Polícia Federal indicia donos de igrejas no DF por desvio milionário no INSS

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Fachada da Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus, em Recanto das Emas (DF). (Foto: Instagram)

A Polícia Federal indiciou, nesta quarta-feira (14/7), dois fundadores de igrejas evangélicas em Brasília por envolvimento no caso conhecido como a Farra do INSS. Entre eles está Dogival José dos Santos, responsável pela criação da Crusada Nacional de Evangelismo em 1996, registrada como "Primeira Igreja Pentecostal Cristo a Esperança", em Ceilândia. Antes do esquema de fraudes no Instituto Nacional de Seguro Social ser descoberto, Dogival atuava como presidente da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB), uma das ONGs envolvidas nos descontos ilegais.

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Outra pessoa ligada à Associação dos Aposentados do Brasil é Lucineide dos Santos Oliveira, presidente da Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus, situada no Recanto das Emas, a cerca de 32 km de Brasília. Lucineide também foi indiciada pela Polícia Federal.

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De acordo com a Polícia Federal, o casal está envolvido em corrupção ativa e passiva, inserção de dados falsos em sistemas, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Dogival e Lucineide foram chamados para esclarecer os fatos, mas optaram por permanecer em silêncio.

Além do casal, outras 46 pessoas foram indiciadas por fraudes nos benefícios de aposentados e pensionistas. Segundo a Polícia Federal, as irregularidades investigadas podem ter causado um prejuízo estimado em cerca de R$ 6 bilhões aos beneficiários.

A placa de identificação da Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus foi removida dias após o Metrópoles revelar que a instituição pertence à sócia da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB).

Curiosamente, no mesmo endereço da igreja evangélica, fundada por Lucineide dos Santos Oliveira, sócia da AAB, supostamente opera uma empresa pertencente a Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, contador da Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores Familiares (Conafer) – outra instituição envolvida nas fraudes.

Antes da retirada da fachada, a reportagem esteve no endereço e encontrou apenas a instituição religiosa, situada entre um centro catequético e um terreno baldio. No entanto, segundo dados da Receita Federal, a loja de Samuel está ativa no local, levantando suspeitas de ser uma empresa fantasma.

Dias após a denúncia do Metrópoles, a placa da igreja evangélica foi retirada e o terreno baldio foi cercado por um alambrado.

O relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS também mencionou Dogival e Lucineide. No documento, o casal é acusado de desviar milhões do INSS através de uma rede criminosa "familiar e religiosa".

Dogival é apontado como um dos líderes do núcleo familiar e operacional do grupo "Santos", atuando na presidência de entidades de fachada e na circulação de recursos ilícitos provenientes de descontos não autorizados em benefícios previdenciários.

Conforme a CPMI, Dogival usou o controle de entidades como a Associação dos Aposentados do Brasil (AAB) e o Instituto Terra e Saúde (ITS) para acessar dados de segurados e desviar ativos previdenciários.

Durante as investigações, foi revelado que Dogival assumiu a presidência da AAB no período em que a entidade, inicialmente voltada à habitação, foi transformada em uma associação de defesa de aposentados, em outubro de 2022.

Relatórios de inteligência financeira mostraram que Dogival foi um dos principais emissores e receptores de recursos dentro da rede de lavagem do grupo. Entre 2019 e 2025, ele realizou 353 depósitos em favor de Lucineide dos Santos Oliveira, somando R$ 741.370,58. Essas transações fracionadas e repetitivas configuram a técnica de smurfing – usada para ocultar o rastro do dinheiro e dificultar a fiscalização bancária.

Além disso, Dogival é acusado de articular a gestão de recursos com o filho – Dogival José dos Santos Júnior, e com Samuel Chrisóstomo, contador da Conafer, utilizando o ITS e empresas de fachada para lavar os lucros dos crimes.

Lucineide, por sua vez, atuava como tesoureira da AAB. A comissão a acusou de atuar no núcleo financeiro e administrativo da organização criminosa que operava as fraudes da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais (Conafer).

Conforme as investigações, Lucineide também atuou na gestão de empresas de fachada, na operacionalização de descontos indevidos e na dissimulação dos lucros dos crimes através de uma rede familiar e religiosa.

Ela também foi identificada como uma operadora estratégica na lavagem de dinheiro e na dispersão de recursos desviados de aposentados.

Como pessoa física, Lucineide recebeu R$ 160,9 milhões entre 2019 e 2025, dos quais R$ 113 milhões vieram diretamente da Conafer. "Essa movimentação é flagrantemente incompatível com sua realidade econômica, visto que em 2022 ela tinha renda formal de apenas R$ 2 mil e histórico de inscrição no CadÚnico", consta no relatório.

A investigação financeira comprovou que Lucineide transferiu R$ 40 mil, em 2024, para o servidor Pedro Alves Corrêa Neto, identificado como o principal técnico que facilitava os processos das associações na DIRBEN/INSS.

"Por meio de sua empresa Expresso Marketing, Lucineide enviou R$ 9,5 milhões para a BSF Gestão em Saúde – controlada por Danilo Trento – e repassou R$ 5,94 milhões para o BK Bank – instituição investigada por lavar dinheiro para organizações criminosas.

Além disso, efetuou uma transferência única de R$ 600 mil, em 2024, para o Auto Posto Topa Tudo – estabelecimento localizado em Minas Gerais e utilizado para branqueamento de capitais.

Ainda segundo o relatório, Lucineide transferiu cerca de R$ 700 mil para o escritório de Milena Câmara, filha do Deputado Federal Silas Câmara. Esses pagamentos ocorreram entre 2023 e 2024, coincidindo com reuniões de articulação entre o parlamentar e o presidente da Conafer.

Após o início dos repasses milionários, Lucineide adquiriu uma frota incompatível com seus rendimentos: um Porsche Boxster 2023, uma Mitsubishi Triton 2024 e um VW T-Cross 2025. A Polícia Federal aponta que ela também registrava veículos de terceiros em seu nome para proteger o patrimônio dos líderes da organização.

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