
Obras nos calçadões do centro de São Paulo seguem causando transtornos e prejuízos a comerciantes. (Foto: Instagram)
As obras de requalificação dos calçadões no centro de São Paulo continuam em andamento e seguem gerando insatisfação. Iniciados em julho de 2025 na região do Quadrilátero Histórico, na República, os trabalhos estão em diferentes fases nas ruas contempladas: algumas avançaram, enquanto outras, como a extensa Rua Barão de Itapetininga, praticamente não foram tocadas.
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Atualmente, a situação mais caótica é a da Rua Dom José de Barros, que já havia sido abordada em uma reportagem publicada em setembro do ano passado, pouco menos de três meses depois do início das obras na via.
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Desde então, o cenário mudou um pouco. A matéria anterior tratava do trecho mais perto da Avenida São João, onde os trabalhos já terminaram. Ao longo desses 12 meses, as obras avançaram para a parte próxima à Rua 7 de Abril, que reúne bares, restaurantes, uma galeria, uma academia e outras lojas.
RENDIMENTOS DE COMERCIANTES DESPENCARAM
Entre os comerciantes da região, as opiniões são quase unânimes: o movimento foi bastante prejudicado. A maioria dos lojistas ouvidos relatou queda de 30% a 40% no faturamento. “Na UTI”, avalia Edson, do restaurante Frigideira, que disse temer ter de demitir funcionários caso as obras se prolonguem.
Para os bares, o impacto foi maior. A proprietária de um dos estabelecimentos da rua afirmou que o faturamento caiu 70%, principalmente porque não pode pôr mesas na calçada, que antes das obras costumava ficar cheia de ponta a ponta, especialmente nas noites de sexta-feira e sábado.
Dona de outros dois estabelecimentos na região, ela preferiu não se identificar e contou que precisa transferir boa parte dos ganhos das outras lojas para pagar o aluguel do bar na Dom José de Barros.
A questão das mesas é central para os empresários do setor. Alguns, como Paulo, do bar Esquina da 7, chegaram a se arriscar apesar das interdições. A tentativa de reduzir os prejuízos resultou em uma multa de R$ 5,9 mil.
Outro ponto de concordância é a falta de auxílio. Na única conversa promovida com os comerciantes da região, a Prefeitura de São Paulo não mencionou possíveis ajudas ou benefícios, como a redução do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), por exemplo — talvez porque a previsão inicial para a obra fosse relativamente curta, de 90 dias. Por essa estimativa, os trabalhos na Dom José de Barros deveriam terminar entre novembro e dezembro, prazo que parece questionável diante da situação atual do calçadão.
MESMO EM RUAS PRONTAS, MOVIMENTO AINDA NÃO FOI NORMALIZADO
Para alguns comerciantes, o encerramento das obras não acabou com os transtornos. É o caso dos lojistas da Rua Marconi, onde quase toda a requalificação foi concluída, com exceção do cruzamento com a Rua 7 de Abril.
Cícero, gerente do restaurante Marconi, contou que o movimento não voltou ao normal mesmo depois do fim das obras. “Ficava só um corredor para passagem”, recorda. “Era um canteiro de obras, ninguém vai querer entrar assim.”
José, do restaurante Vitrine, do outro lado da rua, também relatou o problema e lamentou não ter podido colocar mesas do lado de fora. No fim, decidiu abrir o restaurante apenas durante o dia. O faturamento caiu aproximadamente 30% no almoço e 100% à noite.
Indignado, ele contou que as contas ficaram tão apertadas que precisou vender um apartamento para conseguir pagar os compromissos. Também mencionou problemas sanitários provocados pelas obras, como o aparecimento mais frequente de ratos e baratas, associado à abertura de tubulações da Sabesp, além de dias em que o canteiro ficava vazio, sem trabalhadores.
Marcelo, da lanchonete Central, na esquina com a Rua Barão de Itapetininga, disse que o faturamento caiu 40%. “Já voltou uns 20% [desde o fim das obras, há cerca de dois meses]”, calcula.
“Lembro exatamente do dia em que começaram as obras: 1º de julho de 2025”, diz Marcelo. Segundo ele, na única comunicação feita com os comerciantes, a prefeitura havia informado que a conclusão levaria 90 dias. No entanto, as obras na Rua Marconi duraram aproximadamente um ano e dois meses.
EM TRECHOS REFORMADOS, NOVOS PROBLEMAS — E ALGUNS ELOGIOS
Assim como na Rua Marconi, as obras na Rua 7 de Abril estão avançadas, embora também tenham atrasado bastante e levado mais de um ano para serem concluídas. Faltam basicamente o cruzamento já citado entre as duas ruas e o trecho final da via, perto da Rua Gabus Mendes e da Avenida Ipiranga. Mesmo assim, os diversos danos visíveis ao longo da movimentada rua prejudicam seu novo aspecto.
É difícil contar quantas bocas de lobo de concreto estão quebradas ou cobertas por barris, colocados para evitar que pedestres desavisados tropecem. Os danos provavelmente foram provocados por veículos autorizados a circular pelas vias, como viaturas policiais e caminhões de lixo, necessários à rotina de quem vive ou trabalha no Centro.
Durante a visita da reportagem, alguns pisos de acessibilidade para pessoas com deficiência visual, instalados recentemente, já estavam danificados. Nas laterais da Rua Dom José de Barros, também havia vestígios das obras, como tubos e barras de ferro saindo do concreto novo.
Apesar dos problemas, alguns objetivos da Prefeitura com a requalificação foram alcançados. Comerciantes ouvidos nas ruas Marconi e 7 de Abril destacaram principalmente a melhora na aparência das vias e também elogiaram os avanços de acessibilidade. O piso anterior, de pedras portuguesas, tinha vários buracos e desníveis e não contava com recursos como o piso tátil. A drenagem também é problemática em dias de chuva: poças grandes se formam nos antigos calçadões, e as pedras ficam perigosamente escorregadias.
ACHADOS ARQUEOLÓGICOS ATRASARAM TRABALHOS
Na Rua Conselheiro Crispiniano, outra via incluída no projeto de requalificação, as obras foram interrompidas antes mesmo de começar. Poucos dias depois de a parte central do calçadão ser quebrada, o canteiro foi esvaziado por causa de achados arqueológicos: foram redescobertos trilhos do bonde que circulava pelo centro da cidade décadas atrás.
Após a descoberta histórica, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) foi acionado, e os trabalhos foram paralisados para o cumprimento de um protocolo obrigatório de registro e proteção dos itens, conforme informou a Prefeitura.
O procedimento pode ser comparado ao realizado na região do Triângulo Histórico, onde a requalificação do calçadão está praticamente concluída e incluiu a criação de uma espécie de museu a céu aberto com os Trilhos da Light, nome pelo qual o sítio arqueológico ficou conhecido.
No caso da Rua Conselheiro Crispiniano, a prefeitura optou por cobrir provisoriamente o canteiro com um material arenoso e acinzentado. Em dias mais secos, a poeira provoca reclamações. Quando chove, o principal incômodo é a lama que se espalha nos calçados dos pedestres.
Embora essa “solução” tenha sido adotada em pouco tempo, o período de interdição foi suficiente para causar prejuízos aos comerciantes da Conselheiro Crispiniano. Mais uma vez, lojistas relataram perdas de 20% a 30% no faturamento.
PREFEITURA DÁ NOVO PRAZO PARA PRIMEIRO SEMESTRE DE 2027
A Prefeitura de São Paulo foi questionada sobre os pontos abordados nesta matéria. Na resposta, a administração municipal começou destacando os objetivos da requalificação, especialmente ampliar a acessibilidade e a segurança dos pedestres, com atenção a pessoas com deficiência, mobilidade reduzida e idosos. Também citou melhorias na drenagem, na organização das redes subterrâneas, no paisagismo e na instalação de mobiliário urbano.
Sobre os danos apontados, a prefeitura afirmou que “eventuais ajustes serão feitos pelas empresas contratadas até a conclusão das obras”. A resposta, porém, não explica alguns problemas que voltaram a aparecer em trechos já concluídos e que levantam dúvidas sobre a qualidade dos materiais.
Quanto aos prazos anunciados anteriormente, a administração de Ricardo Nunes (MDB) declarou que “os cronogramas foram atualizados em razão da necessidade de medidas adicionais para garantir a segurança dos trabalhadores e da população, além de outros fatores”.
Por fim, a prefeitura informou que o investimento total na requalificação do Triângulo e do Quadrilátero Históricos é de R$ 126,3 milhões.
Tags: São Paulo, obras, comerciantes, calçadões, Prefeitura de São Paulo







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