Cartas para Deolane Bezerra reacendem debate sobre fascínio por presos

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A notícia de que Deolane Bezerra tem recebido cartas de amor durante sua prisão voltou a despertar a curiosidade do público sobre um fenômeno que parece contraditório à primeira vista: afinal, por que algumas pessoas desenvolvem interesse amoroso ou sexual por alguém que está atrás das grades?

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A influenciadora e advogada, que já possuía uma legião de fãs antes das polêmicas envolvendo seu nome, teria recebido diversas mensagens de admiradores durante seu encarceramento. O episódio levanta uma discussão que vai além da celebridade e toca aspectos psicológicos e comportamentais complexos.

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SEM RELAÇÃO COM O CRIME Para a psicóloga Letícia de Oliveira, a atração por pessoas presas nem sempre está relacionada ao crime em si: “O fato de uma pessoa se apaixonar ou desenvolver admiração romântica por alguém que está preso não é tão raro quanto parece”, começou, antes de completar:

“Muitas vezes, as pessoas não se apaixonam pelo crime, mas pela imagem construída em torno daquela figura. No caso de personalidades famosas, existe um sentimento de proximidade emocional chamado relação parassocial, em que o indivíduo sente que conhece intimamente alguém com quem nunca teve contato direto”, explicou.

FAMA INFLUENCIA Segundo a especialista, a fama desempenha um papel importante nesse processo. Pessoas muito expostas na mídia acabam despertando sentimentos de familiaridade que podem sobreviver mesmo em momentos de crise.

“Outro aspecto importante é a atração pelo status, pela fama ou pela notoriedade. Pessoas muito conhecidas costumam receber declarações amorosas mesmo em situações extremamente negativas, porque a exposição constante aumenta a sensação de familiaridade e interesse”, afirmou.

DESEJO DE ACOLHIMENTO E PROTEÇÃO Além da admiração construída ao longo do tempo, algumas pessoas desenvolvem sentimentos relacionados ao desejo de acolher ou proteger alguém que enfrenta dificuldades.

“Também há casos em que o sofrimento da pessoa presa desperta sentimentos de proteção, cuidado ou desejo de salvar o outro. Algumas pessoas enxergam alguém que está enfrentando dificuldades e passam a idealizar uma conexão afetiva”, relatou Letícia de Oliveira.

FASCÍNIO HISTÓRICO O tema também chama a atenção de estudiosos da sexualidade humana. Para Heitor Werneck, pesquisador do comportamento, especialista em fetiches e um dos maiores estudiosos da sexualidade alternativa no Brasil, existe um fascínio histórico por figuras consideradas transgressoras.

“A figura do criminoso ou da pessoa presa ocupa um lugar simbólico muito poderoso no imaginário coletivo. Para algumas pessoas, existe uma atração pela ideia de rebeldia, desafio às regras e comportamento fora dos padrões sociais. Não necessariamente há interesse pelo crime, mas pela representação de poder, coragem ou liberdade que aquela pessoa parece transmitir”, pontuou.

MAIS COMUM DO QUE SE PENSA Segundo Werneck, esse tipo de fascínio não é novo e aparece com frequência na cultura popular, em filmes, séries e até em correspondências enviadas a criminosos famosos ao redor do mundo.

“Existe uma parcela da população que sente atração por figuras consideradas perigosas ou inacessíveis. O proibido sempre exerceu forte impacto sobre o desejo humano. Em alguns casos, a distância física e emocional criada pela prisão também favorece processos de idealização, porque a pessoa admirada passa a existir mais na fantasia do que na realidade”, observou.

A ATRAÇÃO POR CRIMINOSOS Na psicologia, um dos fenômenos associados a esse comportamento é a hibristofilia, termo utilizado para descrever a atração por indivíduos que cometeram crimes. No entanto, especialistas ressaltam que o conceito não deve ser aplicado indiscriminadamente.

“Existe um fenômeno estudado chamado hibristofilia, caracterizado pela atração por pessoas que cometeram crimes. Porém, esse é um quadro específico e não explica a maioria dos casos”, esclareceu Letícia de Oliveira.

Para ela, reduzir todas as demonstrações de afeto dirigidas a pessoas presas a um transtorno psicológico seria um erro.

“Receber cartas de amor na prisão não significa necessariamente que essas pessoas aprovam crimes ou apresentam algum transtorno psicológico. Na maior parte das vezes, estamos falando de idealização, fascínio pela figura pública, necessidade de conexão emocional ou atração por alguém que já era admirado antes dos acontecimentos que levaram à prisão”, declarou.

SEXUALIDADE E VÍNCULOS O especialista em fetiches acrescentou, ainda, que a sexualidade e os vínculos afetivos são marcados por uma enorme diversidade de interesses, fantasias e motivações.

“O desejo humano raramente segue uma lógica simples. Muitas vezes, aquilo que parece estranho para algumas pessoas faz parte de construções emocionais complexas, influenciadas por experiências pessoais, referências culturais e fantasias individuais”, destacou.

COMBINAÇÃO DE FATORES No caso de Deolane Bezerra, especialistas acreditam que a combinação entre fama, forte presença nas redes sociais e ampla cobertura midiática ajuda a explicar o volume de manifestações afetivas recebidas. Mais do que uma atração pelo encarceramento em si, o fenômeno parece refletir o impacto da celebridade sobre seus admiradores, mesmo em momentos de adversidade.

“O comportamento pode ser considerado incomum para algumas pessoas, mas está dentro da diversidade das experiências humanas e dos vínculos afetivos que os indivíduos desenvolvem”, concluiu Letícia de Oliveira.

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