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El Niño pode aumentar temperaturas e ameaçar cafezais em MG

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Vagens de café maduras em plantação mineira (Foto: Instagram)

Belo Horizonte – A iminente chegada de um novo episódio do El Niño nos próximos meses já acende um alerta para transformações climáticas significativas em diversas regiões do mundo. Embora o fenômeno tenha origem no Oceano Pacífico, seus efeitos podem ser sentidos a milhares de quilômetros, inclusive em Minas Gerais. Especialistas apontam que o fenômeno deve impactar a temperatura, o abastecimento de água e as lavouras no estado, com destaque para a cultura do café.

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Anete Fernandes, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), esclarece que o El Niño é caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais na faixa equatorial do Oceano Pacífico. “Sendo a maior célula oceânica do mundo, qualquer variação em sua temperatura afeta diretamente a circulação geral da atmosfera, causando alterações nos padrões climáticos em várias partes do globo”, explica Anete.

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Para a meteorologista, a intensidade do fenômeno ainda não está definida, mas é esperado um calor acima da média, ondas de calor frequentes e mudanças no padrão das chuvas.

Outro impacto esperado é o aumento do risco de queimadas, especialmente durante o período seco. As temperaturas mais altas observadas no Brasil Central e na região Sudeste intensificam os focos de incêndio e dificultam o controle das chamas.

O fenômeno também altera a distribuição das chuvas ao longo dos meses, segundo a especialista do Inmet. “Em vez de períodos prolongados de precipitação, comuns durante a estação chuvosa, as chuvas tendem a ocorrer de forma mais concentrada e em intervalos menores”, diz. Um exemplo é que um mês pode registrar o volume total de chuva dentro da média histórica, mas toda essa precipitação poderá ocorrer em poucos dias, por meio de pancadas intensas.

Anete explica que essa característica está relacionada à influência do El Niño sobre a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), um dos principais sistemas responsáveis pelas chuvas persistentes no Sudeste durante o verão. “Em anos de atuação do fenômeno, a configuração da ZCAS se torna mais difícil, reduzindo os períodos de céu encoberto e chuva contínua por vários dias. Com isso, as precipitações passam a ocorrer preferencialmente em forma de pancadas isoladas”, afirma.

Os impactos do fenômeno climático também preocupam a cadeia cafeeira mineira. Segundo Sérgio Meirelles, presidente do Sindicato das Indústrias de Café do Estado de Minas Gerais (Sindicafé-MG), mudanças no comportamento das chuvas e o aumento das temperaturas podem afetar diretamente a produtividade, a qualidade da safra e os custos operacionais do setor, especialmente em regiões mais sensíveis ao estresse hídrico.

Meirelles explica que a irregularidade climática pode comprometer etapas importantes do desenvolvimento da lavoura, reduzindo a produtividade e afetando a qualidade da bebida. Além disso, o setor acompanha os impactos do aumento do custo da energia elétrica, especialmente em operações ligadas à irrigação, secagem, beneficiamento e armazenagem, atividades fundamentais para a cadeia industrial do café.

De acordo com Meirelles, a falta de chuva durante o período de florada pode reduzir a produtividade das lavouras, enquanto o calor excessivo acelera a maturação dos grãos e compromete a qualidade da bebida. Já o excesso de chuva próximo à colheita aumenta o risco de fermentação, fungos e perdas na produção.

Apesar do monitoramento constante, ainda não é possível prever qual será a intensidade do próximo episódio nem por quanto tempo ele permanecerá ativo. Caso a configuração do fenômeno ocorra até junho e julho, os impactos mais perceptíveis deverão começar a ser sentidos apenas na primavera, entre o final de setembro e o início de outubro, segundo Anete.

“A classificação do El Niño depende da intensidade do aquecimento das águas do Pacífico. Quando esse aquecimento ultrapassa 2ºC acima do normal, o fenômeno já é considerado forte. Ainda assim, a temperatura do oceano pode continuar aumentando durante sua atuação, ampliando seus efeitos”, afirma.

Especialistas seguem acompanhando a evolução das condições oceânicas e atmosféricas para entender como o El Niño poderá influenciar o clima em Minas Gerais.

A promessa de chegada do El Niño para o segundo semestre de 2026 tem preocupado setores que poderão ser afetados no Estado, como setor elétrico e a agricultura, sobretudo a lavoura de café. Geração de energia e os custos de produção podem trazer consequências preocupantes e isso vem sendo acompanhado por representantes do setor com certa preocupação.

Segundo o consultor de mercado de energia da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Sergio Pacata, os efeitos ainda dependem da intensidade do fenômeno nos próximos meses.

Para o especialista, além dos impactos sobre os reservatórios hidrelétricos, o fenômeno também pode elevar as temperaturas no Sudeste e Centro-Oeste, ampliando o consumo de energia justamente na região de maior demanda elétrica do país.

Sérgio Pacata destaca que o sistema elétrico brasileiro já opera com acionamento de termelétricas, cenário que tende a elevar os custos da energia para consumidores e indústrias. De acordo com Pacata, os setores mais afetados são os eletrointensivos, nos quais a energia representa parcela significativa do custo de produção. Ele observa ainda que os reflexos acabam atingindo toda a cadeia produtiva e chegam ao consumidor final.

“Hoje, o sistema já opera com acionamento de termelétricas, o que encarece a energia no mercado livre e também no mercado regulado, por meio das bandeiras tarifárias. Isso afeta diretamente os setores eletrointensivos, mas os impactos acabam chegando a toda a cadeia produtiva. A energia mais cara não afeta apenas a conta de luz. Ela impacta diretamente o preço final dos produtos”, afirmou Pacata.

Outro fator de preocupação é o aumento do custo da energia elétrica, especialmente para produtores que utilizam irrigação e para operações de secagem, beneficiamento e armazenagem dos grãos.

“O aumento do custo da energia impacta diretamente produtores irrigantes e operações ligadas ao pós-colheita. Em regiões com irrigação intensiva, a energia já está entre os principais custos operacionais da atividade”, destacou Meirelles.

Diante do cenário de incerteza climática, o setor cafeeiro tem ampliado investimentos em tecnologias voltadas à adaptação das lavouras e à eficiência energética, na tentativa de reduzir os impactos sobre a produção e preservar a competitividade da cadeia produtiva em Minas Gerais.

Nos últimos dias, a ocorrência de uma forte chuva de granizo em Boa Esperança levantou dúvidas sobre uma possível relação com o fenômeno. No entanto, a meteorologista Anete Fernandes informa que esse tipo de evento isolado não pode ser diretamente associado ao El Niño.

Os principais impactos do fenômeno no Brasil costumam ser observados na distribuição das chuvas. “A tendência é de precipitações acima da média na Região Sul, enquanto áreas do Norte e do Nordeste registram volumes abaixo do normal”, explica Anete.

Em Minas, os efeitos mais significativos costumam ocorrer nas temperaturas. Historicamente, anos marcados pela presença do El Niño apresentaram temperaturas mais elevadas ao longo de praticamente todo o ano. “Isso significa menos episódios de frio durante o inverno e condições mais quentes também na primavera e no verão. Além disso, aumenta a possibilidade de ocorrência de ondas de calor, como registradas em 2023”, afirma Anete.

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