Clientes da Naskar Reagem à Prisão de Sócios: “Sigam o Dinheiro”

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Investidores da Naskar exigem recuperação de R$900 milhões após prisões e bloqueio de bens (Foto: Instagram)

Após a prisão de três ex-sócios da Naskar Gestão de Ativos Ltda e a autorização para o bloqueio de bens relacionados à fintech, clientes que investiram na empresa esperam ser ressarcidos o mais rápido possível.

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Um comunicado enviado ao Metrópoles por um grupo de mais de 100 vítimas destacou que as prisões são importantes. “Mas cadeia sem dinheiro de volta para as vítimas é notícia, não é justiça. Prender três pessoas não faz o dinheiro voar de volta para a nossa mão. Não somos ingênuos”, afirmou o documento.

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As vítimas desejam que as autoridades “sigam esse dinheiro até o fim”.

“Se for preciso investigar 500 pessoas, uma por uma, para descobrir onde ele foi parar, é isso que terá que ser feito. Não dá para escolher três nomes e fingir que tudo começou e terminou neles”, avaliou o texto.

O grupo também quer saber quem recebeu, quem escondeu, quem lucrou e quem ajudou a convencer as pessoas a investir cada vez mais na Naskar. “Diziam que o risco era baixíssimo e falavam em CVM e FGC. Depois, muitos bloquearam os clientes e desapareceram”, desabafou.

A nota ainda mencionou Douglas Silva de Oliveira, 26 anos, que comprou a fintech após o escândalo. “Ele vai continuar solto e debochando em Dubai?”, questionou. “Não queremos apenas ver gente algemada, mas o dinheiro localizado, bloqueado e devolvido, porque esse dinheiro não é deles. Nunca foi. É nosso”, afirmou.

O comunicado termina com uma pergunta às autoridades: “Depois de tanta demora, vocês não nos devem uma investigação até o fim, respostas concretas e, acima de tudo, a localização do nosso dinheiro?”

“MAU-CARÁTER”
Outro cliente da Naskar, que preferiu não se identificar, chamou os ex-sócios de “mau-caráter”. “Desde que os donos da Naskar se omitiram e se esconderam, a sensação é nítida da falta de caráter deles”, pontuou. Perguntado sobre a perspectiva de receber o dinheiro de volta, ele disse que “é mínima”.

“Uma pessoa sem caráter não paga o que deve, é simples assim. A confiança, hoje, é que a Justiça faça o bloqueio devido do patrimônio dos sócios e que a gente consiga reaver nosso recurso ou pelo menos parte dele, o que já seria um alívio”, comentou.

O advogado Murilo Bueno, que representa alguns clientes da Naskar que investiram cerca de R$ 2 milhões na fintech investigada, disse que entrou com uma ação requerendo a rescisão contratual, a restituição integral dos valores investidos (acrescidos dos juros prometidos) e a responsabilização de todos os envolvidos na estrutura operacional.

Segundo o defensor, foram solicitadas medidas cautelares de arresto para preservação do patrimônio dos envolvidos. “Contudo, em análise preliminar, a Justiça indeferiu o pedido liminar por entender que a medida é excepcional e exige a prévia citação dos réus e a garantia do contraditório”, comentou.

Porém, no entendimento do advogado, a urgência se justifica. “Sobretudo após as recentes prisões dos ex-sócios e o bloqueio de mais de R$ 75 milhões nas contas do sócio mais recente”, avaliou.

“O processo segue seu curso regular e o escritório já interpôs os recursos cabíveis para reverter a decisão. Permanecemos confiantes na Justiça e firmes na adoção de todas as medidas necessárias para reaver os valores e responsabilizar os autores desse golpe”, ressaltou Murillo.

Entenda o caso

  • A Naskar Gestão de Ativos é uma fintech com 13 anos de atuação. A empresa operava captando recursos de clientes com promessa de retorno de 2% ao mês, valor muito acima do operado pelo mercado;
  • Por exemplo: se uma pessoa investisse R$ 1 milhão, receberia R$ 20 mil mensais pagos pela fintech, enquanto a empresa se comprometeria a cuidar do patrimônio investido;
  • Apesar de o valor prometido ser bem maior do que o praticado por bancos tradicionais, a Naskar atuou durante os 13 anos de existência sem que clientes tivessem problemas;
  • Até que o pagamento mensal de rendimentos, que era previsto para 4 de maio, não foi realizado;
  • Os clientes, então, buscaram contato com os sócios para entender o que estava ocorrendo, mas nenhum respondeu;
  • Sem contato com os então sócios da Naskar, os investidores logo foram ao aplicativo da instituição para verificar se o patrimônio investido ainda estava ali. O app, porém, deixou de funcionar em 6 de maio e ainda não voltou ao ar;
  • A Naskar chegou a ter sede no DF e, mais recentemente, tinha endereço fixo em São Paulo (SP). Contudo, mudou-se desse local fixo sem informar os clientes, conforme noticiou o Metrópoles em 9 de maio;
  • Cinco dias depois, a Naskar anunciou que uma empresa norte-americana chamada Azara Capital teria comprado por R$ 1,2 bilhão a fintech brasileira;
  • A Azara é que supostamente ficaria responsável por ressarcir os clientes, movimento que começaria a ocorrer a partir de 18 de maio, segundo ambas as empresas. Nada disso ocorreu;
  • A empresa, no entanto, apresentou várias inconsistências: o site não informa nomes de presidente, diretores ou de qualquer pessoa; o endereço físico informado é de Miami, na Flórida, mas o Google Maps aponta a localização informada para o Ocean Bank, banco comercial independente; o perfil @azara.capital no Instagram foi criado há apenas três meses; entre outras questões;
  • Em maio, Douglas Silva de Oliveira publicou um vídeo no qual se comprometeu a pagar os valores devidos;
  • Até o momento, porém, os clientes da Naskar não obtiveram retornos concretos sobre quando (e se) receberão os valores de volta.

PRISÃO E BLOQUEIO
Rogério Vieira, José Maurício Volpato e Marcelo Liranco Arantes foram presos nessa quarta-feira (22/7) em São Paulo, durante uma operação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), conforme revelou a coluna de Mirelle Pinheiro. O trio não resistiu durante o momento da abordagem e optou por ficar em silêncio durante o depoimento.

Além das prisões, a Justiça autorizou o bloqueio de contas ligadas à Naskar. Veja quem e quais empresas tiveram as contas bloqueadas:

  • Jose Maurício Volpato (Maurício Jahu): ex-sócio da Naskar, é o rosto de maior projeção pública do grupo. Maurício é ex-jogador profissional de vôlei da Seleção Brasileira e atuou por 20 anos na imprensa como apresentador da ESPN Brasil;
  • Rogério Vieira: com perfil mais discreto, Rogério aparece em registros empresariais da Naskar e de outras empresas ligadas ao setor de soluções financeiras e participações;
  • Marcelo Liranco Arantes: ex-sócio da Naskar, atuava na retaguarda da administração e gestão da fintech e empresas ligadas ao grupo desde a formação da sociedade;
  • Douglas Silva de Oliveira Azara: surge como comprador da Naskar após o Metrópoles revelar o caso. Depois de promessas não cumpridas de que os clientes seriam pagos, repassou a responsabilidade da fintech para a avó;
  • Célia de Fatima Ferreira: avó de Douglas, a idosa assumiu o controle da Naskar em junho deste ano. Viúva e moradora de Uberlândia (MG), ela aparece como sócia de outras empresas ligadas ao neto;
  • Naskar Gestão de Ativos Ltda: acusada de fraudar R$ 900 milhões de investidores, é a principal empresa do caso em tela;
  • Celcoin Instituição de Pagamento S.A.: atuava como banco garantidor da Naskar;
  • Nexco Consultoria de Valores Mobiliários e Planejamento Financeiro Ltda: atuava como distribuidora e intermediária de investimentos da Naskar;
  • Family Office Daytona Administracao e Participacoes S S Ltda: fintech que tem Rogério Vieira como sócio-administrador, é apontada em decisões judiciais como parte de um esquema de confusão patrimonial e possível blindagem de bens ligada à Naskar;
  • Volpato Administração e Participações S/S Unipessoal Ltda: empresa ligada ao ex-jogador de vôlei Maurício Volpato;
  • 7trust Finance Instituição de Pagamento S/A: funcionava como braço operacional de pagamentos para as operações da Naskar;
  • Next Holding Financeira Ltda: empresa que faz parte do grupo Naskar.