
Criminosos bilionários: PCC e CV lavam recursos em negócios formais (Foto: Instagram)
O poder das maiores facções criminosas do Brasil não é mais medido apenas pelo arsenal, drogas ou territórios que controlam. Nos últimos anos, investigações e estudos sobre o crime organizado revelaram um mecanismo muito mais amplo, com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) transformando dinheiro ilícito em negócios, empresas, fintechs, apostas, fundos de investimento, postos de combustíveis e outros setores da economia formal.
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Embora não haja um balanço oficial sobre quanto essas facções arrecadam anualmente, pesquisas recentes ajudam a dimensionar esse mercado. Um estudo da Esfera Brasil em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública estimou que o PCC teria um faturamento anual mínimo de US$ 1,3 bilhão, o que equivale a cerca de R$ 6,7 bilhões.
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O mesmo estudo revela que facções que surgiram dentro dos presídios e se expandiram através do tráfico de drogas agora operam em dezenas de mercados legais e ilegais, como combustíveis, bebidas, tabaco, ouro, apostas, criptoativos, imóveis, transporte, contrabando e serviços financeiros.
O tráfico ainda é a principal fonte de renda, mas é necessário tirar o dinheiro da informalidade. Para isso, as facções passaram a usar negócios aparentemente legítimos para ocultar a origem dos recursos, pagar colaboradores, adquirir patrimônio e financiar novas atividades criminosas.
Foi esse modelo que apareceu em diferentes operações recentes. Em São Paulo, a Operação Fluxo Oculto, desdobramento da Carbono Oculto, revelou uma estrutura suspeita de lavagem de dinheiro por meio de fintechs, postos de combustíveis e fundos de investimento. Segundo o Ministério Público, seis fintechs atuavam como uma espécie de “banco paralelo”, movimentando recursos entre distribuidoras, postos, empresas e operadores ligados ao esquema.
Uma das fintechs investigadas teria movimentado R$ 1,2 bilhão. Relatórios de inteligência financeira também indicaram movimentações atípicas de quase R$ 4 bilhões dentro da estrutura investigada.
O esquema utilizava o modelo de “contas-bolsão”. Na prática, recursos de várias empresas eram concentrados em uma conta registrada em nome da fintech. Para observadores externos, o dinheiro parecia pertencer à instituição de pagamento. A separação real entre clientes ocorria apenas nos sistemas internos da própria empresa, criando uma camada adicional de ocultação.
Para os investigadores, esse modelo dificultava a identificação dos verdadeiros donos do dinheiro e permitia que recursos do crime circulassem com aparência de normalidade dentro do sistema financeiro.
A mesma operação também revelou outra frente de lavagem, a chamada máfia do nafta. Segundo o Ministério Público, empresas emitiam notas fiscais falsas para simular a venda de solventes petroquímicos a indústrias químicas de fachada. Na prática, o produto era desviado para distribuidoras e terminais, misturado à gasolina e vendido como combustível automotivo.
A investigação identificou o desvio de mais de 135 milhões de litros de nafta e um prejuízo tributário estimado em mais de R$ 200 milhões.
Outra camada do esquema envolvia fundos de investimento. Segundo os promotores, quatro fundos suspeitos ligados ao desvio de nafta acumulavam patrimônio estimado em R$ 205 milhões e tiveram crescimento superior a 200% em pouco mais de um ano.
No Rio de Janeiro, a Operação Contenção mostrou um movimento semelhante no Comando Vermelho. A investigação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Capital apontou que o núcleo financeiro da facção movimentou mais de R$ 453 milhões por meio de recicladoras, ferros-velhos, contas bancárias de passagem, depósitos fracionados, notas fiscais falsas e empresas usadas para dar aparência legal ao dinheiro do tráfico.
O principal alvo da investigação foi Antônio Ilário Ferreira, conhecido como Rabicó, apontado como uma espécie de tesoureiro do Comando Vermelho. Segundo a polícia, ele gerenciava empresas, movimentações bancárias e ocultação de patrimônio.
Em outra frente, a Operação Falsa Las Vegas expôs o uso de plataformas clandestinas de apostas, fintechs, contas de passagem e laranjas para lavar dinheiro de origem criminosa. Na ação, foram apreendidos helicóptero, carros de luxo e bens milionários ligados aos operadores investigados.
O mercado das apostas se tornou especialmente sensível para as autoridades. O setor movimenta valores elevados, opera em ambiente digital e pode ser usado para mascarar a origem de recursos ilícitos por meio de apostas simuladas, contas intermediárias e pagamentos pulverizados.
O estudo da Esfera e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta justamente fintechs, apostas e criptoativos como setores vulneráveis à lavagem de dinheiro pelo crime organizado, especialmente quando há baixa capacidade de fiscalização e rastreamento.
A expansão financeira das facções acompanha a expansão territorial. O PCC consolidou presença em rotas internacionais de cocaína, especialmente através de conexões com Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia. Investigações apontam o uso de portos brasileiros, como o de Santos, para escoar drogas para Europa, África e Ásia.
O Comando Vermelho, por sua vez, ampliou sua influência no Norte e no Nordeste, especialmente em áreas estratégicas da Amazônia e regiões de fronteira. Além do tráfico, a facção passou a se beneficiar de mercados como garimpo ilegal, transporte clandestino, extorsão, comércio irregular e lavagem de dinheiro em negócios locais.


