, o barbeiro ajuda a criança a se acostumar aos poucos com o corte. Ele toca gradualmente a cabeça, umedece os fios com um borrifador e, em alguns casos, faz apenas o som da tesoura perto do ouvido para que o cliente se familiarize.

Muitas vezes, o corte é feito fora do salão, em um corredor ou em outro espaço onde a criança se sinta mais tranquila e distraída. Se a primeira tentativa de aproximação não funcionar, Renan tenta de novo em outro dia.

Um dos atendimentos que ficaram marcados para ele foi o de um menino levado pelo tio. Renan conta que o familiar explicou que o pai, única pessoa que conseguia cortar o cabelo da criança, havia morrido 30 dias antes e que a mãe tinha abandonado o menino.

Com o apoio do tio, o barbeiro conseguiu terminar o corte e gravou o atendimento. No fim, o menino disse: “Obrigado por cortar meu cabelo, tio”.

A gravação alcançou milhares de pessoas e recebeu mensagens e relatos de famílias que passavam por dificuldades parecidas. Renan, que já produzia conteúdo há sete anos, percebeu com mais clareza o tamanho da procura por atendimentos adaptados.

POR QUE O CORTE PODE CAUSAR SOFRIMENTO

A médica Fernanda Wagner Fredo, coordenadora do Programa de Residência Médica de Neurologia Infantil do Centro de Neuropediatria do Hospital de Clínicas da UFPR, explica que o TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento. As características e as necessidades de apoio são diferentes para cada pessoa.

Algumas crianças têm alterações sensoriais que fazem com que certos estímulos sejam muito desconfortáveis. Durante o corte, o barulho da máquina, o contato na cabeça e os fios podem causar sofrimento.

“Aquele toque que, para uma pessoa que não tem disfunção sensorial, é algo que passa despercebido, para essas crianças pode até trazer uma sensação muito semelhante à dor”, explica a médica.

A sensibilidade não se manifesta da mesma maneira em todas as crianças com autismo. Por isso, conhecer as necessidades de cada uma é importante para planejar o atendimento e escolher adaptações que tornem a experiência mais fácil.

Fernanda afirma que a preparação pode começar em casa, com brincadeiras e atividades que familiarizem a criança com os cuidados com o cabelo. A família e o profissional podem combinar estratégias, envolvendo os terapeutas que já acompanham a criança, se houver. Algumas opções são:

  • Preparar com brincadeiras: lavar o cabelo de uma boneca ou assistir ao corte de cabelo dos responsáveis pode ajudar a criança a se familiarizar com a situação.
  • Levar um objeto de apoio: um brinquedo de que ela goste pode trazer segurança durante o atendimento.
  • Explicar cada etapa: contar o que será feito ajuda a criança a acompanhar o procedimento.
  • Adaptar os instrumentos: se o barulho da máquina incomodar, a tesoura pode ser uma alternativa.
  • Trocar o local: dependendo da necessidade, o corte pode ser feito em um tatame ou em casa.

Quando ocorre uma sobrecarga sensorial, a recomendação é parar o que está provocando sofrimento, acolher a criança e aguardar que ela se acalme antes de considerar retomar o procedimento.

“Não adianta ficar insistindo ou conter a criança para cortar ou, de alguma forma, reprimí-la”, orienta Fernanda.

Para a médica, encontrar um profissional com quem a criança consiga criar uma conexão pode fazer diferença para a família. “Quando a família encontra um barbeiro, um profissional que a criança consiga estabelecer vínculo, que ela consiga confiar e que ela se sinta muito segura em fazer o corte de cabelo, é uma conquista imensa”, diz.

APROXIMAÇÃO NO TEMPO DE CADA CRIANÇA

Entre os atendimentos que mais marcaram Renan está o de Miguel, de 12 anos. De acordo com o barbeiro, foram necessárias 15 horas de atendimento ao longo de cinco dias até que o menino aceitasse cortar o cabelo com conforto. Hoje, os encontros levam entre 30 e 40 minutos.

Renan diz que algumas mudanças relatadas pelas famílias vão além da barbearia. Ele recorda uma mãe que não conseguia fazer carinho na cabeça do filho. Depois do atendimento, ela mandou um áudio chorando e contou que havia conseguido lavar, pentear e acariciar o cabelo da criança.

O retorno das famílias também é uma conquista para o profissional. “As crianças que não deixavam passam a permitir, e as que permitem passam a gostar”, relata.

Tags: autismo, crianças, Saúde

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