
Jardim verdejante com queda d’água reforça o valor sagrado da natureza (Foto: Instagram)
Recentemente, me peguei refletindo sobre como nós, seres humanos, passamos milênios tentando nomear a natureza. Ao mar. Ao vento. À chuva. À fertilidade da terra.
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Antes da existência de satélites que monitoram furacões do espaço ou modelos climáticos que preveem temperaturas até o final do século, existiam histórias. Histórias fantásticas. E havia deuses.
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Na Grécia antiga, Poseidon governava os mares. Deméter estava ligada à agricultura e colheitas. Ártemis simbolizava o mundo selvagem. Antes deles, Gaia, a própria Terra, era uma divindade.
A milhares de quilômetros, tradições religiosas africanas criaram outras cosmologias, com significados e relações próprios com o mundo natural. No Candomblé, os orixás estão profundamente associados às forças da natureza.
Oxum está ligada às águas doces e rios. Iemanjá, ao mar. Iansã, aos ventos e tempestades. Oxóssi, às matas. Xangô, ao fogo e trovão. Ossain, às folhas e ao conhecimento das plantas.
Não se trata de dizer que essas tradições são equivalentes. Não são. Surgiram em sociedades diferentes, com histórias distintas e ocupam lugares muito diversos no mundo atual — especialmente porque religiões de matriz africana ainda enfrentam intolerância e racismo religioso no Brasil.
Mas há algo que me interessa nessa aproximação. Em cosmologias tão distantes, a natureza nunca aparece apenas como cenário. Ela tem força. Tem personalidade. E merece reverência.
Em algum momento, nos afastamos dessa ideia.
A modernidade nos ensinou, de várias maneiras, a ver a natureza como recurso. A floresta virou madeira, minério e hectares produtivos. O rio, um potencial hidrelétrico ou canal de irrigação. O petróleo, aprisionado por milhões de anos no subsolo, tornou-se combustível.
Falamos da natureza quase sempre em termos do que ela pode nos oferecer, esquecendo de perguntar o que deveríamos oferecer em troca – ou, pelo menos, quais limites deveríamos respeitar.
Diante de tantas ondas de calor, secas, enchentes e vendavais, percebemos, de forma cada vez menos sutil, que a natureza não é passiva. E não é vingança. A ciência explica esses processos sem recorrer à vontade dos deuses.
É pura física.
Na lição que essa física nos oferece, há quase um toque de magia: existem forças maiores que nós. Os antigos sabiam disso.
Quem imaginava um deus habitando o mar sabia que o mar merecia respeito. Quem reconhecia o sagrado nas águas, folhas, matas, ventos ou trovão estabelecia com esses elementos uma relação não apenas econômica.
Claro que ninguém é santo – nem mesmo os antigos. Civilizações derrubaram florestas, modificaram paisagens, guerrearam por recursos e provocaram impactos ambientais muito antes de inventarmos a expressão “mudanças climáticas”.
Mas havia, em muitas dessas cosmologias, a ideia de que a natureza também pertencia ao território do sagrado. E isso é importante. Porque é muito mais fácil destruir o que vemos apenas como recurso do que aquilo diante do qual aprendemos a prestar reverência.
Curioso perceber que nunca entendemos tanto a natureza. Sabemos, hoje, muito mais sobre o funcionamento do planeta do que qualquer sociedade anterior. Conseguimos medir a concentração de CO₂ na atmosfera, reconstruir temperaturas de milhares de anos atrás, observar o derretimento de geleiras por satélite e calcular quanto o nível do mar poderá subir.
Paradoxalmente, talvez nunca tenhamos vivido tão convencidos de que estamos separados dela, a natureza.
Construímos cidades climatizadas, desviamos rios, perfuramos montanhas, atravessamos oceanos em poucas horas. Criamos uma civilização tão sofisticada que, às vezes, parece possível esquecer que continuamos dependendo de coisas elementares: água, solo, chuva, temperatura, ar.
Até que o rio transborda. A chuva não vem. O termômetro passa dos 40 graus. O vento derruba árvores, fecha aeroportos e interrompe cidades inteiras.
E então nos lembramos de algo que os antigos transformaram em deuses e que a ciência moderna transformou em dados: nunca estivemos fora da natureza.
Talvez tenhamos apenas passado alguns séculos acreditando que estávamos.
A crise climática pode ser a resposta mais dura a essa ilusão.






