
Ilustração de ônibus em chamas com a inscrição “20 anos” remete aos ataques do PCC em São Paulo (Foto: Instagram)
Um ataque a uma delegacia na zona leste de São Paulo em 12 de maio de 2006 iniciou uma guerra do crime organizado contra o Estado. Nos cinco dias que seguiram, cerca de 300 edifícios públicos foram atacados, 80 rebeliões ocorreram em presídios e 59 policiais perderam a vida. Vinte anos depois, o Primeiro Comando da Capital (PCC) mudou sua abordagem: em vez de grandes ataques, a facção busca infiltrar-se no Estado, colocando seus membros em cargos públicos ou cooptando servidores.
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Investigações recentes revelaram pessoas associadas ao PCC participando de licitações, organizando lobby, concorrendo a eleições e "contratando" policiais para cometer crimes ou oferecer proteção. Um integrante da facção chegou a comparecer à formatura de sua namorada como delegada da Polícia Civil paulista, e o comandante da Polícia Militar deixou o cargo após ser mencionado em uma investigação sobre PMs atuando como seguranças para membros do PCC ligados a uma empresa de ônibus na capital.
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O caso da morte do delator do PCC, Vinícius Gritzbach, assassinado no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, em novembro de 2024, evidenciou a conexão entre a polícia paulista e a maior facção criminosa do país. Pelo menos 17 policiais militares e cinco civis foram presos por envolvimento. Após isso, outros episódios demonstraram a vulnerabilidade do Estado a esse tipo de infiltração.
A desconfiança de que criminosos podem estar infiltrados gerou um clima de desconfiança nas forças de segurança e medo em prefeituras e câmaras municipais onde investigações já detectaram a presença de membros do PCC.
LÓGICA EMPRESARIAL
Rafael Alcadipani, especialista em segurança pública e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que a mudança de tática do PCC faz parte de uma lógica empresarial adotada pela facção.
“Após os ataques de 2006, observamos um recuo do PCC em ações mais espetaculares e de confronto direto. O PCC adotou uma lógica empresarial, e uma empresa quer ganhar dinheiro da forma mais tranquila possível”, explica Alcadipani. “Por isso, é muito mais interessante corromper agentes públicos, fazendo com que aqueles que deveriam investigá-los sejam cooptados.”
Há anos, teme-se que o PCC esteja infiltrando membros nas corporações policiais por meio de concursos. Na Polícia Militar, os candidatos aprovados passam por uma investigação social rigorosa, que inclui entrevistas com pessoas do convívio, antigos empregadores e escolas. São verificados também processos judiciais, registros de abordagens policiais e até multas de trânsito que possam indicar comportamento perigoso.
“Mas é complicado e tem limitações. Se não houver uma prova direta do envolvimento da pessoa, não há como impedir. Até porque existem advogados especializados em reverter eliminações por motivos mais frágeis”, disse um policial familiarizado com esse serviço, sob condição de anonimato.
INFILTRAÇÃO
A desconfiança atingiu até a cúpula da Polícia Militar, com a saída do coronel José Augusto Coutinho do comando da PM, em abril deste ano. Ele pediu para deixar o cargo após ser citado em uma investigação da Corregedoria sobre a atuação de PMs como seguranças para supostos integrantes do PCC ligados à empresa de ônibus Transwolff, que operava linhas na zona sul de São Paulo e teve seu contrato rompido pela prefeitura após a divulgação dos indícios.
O desgaste aumentou depois que o promotor do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Lincoln Gakiya, que investiga o PCC há mais de 20 anos, depôs à Corregedoria e detalhou como Coutinho teria sido avisado e ignorado outro esquema envolvendo PMs que vazavam informações sigilosas para proteger membros da facção na zona leste de São Paulo.
Membros da Polícia Civil afirmaram ao Metrópoles temer esse tipo de situação também na corporação. O medo é agravado pelo desaparecimento de provas e vazamento de informações de dentro das instalações policiais. No caso de Gritzbach, por exemplo, os policiais civis Valmir Pinheiro, conhecido como Bolsonaro, e Valdenir Paulo de Almeida, apelidado de Xixo, foram presos sob suspeita de receber propina para arquivar investigações sobre tráfico de drogas.
Neste ano, a delegada Layla Lima Ayub foi presa sob suspeita de ligação com o PCC. O caso ganhou repercussão quando veio à tona a presença do namorado dela, Jardel Neto Pereira da Cruz, identificado pela polícia como um importante membro do PCC na região norte, na formatura da policial. Ela acabou presa por advogar para supostos integrantes do Comando Vermelho (CV) em uma audiência de custódia quando já estava em formação como delegada.
O secretário da Segurança Pública (SSP), delegado Osvaldo Nico Gonçalves, ressalta que o caso foi identificado pela Corregedoria, apesar do bom histórico anterior da delegada, e admite que é necessário redobrar o cuidado na seleção. “O cuidado está bem maior”, afirma ao Metrópoles.
O secretário também destaca ações para coibir a infiltração em prefeituras. “Você vê a operação que a gente fez no Demacro agora, e o pessoal querendo se infiltrar nas prefeituras. Cumprimos agora 60 mandados de busca e 13 prisões. Sabe quantos aprendemos e bloqueamos de dinheiro deles? Oito bilhões [de reais] de gente do crime organizado querendo entrar nas prefeituras”, diz Nico.
CONTAMINAÇÃO
O nome da operação mencionada pelo secretário é simbólico: Contaminatio, que significa contaminação em latim. A investigação é uma continuação de um trabalho que mostrou que o PCC se infiltrou em 13 cidades paulistas, incluindo Guarulhos, a segunda maior cidade do estado, para fraudar licitações, obter contratos públicos e lavar dinheiro do tráfico de drogas.
“Ficou clara a intenção [dos alvos] de inserir nessas localidades uma fintech criada por integrantes do PCC com a finalidade de branquear valores de crimes cometidos pela facção. Ela seria usada, por exemplo, para o recebimento de receitas municipais, tais como taxas e impostos”, explicou o delegado Fabrício Intelizano, responsável pela investigação.
A investigação começou em 2023, a partir de dados retirados de um celular apreendido em um simples caso de apreensão de maconha. O conteúdo do telefone abriu caminho para que a polícia descobrisse um esquema muito mais sofisticado, que envolvia um tipo de criminoso que operava abaixo do radar das forças policiais.
PCC NA POLÍTICA
As informações revelaram a articulação para a criação de um núcleo político da organização, pela aproximação de servidores públicos e pela tentativa de eleger candidatos próprios. Uma das conversas interceptadas mostrou suspeitos de pertencerem ao PCC discutindo documentos internos de uma prefeitura sobre a regulamentação de empresas autorizadas a receber pagamentos de receitas municipais, o que abriria caminho para que uma fintech da facção operasse dentro da engrenagem financeira pública.
Os diálogos revelaram também articulação para apoiar candidatos nas eleições de 2024 em cidades como Ubatuba, no litoral norte, Mogi das Cruzes e Santo André, na Grande São Paulo. Naquele ano, órgãos de inteligência informaram ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SP) que 70 candidatos eram suspeitos de ligação com o crime organizado. Desse total, 12 conseguiram ser eleitos, mas os nomes permaneceram em sigilo.
ORGANOGRAMA
O avanço do PCC sobre o Estado não se limita à política. O novo organograma elaborado pela Polícia Civil paulista mostra que a facção opera com estrutura semelhante à de uma corporação, com setores financeiros, braço digital, corregedoria interna, núcleo internacional e, segundo a polícia, associados com perfil empresarial cada vez mais sofisticado.
No lado financeiro, as fintechs chegaram para ficar. A BKBank, por exemplo, movimentou milhões de reais em um esquema de exploração de jogos de azar e venda de combustíveis adulterados. Em outro caso, a cooptação de agentes de segurança se mistura ao uso dessas empresas para lavar dinheiro: o PM Diogo Costa Cangerana, ex-segurança do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi apontado como suspeito durante ação que desarticulou três empresas de serviços financeiros suspeitas de movimentar R$ 6 bilhões da facção.
Pela primeira vez, um empresário do setor de combustíveis aparece oficialmente listado entre os cerca de 100 nomes do organograma. Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, surge ao lado de traficantes, assaltantes de banco e homicidas que compõem as lideranças da maior facção criminosa do país, encabeçada por Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, preso na Penitenciária Federal de Brasília.
LÁ E CÁ
Se por um lado o PCC se sofisticou e ganhou a Faria Lima, com fintechs e fundos de investimento administrados por gestoras do principal centro financeiro do país, não quer dizer que ele abandonou a fórmula que o fez chegar onde chegou. A facção continua tendo forte controle em regiões periféricas e nas prisões.
Mostra disso foi a operação recente da polícia para retirar barricadas instaladas pelo PCC na favela da Paraisópolis, onde domina o tráfico de drogas. Realizada após uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo, a ação mobilizou mais de 60 agentes, 15 viaturas e drones. Depois disso, o governador correu às redes para repetir o bordão de que, em São Paulo, não há lugar onde a polícia não entre.
O policial penal e sindicalista Fábio Cesar Ferreira afirma que o sistema continua não estando preparado para lidar com uma onda de rebeliões como as de 20 anos atrás. “Hoje, nós temos todos os ingredientes pra ter novas rebeliões, e com muito mais estrago, porque hoje nós temos uma superlotação e um déficit funcional imenso”, diz.


