
Fachada do Deic em São Paulo, apontado como “banco” de propinas (Foto: Instagram)
Ao denunciar 23 indivíduos por participação em um esquema de corrupção envolvendo policiais civis, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) mencionou trocas de mensagens via WhatsApp em que um doleiro se refere ao Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) como um "banco" onde "só se deposita" e "nunca se saca". Segundo os promotores, o diálogo alude a pagamentos feitos para impedir o avanço de investigações.
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A operação Bazaar, deflagrada em 5 de março pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), resultou na prisão de nove pessoas. A partir da apreensão de celulares dos alvos, a Promotoria obteve mensagens que elucidaram o funcionamento do esquema.
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O material coletado revela um fluxo de propinas, chamadas de "despesas do Deic", e a divisão dos valores por meio de empresas de fachada e dinheiro em espécie. Em um dos casos, policiais teriam exigido R$ 5 milhões para interromper investigações no 16º Distrito Policial (Vila Clementino).
Na denúncia, o Gaeco solicita a condenação dos envolvidos por crimes como associação criminosa, corrupção ativa e passiva, e fraude processual. Para os policiais civis, os promotores também pedem a perda dos cargos públicos.
"Os registros de propinas remontam a 10 de agosto de 2020, evidenciando o amplo período em que atuaram para frustrar investigações que poderiam responsabilizá-los, sempre contando com a colaboração de policiais civis corruptos", afirma o MPSP.
"NÃO É DELEGACIA, É BANCO"
No dia 15 de junho, Cleber Azevedo dos Santos, apontado como um dos responsáveis por corromper policiais, enviou ao doleiro Raphael Flores Rodriguez uma foto do interior do Deic, afirmando resolver duas questões em um único dia. Raphael, identificado na conversa como "Batata", ironiza: "É a fachada do banco aí. Isso aí não é delegacia, é banco. Só que só deposita, nunca saca".
Raphael Flores Rodriguez foi preso pela Polícia Federal (PF) no final de março durante a segunda fase da operação Narco Azimut, suspeito de envolvimento em outro esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Em 2020, ele foi condenado em uma ação relacionada à Lava Jato por um esquema de envio de dinheiro para o exterior em benefício de Alberto Youssef.
LÍDER
A investigação aponta que Cleber Azevedo dos Santos liderava, junto com Leonardo Meirelles e Paulo Rogério Silva, o "Paulo Barão", um grupo de doleiros especializado em remessas ilegais ao exterior, usando empresas de fachada e faturas comerciais falsas. O trio movimentou mais de R$ 57 milhões em quatro meses para um dos maiores clientes, o chinês Zhou Wei Feng, conhecido como "Mario".
Em 2021, Cleber foi alvo de uma investigação do Deic, para apurar um golpe de R$ 8,2 milhões sofrido pelo advogado Celso Botelho Marques. A quantia, referente a precatórios do Estado de São Paulo, foi depositada em uma conta bancária sem relação com a vítima e ligada a um grupo de empresas associadas a Cleber e outros dois investigados.
Ao perceber que estava sendo investigado, ele contratou um advogado e alegou ser vítima de estelionato. Como os policiais não acreditaram na versão, Cleber ofereceu R$ 300 mil para evitar o indiciamento de membros do grupo.
Em 8 de abril de 2022, a contabilidade do grupo criminoso registrou a saída de R$ 150 mil em espécie destinado ao Deic, valor compatível com o "acerto" inicial. Dias depois, Cleber solicitou mais dinheiro a parceiros financeiros para completar o pagamento à polícia.
"Após o pagamento, os investigadores cumpriram o acordo e lavraram um relatório que omitia a autoria delitiva de Robson e dos demais membros do grupo. Em mensagens interceptadas, Marlon e Robson ironizaram o resultado, afirmando que o relatório 'aliviou total' e listava 'só inocente'", relatam os promotores.
POLICIAIS PRESOS
Entre os policiais presos na operação Bazaar, em março, estão o delegado João Eduardo da Silva, da Delegacia do Jabaquara, o escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz, da mesma unidade, e os investigadores Roldnei Eduardo dos Reis Baptista, da 1ª Delegacia de Combate à Corrupção do DPPC, e Rogério Coichev Teixeira, do Serviço Aerotático. Eles foram denunciados por corrupção passiva e fraude processual majorada.


