
Henrique Zamith interpreta Caetano Veloso no musical “Gil: Andar com Fé” e define o papel como o maior trabalho de sua carreira até agora. (Foto: Instagram)
O ator Henrique Zamith recebeu com orgulho uma importante missão na carreira: interpretar o cantor e compositor Caetano Veloso, de 84 anos, no musical Gil: Andar com Fé, que retrata a vida e a obra de Gilberto Gil. Em conversa com a coluna Fábia Oliveira, o artista comentou os desafios do espetáculo, que já está em cartaz em São Paulo.
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ESPETÁCULO
Em cartaz até o dia 29 de novembro no Teatro Santander, na capital paulista, o espetáculo tem direção de Miguel Falabella e percorre momentos como a Tropicália e a amizade de Gil com outros artistas, entre eles, claro, Caetano Veloso.
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Ao falar sobre Caetano, Henrique Zamith fez muitos elogios: “É uma pessoa extremamente sensível. Eu não imaginava o quanto ele era poético, filosófico e, ao mesmo tempo, extremamente inteligente social e politicamente”, afirmou.
O ator também destacou que esse é um dos projetos mais marcantes de sua vida. “Eu diria que é o maior trabalho do qual tive a oportunidade de participar até hoje”, resumiu.
Henrique Zamith começou a estudar teatro aos 9 anos, formou-se em Artes Cênicas e expandiu sua atuação para o cinema, a música e a dublagem. No audiovisual, participou de diversos curtas e fez parte do longa Silvio Santos Vem Aí, interpretando Dimitrius.
Para interpretar Caetano Veloso no palco, o ator passou por uma preparação intensa. “Meu primeiro trabalho foi entender como Caetano pensa. Queria compreender seus posicionamentos, suas paixões, seus medos, suas inseguranças e também suas esperanças”, contou. Segundo Henrique, a proposta não é imitar o artista, mas prestar uma homenagem a ele.
CONFIRA A ENTREVISTA COMPLETA:
Como foi o caminho até conquistar esse papel? Quantos testes e seletivas foram realizados?
Tudo começou com o envio de um vídeo em que eu cantava uma música de Gilberto Gil. A partir desse material, a banca escolheria alguns atores para avançar às etapas presenciais. Na primeira, apresentei uma cena e uma música. Na segunda, fizemos testes de canto coral e coreografia. A terceira etapa foi mais restrita: trabalhamos com cenas do próprio Caetano Veloso ao lado de Gil e também cantamos London London para a banca.
Foi um processo longo e muito intenso, mas, de alguma maneira, passou voando. Cerca de um mês depois da terceira fase, finalmente recebi a confirmação de que tinha sido aprovado. Fiquei muito feliz, porque é um projeto com o qual me identifico bastante.
Você disse que tentou “entender como Caetano pensa”. O que descobriu sobre ele durante esse processo?
Aprendi que Caetano é uma pessoa extremamente sensível. Não imaginava o quanto ele era poético, filosófico e, ao mesmo tempo, muito inteligente social e politicamente. A leitura do livro dele foi complexa nesse sentido: você compreende suas posições políticas e sociais, mas percebe que há todo um universo por trás delas, com referências da filosofia, da sociologia, pensadores e ideias. Existe uma grande rede de pensamentos por trás do que ele pensa e do que o torna Caetano.
Além de toda essa dimensão muito politizada, ele não esconde o que sente. Gil, por exemplo, tem uma capacidade muito bonita de encontrar uma perspectiva positiva mesmo diante de situações ruins. Caetano me parece diferente. Se está triste, sente a tristeza; se está animado, sente o ânimo. Ele não tenta necessariamente transformar aquilo em outra coisa. E há nele certa impulsividade quando algo é muito emocional.
Ao mesmo tempo, ele é extremamente racional. Tenta compreender racionalmente aquilo que acontece emocionalmente com ele. Busca entender quase com exatidão por que está sentindo aquilo e por que está passando por determinado momento. Essa espécie de conexão entre emoção e razão me ajudou muito a entender como ele se comporta diante das situações da vida: a ditadura, os términos, os acontecimentos importantes, as perdas e as transformações.
Você tem uma longa trajetória nas artes. O que esse papel representa para sua vida profissional?
Com certeza, esse papel é um marco muito importante na minha carreira. Principalmente pela responsabilidade de interpretar Caetano Veloso no palco, em um projeto de dimensão tão grande. Eu diria que é o maior trabalho do qual tive a oportunidade de participar até hoje.
É uma produção de alto investimento, com profissionais que admiro muito e que são referências para mim, o que também lhe dá um alcance enorme. É muito especial saber que pessoas e artistas que admiro vão assistir ao meu trabalho e acompanhar, de alguma forma, essa trajetória.
Ao mesmo tempo, sinto que esse papel representa uma virada. Espero que esse marco profissional abra portas para trabalhos cada vez maiores e mais desafiadores. Mas, acima de tudo, quero que seja uma oportunidade de mostrar meu trabalho, minha capacidade como ator e cantor e a maneira como vejo a arte.
Como foi a preparação técnica para esse papel? Você fez aulas de canto, por exemplo?
Venho estudando canto lírico e faço aulas dessa modalidade há 3 anos. Mas, quando fui aprovado, tinha dado uma pausa nas aulas. Procurei encontrar o timbre, a personalidade e a maneira de Caetano cantar de forma mais independente. Passei horas e horas ouvindo as músicas dele, até meu timbre ficar o mais próximo possível do seu.
Na parte corporal, tive muita sorte de contar com o apoio técnico e cênico de Erica Montanheiro, nossa preparadora, e Leilane Teles, nossa coreógrafa. Com vários exercícios cênicos, fomos buscando o corpo e os gestos mais adequados de Caetano, sem cair na mímese ou na caricatura.
Minha maior dificuldade técnica foi o sotaque baiano. Não queria que parecesse artificial nem que incomodasse quem ouvisse. Por isso, trabalhei intensamente com alguns colegas baianos de cena, como Calu Manhães, que interpreta Maria Bethânia. Eles me ajudaram muito a chegar ao sotaque baiano mais natural possível.
Qual é a importância de levar ao palco figuras tão importantes da cultura brasileira?
Sempre pensei que, com o fim da ditadura militar no Brasil, a sociedade deixaria cada vez mais para trás o pensamento reacionário, o conservadorismo absoluto e os ideais autoritários. Hoje, porém, percebemos que esse tipo de pensamento continua muito presente ao nosso redor.
Por isso, acredito que levar essas figuras ao palco também é uma responsabilidade nossa como artistas. É uma maneira de reafirmar uma luta que, aparentemente, nunca termina. Caetano e Gil enfrentaram um período muito duro da história do Brasil por meio da arte, da música e do amor. Suas canções tinham muita força para ajudar as pessoas a resistir ao que acontecia e a dizer “não” ao que precisava ser combatido.
Também considero muito importante que uma geração mais nova conheça essas histórias. Não apenas para descobrir Caetano e Gil como grandes artistas, mas para compreender o que eles viveram e a força que a arte pode ter em momentos como aquele.
Como você vê a polêmica sobre influencers ocuparem o espaço de atores?
Acho muito triste que isso esteja acontecendo, porque acaba desconsiderando uma luta e uma enorme resiliência de todos nós, atores. Existe a ideia de que atuar é simplesmente ligar a câmera, viver aquela situação, dizer o texto e pronto. Mas é muito mais complexo.
Quem escolhe a atuação como profissão dedica horas, semanas, meses e anos de estudo para chegar o mais perto possível da realidade. É um trabalho muito sensível e delicado. Não basta simplesmente “ir lá e fazer”. Há técnica, estudo e uma enorme complexidade por trás disso.
Mas também acho importante não atribuir toda a culpa a eles. Para mim, o problema maior está nas produtoras e empresas que fazem essas escolhas. Muitas vezes, incluir um influencer em determinado projeto já resolve parte do marketing, porque ele traz público e ajuda a vender a produção.
Só que há um preço. Podemos até conquistar mais audiência, mas existe o risco de prejudicar o resultado artístico. Quando isso acontece, a crítica acaba recaindo sobre o influencer, embora ele também esteja sendo colocado em uma posição para a qual talvez não tenha a preparação necessária. Espero muito que as produções entendam que a arte não pode ser pensada apenas como uma ferramenta para vender um projeto.
Tags: Ator, Caetano Veloso, cantor, musical







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