
Tia Chica navegando pelo Xingu entre ilhas e mata exuberante. (Foto: Instagram)
Chama-se — não se perca pelo nome completo — Dona Francisquinha Castelo Branco da Costa Gomes. Mas em Altamira, e por todo o Xingu, é conhecida como Tia Chica.
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Ela não reside exatamente na cidade, embora dialogue com ela em seus escritos: — “Onde estão teus pescadores chegando ao entardecer, Altamira? E teus caçadores? Onde estás, Altamira de antigamente?”
Adentra-se pelo Amazonas, atravessa-se a foz onde o Xingu despeja suas águas cristalinas e esverdeadas, nascidas a dois mil quilômetros de distância, na Serra do Roncador, no planalto de Mato Grosso. Sobem-se onze noites e vinte e sete cachoeiras: ilhas repousam como garças verdes ao amanhecer, seguidas de rochas e quedas vertiginosas. Entra-se no Iriri. Já estamos a mais de 350 quilômetros da foz do Xingu. Após o Iriri, atravessa-se o riozinho do Anfrísio, que leva o nome do marido, o forte sergipano Anfrísio da Costa Gomes, que também teve filho com uma índia. Encontram-se, então, a casa cearense, o sítio, as fruteiras, o seringal, a mata.
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À medida que o Boeing avança entre Teresina e Brasília, Tia Chica nos conta, a José Sarney e a mim, que a vemos pela primeira vez, a história de sua vida. E é essa saga brasileira que tentarei reproduzir, sem utilizar suas próprias palavras — o que é uma pena, dada a força do pitoresco que a cada instante emerge, em imagem e conceito inesperados, do que ela diz.
Ela tem 24 filhos, 72 netos, 67 anos. E sente saudade do segundo marido, que morreu lentamente, consumido pela tristeza: uma cirurgia de catarata o deixou quase cego, nunca se conformou, foi se acabando devagar, homem duro mas desesperado.
Casou-se pela primeira vez por imposição dos parentes, combinação dos pais, com Francisco Meireles Acioli. Dos Acioli, do Ceará. Mas não se casou triste, ao contrário, enfeitada pela ideia, curiosa para saber como era, vaidosa por casar cedo, antes das amigas mais velhas.
Aos 19 anos ficou viúva. Esperou seis meses e um dia, para evitar murmúrios do povo. Não aguentava esperar mais. Casou-se, então, com o forte Anfrísio, poderoso e severo, lutador e carinhoso.
Se Anfrísio não tivesse morrido, ainda hoje estariam se entendendo em conversas de amor.
Ela diz às filhas, repete a cada uma: — “Marido é hóspede de luxo. A melhor coisa do mundo é marido. Trate bem dele e não conte besteira de empregada e de casa.”
O seu não era tão fiel assim. Às vezes sabia de filhos dele entre os índios. Ia ver. Dois, pelo menos, identificou. Apanhou-os. Anfrísio chegou em casa, que história é essa? — “Olha para a cara, vê se é redonda! É redonda? Tu és meu. Teu corpo é meu. O que de ti sair me pertence.” Criou os meninos.
Criou como os seus, junto com os seus. Ao todo entre todos morreram uns, outros sobraram. Dos que sobraram um é coronel, outro capitão, tem médico, tem filha bem casada, mais de uma.
Certa vez viajava de avião. Lá embaixo, um filho aviador dançava num teco-teco. Sumiu. Chamaram-na na cabine. Preparou-se para a má notícia, na certa era a morte, agarrou o terço. Nada de nada. Apenas o moço falando pelo rádio com os outros: — “Toma cuidado com essa velha aí em cima. Essa velha é de ouro mas é também de morte. Se vocês se comportarem mal ela capa vocês.”
Chegou ao Xingu em 1926. Estudava num colégio em Fortaleza, a mãe soube que o marido, seringalista, tinha arranjado cabocla, veio para mostrar que ele tinha mulher.
Passou muitas noites cercada de água. Ou de índio. Ou, simplesmente, de mosquito. Índio amansou, água e mosquito não desapareceram.
Hoje tem campo de pouso e avião, mas não tem mais estrada que se meta o pé até Belém.
Hoje possui filho coronel, aviador, capitão, genro bem, mas de vez em quando um deles ainda lhe mete a mão no bolso: “-Me dá um dinheiro aí, velha.” Dá.
Teve dias de pobre e de rica. O pior foi quando, sem aviso, acabou-se o monopólio da borracha. Aportaram em Belém. Toda aquela seringa não valia mais nada. Um ano perdido. Recomeçaram.
Uma vez o sertanista Chico Meireles (não confundir com o xará, seu primeiro marido) chegou avisando que vinha uma tribo nova. Tudo nu. Anfrísio, severo, proibiu as mulheres de aparecer. Não queria que ninguém espiasse. Ia esperar na estrada. Diz que para manter a ordem. Só para isso. Foi. E ela era mulher de ficar trancada em casa? Quando abriu a janela, Anfrísio andava por lá beliscando a bunda das índias.
Índia ajudava com os filhos. No começo ainda havia índio bravo. Muitos. Depois ficaram amigos. Quando tinha hemorragia, índia ia no mato buscar remédio. Casca de maribondo de chapéu torrado ou castanhas de mutum fava.
Nunca teve medo de índio. Ou de água. Ou de mosquito. Medo teve de onça. Estava num rancho, de noite, duas onças no cio rondaram. Cio de onça é coisa linda, mas de dar medo, aqueles grandes bichos elásticos desarvorados de fome e sexo, de fome de sexo. Cio de mulher é outra coisa: é cio de beija-flor.
Coisa melhor do mundo é marido. E o seu era forte, homem poderoso, homem de mando, homem considerado. Anfrísio sergipano que deixou rastro fundo.
Vai morrer mas sente saudades da vida. Tem muita saudade da vida. Viveu polegada por polegada.
Ouço Tia Chica, mal gravo as imagens e os conceitos que se sucedem, atento ao fio dessa existência que se desenha, não os anos, mas as madrugadas, e as manhãs, e as tardes, e as noites, e as antemanhãs. E de repente um pensamento se esboça e confirma em mim:
— O que dá ao Brasil este sabor imortal e diverso é gente como Dona Francisca Castelo Branco da Costa Gomes. Enquanto houver mulheres como ela, as canoas não subirão inutilmente as cachoeiras do Xingu. A viola de arame cantará na noite de luar cantigas de amor perene. E a vida valerá a pena de ser vivida, polegada por polegada.
Tia Chica, não morra logo não. Espere antes que eu vá ao Xingu pescar tucunaré na sua canoa. E conversaremos sobre outro tempo, em que os homens abriam na mata a vereda inaugural, precursora pioneira da presença da pátria comum.
Odylo Costa, filho







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