Mendonça autoriza inquérito contra Lulinha, favorecendo Flávio Bolsonaro

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STF abre inquérito contra Lulinha e oferta ‘presente’ a Flávio Bolsonaro (Foto: Instagram)

André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal, deu aval para abrir um inquérito contra Fábio Luís da Silva, conhecido como Lulinha. Vou abordar a questão jurídica mais adiante. Por ora, basta observar as redes sociais para perceber: isso pode ser um grande presente para a campanha de Flávio Bolsonaro (PL), filho de Jair, que Mendonça já havia elogiado como "profeta do combate ao crime", quando assumiu o Ministério da Justiça em 2020.

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SOBRE PROFETAS
Um fato, não uma opinião. Em 2003, Bolsonaro, então deputado, expressou seus pensamentos proféticos ao criticar parlamentares que condenavam um grupo de extermínio na Bahia, dizendo:

“Quero dizer aos companheiros da Bahia — há pouco ouvi um Parlamentar criticar os grupos de extermínio — que, enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo. Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o meu apoio, porque no meu Estado só as pessoas inocentes são dizimadas.”

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É necessário reconhecer o profeta quando ele está diante de nós.

Na família de homens que se dizem de Deus, destaca-se Flávio, que condecorou o miliciano Adriano da Nóbrega enquanto ele estava preso, acusado de ser um matador. Posteriormente, empregou a esposa e a mãe do criminoso em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio, com pagamentos feitos por meio da "rachadinha", administrada por Fabrício Queiroz. Novamente, um fato, não uma opinião.

Flávio está sob investigação em um inquérito próprio relacionado ao "Dark Horse". O caso está no Supremo devido ao foro especial do senador. Os bolsonaristas tentarão criar uma situação de confronto: agora Lulinha também tem seu inquérito. Pergunta: por que a investigação está no STF? Há rumores de que ele teria feito um "lobby" junto a pessoas ligadas à Presidência e ao Ministério da Saúde.

Claramente, a intenção é envolver Lula na confusão. Como essa questão surgiu a partir da investigação do escândalo do INSS — iniciada pela Controladoria Geral da União (e, portanto, por um ministro de Lula: Vinicius Carvalho) —, parece haver um esforço para que o caso acabe envolvendo quem ordenou a investigação. Tudo indica que esse sempre foi o objetivo dos "patriotas".

MUTAÇÃO INVESTIGATIVA

Estamos diante de um caso claro de “mutação da investigação”, com características que parecem muito evidentes de “pesca probatória”. Para todos os efeitos, Lulinha não era um investigado no caso das fraudes do INSS, embora, tudo indica, fosse o mais investigado de todos. Jamais foi chamado a depor, a prestar esclarecimentos, nada.

Ele conheceu o tal Careca do INSS e viajaram juntos para Portugal — com a viagem paga pelo lobista —, e a investigação mostrou que, de fato, havia uma prospecção — podem usar palavras negativas, se quiserem; não muda o raciocínio — para criar uma empresa para a produção de medicamentos com canabis medicinal. A intermediação foi feita pela empresária Roberta Luchsinger. Quer achar tudo isso esquisito? Ache. Eu também penso que o filho do presidente deveria ter feito outra coisa naquele dia… Mas acompanhe.

POR QUE UM INQUÉRITO PRÓPRIO?

Sabem por que se está abrindo um novo inquérito e por que se procedeu, segundo consta, ao sorteio de um novo relator — e a sorte sorriu para Flávio quando teria caído no colo do próprio Mendonça? Resposta: porque não se conseguiu encontrar nenhuma evidência de que Lulinha fosse beneficiário ou operador de nada ligado à roubalheira do INSS.

Outro dado interessante: nem se cuidava de a defesa de Lulinha pedir o trancamento do inquérito porque não havia, para todos os efeitos, inquérito a trancar. Depois de um ano e três meses, não se conseguiu achar nenhum motivo que justificasse diligência contra o filho do presidente ou intimação para depor.

Li numa reportagem que se trata de “abrir um novo caminho” nesse caso. É? “Novo caminho” para quê? Ora, para alcançar quem está marcado para ser alcançado. Uma pessoa “de grande influência” no gabinete presidencial teria sido mobilizada pelo filho do presidente. Exatamente para quê? Qual foi a negociação, o desembolso de dinheiro público, o tráfico de influência real que teria acontecido? Para que o caso fique no Supremo, quem é o investigado com foro especial?

Leio no Globo:
“Procurada, a defesa de Fábio Luís Lula da Silva afirmou que não teve acesso ao eventual novo pedido da Polícia Federal e disse que, sem conhecer os autos, não pode comentar concretamente a investigação. O advogado Guilherme Suguimori Santos afirmou, no entanto, que será preciso esclarecer qual seria a justificativa para a competência do STF e sustentou que a abertura de um novo inquérito, caso confirmada, demonstraria que a investigação da Operação Sem Desconto não encontrou qualquer elemento que ligasse Fábio Luís às fraudes no INSS. Segundo ele, o empresário “nunca teve relação nenhuma com esse escândalo” e uma nova apuração poderia configurar uma ‘pescaria probatória’”.

Esclarecimentos devem vir à luz. Aguardemos. O presentão, obviamente, está dado. Flávio já ganhou alguns outros ao longo dessa corrida. Mas consegue desperdiçá-los com especial talento.

UMA QUESTÃO PARA NÃO DIZER QUE NÃO…
Uma observação para não dizer que não falei das flores do mal. Segundo apuração que corre pela imprensa, Mendonça passou a exigir, nesse caso do INSS — e nada se encontrou contra Lulinha… —, controle absoluto de todos os procedimentos da PF e mesmo comunicação prévia sobre eventuais remanejamentos de pessoal.

Aprecio o zelo dos zelosos, sempre! Inclusive em matéria de eleger profetas. Ocorre que é o Ministério Público Federal quem faz o controle externo da PF. No dia em que se conceder aos juízes o poder de decidir como a Polícia Judiciária Federal organiza a sua rotina interna, não mais teremos uma Polícia Federal, mas uma soma de guildas controladas por juízes, a depender de seu gosto pessoal.

PERGUNTA FINAL
A quantas anda o inquérito sobre o “Dark Horse”? Cumpre notar, hein? Esse não é um presente que Mendonça deu ao PT. Quem o fez foi Flávio, quando mandou aquele áudio a Daniel Vorcaro.

Pelo visto, não fosse o Intercept Brasil, e ninguém saberia de nada. Tudo teria continuado — desculpe-me, Santa Rita — no escurinho do cinema em que escoiceia o “dark horse”.

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