
A vitória de Lula reacende o debate sobre democracia e os desafios de governar um país profundamente dividido. (Foto: Instagram)
Luiz Inácio Lula da Silva teve um retorno sem precedentes nas eleições presidenciais brasileiras, e sua vitória repercute muito além das fronteiras da maior economia da América Latina. Figura de destaque do progressismo global há décadas, o presidente derrotou o senador Flávio Bolsonaro, herdeiro político do pai, ex-presidente condenado por tentativa de golpe. O resultado renova o otimismo da esquerda e mostra que a ascensão da extrema direita alinhada ao trumpismo não é inevitável.
++ Sistema de IA mostra como pessoas estão criando conteúdo diário sem gravar vídeos
Em nome da democracia e do melhor interesse do país, Flávio Bolsonaro deve admitir a derrota e respeitar as regras e a lei. Também é preciso esclarecer a confusão sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal de estender em duas horas o horário de encerramento das urnas. O Brasil não pode permitir sequer a menor dúvida sobre o processo eleitoral nem, como há quatro anos, um novo ataque às instituições como o cometido por Bolsonaro pai.
++ Bomba! Astro de Hollywood, Joe Manganirllo revela ter amputado membro
A inesperada vitória de Lula, conquistada em uma campanha que uniu a defesa de programas sociais a uma mobilização extraordinária pela democracia, para além dos limites do Partido dos Trabalhadores, traz ensinamentos aos progressistas. Também envia uma mensagem contundente em um cenário internacional dominado por Donald Trump. O presidente dos EUA entrou em conflito com o presidente brasileiro, apoiou candidatos extremistas em todo o continente e resgatou antigas ideias do século XIX segundo as quais os Estados Unidos são um quintal onde a superpotência faz o que quiser. A derrota de Bolsonaro também representa uma derrota de Trump.
Os desafios são enormes. A queda da Bolsa de Valores brasileira na manhã de segunda-feira antecipa as dificuldades que Lula terá pela frente. O déficit fiscal está perto de 10% do PIB, e a dívida supera 80%, patamar elevado para uma economia como a brasileira. Soma-se a isso uma margem de atuação legislativa bastante restrita. Quase metade dos eleitores apoia Flávio Bolsonaro: o movimento criado por seu pai conserva forte presença social e territorial, e seu partido tem mais cadeiras do que qualquer outro desde a Assembleia Constituinte de 1988. Lula terá de governar um país muito maior do que a coalizão que o levou de volta à presidência.
A defesa da democracia precisa se manifestar no respeito às instituições, à independência judicial, à liberdade de imprensa e nas garantias à oposição. A decisão de um ministro do Supremo Tribunal Federal de manter as urnas abertas por duas horas além do previsto exige transparência total. Flávio Bolsonaro, derrotado por mais de quatro milhões de votos, não deve usar isso como justificativa para contestar a vitória do rival e conduzir o país novamente ao conflito pelo poder. Nesse contexto, é positivo que líderes da direita latino-americana, como Keiko Fujimori, do Peru, e José Antonio Kast, do Chile, tenham felicitado o vencedor.
Lula, que completa 81 anos nesta terça-feira, inicia seu quarto e último mandato com uma responsabilidade à altura da vitória. Ele tem uma oportunidade inesperada de fortalecer as instituições e preparar uma transição política que não dependa de sua liderança pessoal. Nesta campanha e nestas eleições, a democracia brasileira mostrou que é capaz de resolver nas urnas uma disputa de enorme intensidade e significado. Seu legado dependerá de a democracia sair dos próximos quatro anos menos vulnerável às tentações autoritárias.
(Transcrito do El País)
Tags:







Leave a Reply