Como a mobilização na Paulista contribuiu para a vitória de Lula, segundo analistas

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Manifestantes ocupam a Avenida Paulista em ato de apoio a Lula, em meio à disputa presidencial. (Foto: Instagram)

São Paulo — Em uma das eleições mais polarizadas da história do Brasil, a Avenida Paulista recebeu uma das maiores manifestações desde as “Diretas Já”: cerca de 2 milhões de brasileiros foram às ruas no último sábado (26/10). Com bandeiras vermelhas, cartazes provocativos e gritos de estudantes, diferentes grupos sociais manifestaram apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República. O ato ocorreu antes de uma reviravolta eleitoral, que garantiu a reeleição de Lula com 4,4 milhões de votos a mais que seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL).

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A vitória do petista chama ainda mais atenção diante do cenário internacional e do avanço da extrema-direita na América Latina. Países como a Colômbia também tiveram eleições muito disputadas entre partidos progressistas e conservadores. O resultado, porém, foi outro: Iván Cepeda, candidato de esquerda, perdeu a eleição presidencial para Abelardo De La Espriella, da direita radical, por cerca de 25o mil votos.

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O Brasil tomou um rumo diferente do observado na conjuntura latino-americana — e também do que apontavam as principais pesquisas eleitorais, que em sua maioria mostravam Flávio à frente —, mesmo em um contexto desfavorável aos progressistas. Diante disso, fica a pergunta: que fator foi decisivo para a vitória de Lula e conteve o avanço da direita radical no continente?

AMÉRICA LATINA E SUA MUDANÇA POLÍTICA

Depois de um período de predominância da esquerda — chamado de “segunda onda rosa”, iniciada em 2018 com a eleição de Andrés Manuel López Obrador no México —, os países latino-americanos vêm passando por uma guinada política, com a ascensão de Javier Milei (Argentina), Abelardo de la Espriella (Colômbia), Keiko Fujimori (Peru) e José Antonio Kast (Chile).

André Araújo, professor de Relações Internacionais da FESPSP (Escola de Sociologia e Política de São Paulo), aponta dois fatores centrais para essa mudança em direção à extrema-direita: a procura por respostas rápidas às desigualdades e a influência de Donald Trump na região.

“Há um descontentamento generalizado com as condições de vida, sobretudo com a economia e a segurança pública. Quando os governos não apresentam resultados no curto prazo — inclusive por causa de tensões internas —, o eleitorado tende a escolher outra orientação político-ideológica a cada ciclo eleitoral. O segundo mandato de Donald Trump tem uma política externa mais atuante na América Latina, inclusive com ações militares. A atuação dos Estados Unidos se soma às questões locais e influencia, por exemplo, o debate sobre segurança pública, ao classificar grupos criminosos como organizações terroristas. As sanções também procuram afetar a política interna, transmitindo a ideia de que o governo atingido está aparentemente isolado internacionalmente”, explica o especialista.

No Brasil, o quadro se assemelha ao dos países vizinhos. Mesmo com a melhora dos indicadores econômicos e do desemprego, a insatisfação popular está ligada principalmente ao poder de compra e à segurança pública, temas centrais do debate político. Donald Trump também demonstra grande interesse pelo Brasil, tanto pela forte relação econômica do país com a China quanto pelos recursos naturais brasileiros, especialmente as terras raras.

Ainda assim, a reeleição de Lula contrariou a tendência vista em parte da região e chamou atenção para os fatores por trás desse resultado, entre eles a mobilização popular.

AVENIDA PAULISTA COMO PALCO IDEOLÓGICO

Entre os elementos associados à reeleição de Lula, a mobilização popular se destacou em São Paulo, onde grandes atos progressistas ocuparam a Avenida Paulista durante o segundo turno. Marcada por disputas políticas e ideológicas, a via sediou grandes manifestações a favor do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e, mais tarde, atos bolsonaristas.

Para Tathiana Chicarino, cientista política e coordenadora do Curso de Graduação em Sociologia e Política da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), aquele período marcou o aumento do protagonismo da extrema-direita nas ruas. Nesse contexto, as manifestações progressistas de 2026 representariam a retomada desses espaços por movimentos de esquerda.

A especialista afirma que essa mobilização foi fundamental para a reeleição de Lula e pode ser entendida a partir da ideia de “contágio”.

“As grandes manifestações foram importantes para a vitória de Lula porque conectaram as redes às ruas. Estar nas ruas também estimula a mobilização nas redes, quando as pessoas publicam e convidam outras. Na sociologia dos movimentos sociais, trabalhamos essa dinâmica com o conceito de contágio: as pessoas são envolvidas pela mobilização, que tem grande força política. O objetivo era muito específico: virar votos. Por isso, o movimento foi essencial para dar energia à militância, atrair novos apoiadores e afastar um pouco os fantasmas e pânicos morais sobre as mobilizações de esquerda, vistas como violentas ou sem famílias”, explica Tathiana.

Além disso, os atos aproximaram jovens e idosos, que participaram das manifestações e dividiram experiências políticas. Para Chicarino, essa aproximação pode ser compreendida por ideias como “afeto do medo” e “pacto geracional”.

“O receio era que o Brasil sucumbisse à extrema-direita na Presidência da República. Esse sentimento mobilizou muito, junto com a comunicação digital, os atos de rua e outros elementos. Também considero importante a questão do pacto geracional: jovens convidando idosos e encontrando pessoas mais velhas nas ruas com alegria. A política recente teve vários momentos em que esses encontros entre gerações ficaram fragilizados. Esse pacto, que integra uma comunidade política democrática, pôde ser observado de alguma forma nessas manifestações.”

Em meio ao avanço da extrema-direita na América Latina e à influência predatória do governo Trumpista, a mobilização popular em São Paulo ganhou destaque na etapa final da disputa presidencial brasileira. A retomada da Avenida Paulista por movimentos progressistas, a conexão entre ruas e redes sociais e o “pacto geracional” mostraram a força da organização popular paulistana, apontada por especialistas como um dos fatores que contribuíram para a reeleição de Lula e para o resultado brasileiro na contramão da tendência regional.

Tags: Avenida Paulista, manifestação, manifestações, política, São Paulo

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