Bolsonaro formou herdeiros nas redes, Lula não; Janones quer mudar esse cenário

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André Janones defende que Lula use sua influência para ampliar a audiência de aliados nas redes sociais. (Foto: Instagram)

André Janones ajudou Lula a virar a eleição com um canal de WhatsApp que reúne 10 milhões de pessoas e agora quer conduzir o presidente a uma nova etapa. Para o deputado, Lula precisa aproveitar o quarto mandato para apoiar mais os aliados e ajudá-los a formar sua própria audiência, por meio de vídeos juntos, lives e collabs. Sem essa iniciativa, a mobilização perde força depois da vitória e o campo progressista continua dependente de um único nome, que não estará nas urnas na próxima eleição.

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Foi isso que Jair Bolsonaro fez desde 2017. No bolsonarismo, quem já tem audiência a compartilha, quem recebe cresce e depois apadrinha o próximo. Lula sempre se comunicou sozinho, enquanto os aliados que hoje têm força nas redes chegaram lá praticamente por conta própria.

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O ranking dos cem políticos mais influentes do Instagram no primeiro semestre, elaborado pela Zeeng a partir de 546 mil publicações de 3,1 mil perfis, revela a diferença. A direita e a centro-direita ocupam 76 posições, contra 16 da esquerda e da centro-esquerda. Desconsiderando quem cresceu sem padrinho, como Cleitinho e Pablo Marçal de um lado e Erika Hilton e Janones do outro, são 74 perfis à direita e 13 à esquerda. Em média de engajamento por publicação, a rede de aliados da direita é cerca de 15 vezes maior, e apenas Nikolas Ferreira tem quase o dobro do engajamento de toda a esquerda.

Entre os vinte primeiros colocados, há três progressistas, e nenhum deles foi lançado por Lula. Erika Hilton, em quarto lugar, ganhou projeção ao enfrentar a direita nas redes e passou de 256 mil para 1,6 milhão de votos, um recorde para uma mulher na Câmara. Janones ficou conhecido no Facebook como porta-voz da greve dos caminhoneiros de 2018, antes de se aproximar do PT. Lula ocupa a 11ª posição, e seu aliado mais bem colocado é o deputado estadual paranaense Renato Freitas, em 25º, com metade do engajamento do presidente. Padilha aparece em 47º, Boulos em 49º e Haddad em 71º. Oito bolsonaristas têm mais engajamento que o presidente da República, e Jair Bolsonaro ficou fora da lista porque passou meses sem publicar, respeitando a sentença que cumpre.

A estrutura da direita começou em 2017, na pré-campanha que levou Bolsonaro ao Planalto, e ganhou dimensão durante o governo, quando as lives semanais serviam de vitrine para auxiliares. Até fevereiro de 2021, Tarcísio de Freitas apareceu 11 vezes ao lado do presidente, e Jorge Seif, 21; uma dissertação da PUCRS registra que Nikolas e Damares Alves também foram apresentados nesse espaço. Tarcísio acaba de ser reeleito governador de São Paulo, e Nikolas é hoje o político mais influente do Brasil no Instagram. Depois disso, a rede passou a se multiplicar por conta própria. O vídeo de Nikolas sobre o Pix, que superou 300 milhões de visualizações, foi coordenado pelo marqueteiro do ex-presidente, e Nikolas mais tarde apadrinhou o vereador paulistano Lucas Pavanato. No dia 4, os dois se tornaram os deputados federais mais votados da história, com 3,1 milhões e 3 milhões de votos.

Lula tomou a direção contrária. Sem afinidade com o celular, deixou as redes nas mãos da equipe e não aproveitou sua própria audiência para lançar outros nomes. Criado em 2023 seguindo o modelo das lives do antecessor, o Conversa com o Presidente teve 117,5 mil espectadores ao vivo em 20 edições. Uma única live de Bolsonaro, por sua vez, chegava perto de 1 milhão de visualizações, e o programa saiu do ar em dezembro daquele ano. Criado por Janones em abril, o Exército do Lula passou meses fora da estratégia oficial.

O preço dessa escolha apareceu no primeiro turno. Na disputa presidencial, Lula tem quarenta anos de trajetória e um eleitorado mais velho, mais pobre e menos exposto ao Instagram político. Já nas eleições para deputado, senador e governador, quem conta com uma rede própria consegue votos em todo o estado. O PL elegeu 121 deputados federais, a maior bancada desde 1988, 19 dos 54 senadores e cinco governadores no primeiro turno. O PT ficou com 70 deputados e, além de Erika Hilton e Sâmia Bomfim, a esquerda quase não teve puxadores de voto. As redes anteciparam o Congresso, mas não acertaram o Planalto porque, sem Lula na cédula, ninguém ocupa o lugar dele.

Atrás de Flávio Bolsonaro por 2,2 milhões de votos, Lula chamou Janones. Em dois dias, o canal passou de 50 mil para quase 2 milhões de inscritos e, em 23 de outubro, alcançou 10 milhões, tornando-se o segundo maior do WhatsApp no país. Cada integrante deveria levar mais uma pessoa às urnas, de preferência um idoso que não havia votado no primeiro turno. A militância também recebeu orientação para pesquisar no Google os temas da campanha, fazendo com que subissem nas tendências e chegassem à pauta da imprensa, e para ir às ruas mostrando o rosto no Instagram. A abstenção caiu sobretudo no Nordeste e nas cidades mais pobres, 3,7 milhões de votos brancos e nulos migraram para Lula, que venceu com 64,2 milhões, a maior votação da história.

A rede vem antes; o discurso, depois. Para essa segunda etapa, Janones estabelece duas regras. A primeira é não responder a publicações de adversários, pois o algoritmo considera qualquer comentário um sinal de relevância e amplia o alcance do conteúdo. “A orientação é a mesma, não defendam”, repetiu na reta final. A segunda é adotar uma única linguagem, uma vantagem da direita que o próprio Boulos reconheceu ao lançar a rede Porta-Vozes do Lula. “Eles têm uma orientação de unidade narrativa”, disse o ministro.

Na primeira semana depois da vitória, a esquerda desrespeitou as duas regras. Com a bolsa acionando o circuit breaker no dia 26, o governador do Piauí, Rafael Fonteles, afirmou que a responsabilidade fiscal de Lula logo tranquilizaria o mercado. No dia seguinte, o ministro José Guimarães declarou que um pacote de ajuste “não foi discutido, e nem está sendo discutido”. Bruno Moretti, do Planejamento, já havia dito que o governo fez um ajuste de quase 2% do PIB, e Haddad reconheceu que havia quem fosse contra arrumar as contas dentro do PT. No dia em que completou 81 anos, Lula defendeu a pacificação e, na mesma fala, chamou de vergonhosa a fuga de Flávio, embora Janones tenha dito durante a campanha que expor escândalos do adversário não muda votos.

A oportunidade está do outro lado. Na madrugada do dia 26, horas antes de Alexandre de Moraes ordenar o recolhimento de seus passaportes, Flávio deixou o país acompanhado da mulher e das filhas. Rogério Marinho, coordenador da campanha, garantiu que ele permanecia no Brasil, enquanto Michelle Bolsonaro confirmava a aliados que ele havia saído. O deputado Mauricio Marcon comparou a viagem ao exílio de María Corina Machado, e aliados moderados começaram a dizer que o barco estava sem capitão. Com Jair preso e Eduardo e Flávio nos Estados Unidos, a direita ficou sem o candidato e sem o discurso ao mesmo tempo, algo que não ocorria desde 2018.

Janones afirma que Lula não precisa aprender a usar as redes, mas continuar como o maior líder popular do país e ceder espaço a quem sabe utilizá-las. Isso envolve gravar vídeos e fazer lives com o maior número possível de aliados, de Ana Elisa e Pedro Rousseff a Guilherme Cortez, dando a eles a vitrine que Bolsonaro ofereceu a Tarcísio, Seif e Nikolas. Um canal que cresce rapidamente em três semanas pode se desorganizar e se perder com facilidade se ninguém o mantiver, mas, estruturado em torno de aliados com audiência própria, leva a comunicação da esquerda a cada cidade sem depender do presidente. Lula tem quatro anos e um adversário desorganizado. Se repetir o terceiro mandato, a esquerda chegará a 2030 sem rede e sem ninguém para colocar na cédula.

Tags: André Janones, Lula, Jair Bolsonaro, redes sociais, política brasileira

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